HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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a fundo no 
livro de Giovanni Arrighi de 1994, O longo século XX **. Há, segundo ele, um 
claro padrão em que períodos de financeirização precedem uma mudança de hege\u2011
monia. Para acomodar o acúmulo interminável, a hegemonia se desloca no de\u2011
correr do tempo de entidades políticas menores (por exemplo, Veneza) a outras 
maiores (por exem plo, os Países Baixos, Grã\u2011Bretanha e Estados Unidos). A hegemo\u2011
nia normalmente pertence à entidade política que produz grande parte do exce\u2011
dente (ou à qual grande parte do excedente flui na forma de tributos ou extra\u2011
ções imperialistas). Com um total de produção global em 56,2 trilhões de dólares 
em 2008, a cota dos EUA de 13,9 trilhões de dólares ainda faz desse país o acio\u2011
nista que controla o capitalismo global, capaz de orientar as políticas globais (como 
faz em seu papel de acionista\u2011chefe nas instituições internacionais, como Banco 
Mundial e FMI).
* São Paulo, WMF Martins Fontes, 2010, 2 v. (N. E.)
** Rio de Janeiro, Contraponto, 2006. (N. E.)
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Mas o mapa da atividade produtiva do mundo e da acumulação de riqueza pa\u2011
rece radicalmente diferente hoje de como era em 1970. A Ásia se adaptou rápido 
ao ritmo. Pequenas aldeias chinesas como Shenzhen e Dongguan, perto de Hong 
Kong, tornaram\u2011se cidades multimilionárias e potências de produção do dia para a 
noite. Grande parte do excedente mundial foi absorvida na produção desses novos 
espaços de atividades capitalistas, bem como nas infraestruturas necessárias para 
facilitar o crescente volume de comércio internacional desses países (por exemplo, 
aeroportos e portos de carga). Os espaços específicos para os quais as atividades 
passaram não estavam dados de antemão, foram determinados por uma série de 
contingências e fatores locais, dependendo, em parte, dos chamados \u201cnaturais\u201d, 
bem como dos recursos humanos e das vantagens de localização (como a proximi\u2011
dade do Norte do México com o mercado dos EUA). As especificidades das políti\u2011
cas estatais (como investimento em infraestruturas, subvenções para investimento, 
políticas em relação a trabalho ou criação da legislação das zonas de \u201cmaquila\u201d no 
México e nas \u201czonas econômicas especiais\u201d após 1980 na China) também desempe\u2011
nharam um papel importante.
A geografia do desenvolvimento e da subsequente crise tem sido desigual. Os 
países que tinham sido os mais perdulários na promoção da bolha imobiliária \u2013 
Estados Unidos, Grã\u2011Bretanha, Irlanda e Espanha \u2013 foram os epicentros iniciais da 
crise, mas houve abundância de pontos em outros lugares. Os epicentros financei\u2011
ros foram Nova York e Londres, que tinham compartilhado a liderança em cortar, 
fracionar e assegurar hipotecas residenciais e outras formas de dívida e em construir 
os instrumentos financeiros (obrigações de dívida principalmente colateralizadas e 
veí culos especiais de investimento) para o marketing e a comercialização da dívida, 
juntamente com os mecanismos secundários para o seguro, a cobertura e a troca 
desta. A arquitetura financeira que surgiu após a unificação \u201cBig Bang\u201d dos merca\u2011
dos financeiros globais em 1986 fez com que falhas em Londres e Nova York fos\u2011
sem imediatamente sentidas em toda parte. Este era, afinal, o sistema financeiro 
que permitia a um investidor num escritório em Singapura, Nicholas Leeson, co\u2011
mercializar no mercado de Tóquio de tal forma a levar à falência o venerável Barings 
Bank de Londres, em 1995. Foi por isso que o choque causado no sistema finan\u2011
ceiro global pela quebra do Lehman Brothers foi tão instantâneo e profundo.
O colapso dos mercados de crédito, entretanto, teve um impacto diferenciado 
de acordo com o grau em que a atividade econômica dependia desses mercados. A 
Islândia, que havia assumido o papel de empreendedor de crédito especulativo e 
sistema bancário, perdeu quase toda a sua riqueza de ativos em questão de semanas, 
deixando os investidores (muitos na Grã\u2011Bretanha), com imensas perdas e seu go\u2011
verno em desordem. Muitos países da Europa oriental que recentemente aderiram 
à União Europeia e haviam tomado grandes empréstimos não puderam rolar suas 
dívidas e enfrentaram a falência (o governo da Letônia entrou em colapso).
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Por outro lado, os países que não haviam integrado totalmente seu sistema fi\u2011
nanceiro à rede global, como China e Índia, foram mais bem protegidos. E, como 
consumidores recuaram, países como os EUA e Reino Unido, com endividamen\u2011
to imenso das famílias em relação à renda, foram atingidos de forma diferente, 
como foram os países, a exemplo dos EUA de novo, que tinham as proteções so\u2011
ciais menos generosas contra o aumento do desemprego. (Os países europeus eram 
em geral muito melhores nessa questão e, portanto, não precisaram responder com 
pacotes de estímulo extras.) Os países que dependiam fortemente dos EUA como 
principal mercado de exportação, em particular aqueles do Leste e Sudeste Asiático, 
acabaram sendo puxados para baixo, assim como os mercados acionários, enquanto 
produtores de matérias\u2011primas e bens, que estavam em alta no início de 2008 e 
consideravam\u2011se imunes à crise, de repente se viram em sérias dificuldades quando 
os preços das matérias\u2011primas e bens despencaram no segundo semestre de 2008. Os 
preços do petróleo, que havia subido para quase 150 dólares o barril no verão de 
2008 (levando a muita conversa sobre o \u201cpico petrolífero\u201d), voltaram para 40 
dólares dentro de poucos meses, causando todo tipo de problemas para Rússia, 
Venezuela e Estados do Golfo. O colapso do boom baseado nas receitas do petróleo 
no Golfo fez com que milhares de trabalhadores imigrantes da Índia, Palestina e 
Sudeste da Ásia fossem enviados para casa.
México, Equador, Haiti e Kerala, na Índia, que dependiam fortemente das re\u2011
messas dos trabalhadores de outros lugares, de repente viram os rendimentos fa\u2011
miliares secarem na medida em que os empregos na construção civil no exterior 
eram perdidos e empregadas domésticas, demitidas. Desnutrição e mortes por 
fome aumentaram em muitos desses países mais pobres, desmentindo a ideia de 
que populações marginalizadas não são de alguma forma afetadas por crises finan\u2011
ceiras no mundo capitalista avançado.
A crise se propagou em cascata de uma esfera para outra e de uma localização 
geográfica para outra, com toda sorte de rebotes e respostas que pareciam quase 
impossíveis de colocar sob controle, muito menos parar e levar para trás. Enquanto 
as populações pareceram inicialmente surpresas com o rumo dos acontecimentos, 
protestos populares contra as formas do capital internacional, que tinham aparecido 
e se intensificado depois do movimento em Seattle em 1999, mas diminuíram após 
o 11 de Setembro, de repente reapareceram, dessa vez com um alvo afiado e, nova\u2011
mente, com muita desigualdade geográfica. As greves eclodiram na França, junto 
com protestos na China, revoltas rurais na Índia e agitação estudantil na Grécia. 
Nos Estados Unidos, um movimento de pessoas sem teto para ocupar habitações 
abandonadas ou nas quais houve despejos começou a tomar forma.
O que era certo era que o modelo anglo\u2011estadunidense de desenvolvimento 
econômico do mundo, que dominou no período pós\u2011Guerra Fria de triunfalismo 
do livre\u2011mercado na década de 1990, estava desacreditado. 
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Então por que o capitalismo gera periodicamente essas crises? Para responder a 
isso, precisamos de uma compreensão muito melhor de como o capitalismo fun\u2011
ciona do que a que possuímos hoje. O problema é que as teorias e ortodoxias eco\u2011
nômicas que, manifestamente, não conseguiram prever a crise continuam infor\u2011
mando nossos debates, dominando nosso pensamento e fundamentado a ação 
política. Sem desafiar essas concepções mentais dominantes