HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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tempo eu provavelmente estarei fechando as 
portas. Preciso proteger e expandir minha participação no mercado. Tenho de 
reinvestir pa ra permanecer um capitalista. Isso pressupõe, no entanto, a existên\u2011
cia de um ambiente competitivo, que exige que também expliquemos como a 
concorrência é perpetuada em face das tendências para a monopolização ou outras 
barreiras sociais ou tradicionais ao comportamento competitivo. Voltarei a esse 
problema em breve.
Há, contudo, outra motivação para reinvestir. O dinheiro é uma forma de po\u2011
der social que pode ser apropriado por particulares. Além disso, é uma forma de 
po der social que não tem limites inerentes. Há um limite para a quantidade de ter\u2011
ra que posso ter, de ativos físicos que posso comandar. Imelda Marcos tinha 6 mil 
pares de sapatos, descobriu\u2011se após a derrubada da ditadura de seu marido nas Fi\u2011
lipinas, mas isso ainda constituía um limite da mesma forma que as pessoas muito 
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ricas não podem possuir bilhões de iates ou condomínios fechados. Mas não exis\u2011
te limite inerente aos bilhões de dólares que um indivíduo pode comandar. A ili\u2011
mitação do dinheiro e o desejo inevitável de comandar o poder social que ele 
confere oferecem uma gama abundante de incentivos sociais e políticos para querer 
ainda mais dinheiro. E uma das principais maneiras de ter mais é reinvestir uma 
parte dos fundos excedentes conquistados ontem para amanhã gerar mais exce\u2011
dentes. Existem, é triste dizer, muitas outras formas de acumular o poder social que 
o dinheiro possibilita: fraude, corrupção, banditismo, roubo e tráfico ilegal. Mas 
vou considerar aqui em especial as formas legalmente sancionadas, embora pos\u2011
sa haver um argumento sério de que as formas extralegais são fundamentais, não 
apenas periféricas, ao capitalismo (os três maiores setores de comércio externo glo\u2011
bal são as drogas, as armas ilegais e o tráfico de seres humanos).
A importância da natureza ilimitada do poder do dinheiro não pode ser enfati\u2011
zada demais. Os principais gestores de fundos de cobertura em Nova York tiveram 
remunerações pessoais de 250 milhões de dólares cada em 2005, enquanto 
em 2006 o gestor mais bem\u2011sucedido fez 1,7 bilhão de dólares e, em 2007, que 
foi um ano desastroso nas finanças globais, cinco deles (incluindo George Soros) 
ganharam 3 bilhões de dólares cada. É isso o que tenho em mente quando falo 
do dinheiro ilimitado como uma forma de poder social. O que George Soros faria 
se ele fosse pago em pares de sapatos?
A ganância pessoal pelo ouro não é nada nova, é claro. Mas há muito tempo os 
sistemas sociais têm sido construídos para tentar limitar a concentração excessiva 
de poder pessoal que a posse de riqueza monetária confere. O que os antropólogos 
chamam de \u201cpotlatch\u201d em sociedades não capitalistas, por exemplo, confere prestí\u2011
gio a quem abre mão dos bens materiais que acumula, renuncia a eles ou em alguns 
casos até os destrói totalmente em elaboradas cerimônias. Várias formas de econo\u2011
mias de dote fazem o mesmo. A generosidade filantrópica tem uma longa tradição, 
mesmo dentro da história do capitalismo \u2013 pense nas fundações Carnegie, Ford, 
Rockfeller, Gates, Leverhulme e Soros. Instituições não capitalistas, como o Vati\u2011
cano, também podem aproveitar a riqueza pessoal (na época medieval, a Igreja 
Católica vendia indulgências \u2013 bilhetes para o céu \u2013 para ricos comerciantes). Du\u2011
rante a maior parte do século passado, muitos dos Estados capitalistas avançados 
adotaram a tributação progressiva, redistribuições em espécie e impostos de heran\u2011
ça fortes, reduzindo assim concentrações excessivas de riqueza pessoal e poder.
Então, por que as restrições à concentração excessiva do poder do dinheiro foram 
afrouxadas nos EUA e em outros lugares depois de 1980? Explicações em termos de 
uma explosão repentina de \u201cganância infecciosa\u201d (termos de Alan Green span) sim\u2011
plesmente não adiantam, pois o desejo subjacente do poder do dinheiro sempre 
esteve presente. Por que o presidente Bill Clinton se rendeu tão facilmente aos 
portadores de títulos? Por que Larry Summers, quando era o secretário do Tesouro 
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de Clinton, se opôs veementemente à regulação financeira, e por que Joseph 
Stiglitz, que agora se posiciona no lado esquerdo do grupo dominante, mas que era 
o principal conselheiro econômico de Clinton na década de 1990, terminou \u201cpor 
acaso\u201d apoiando decisões que acabaram sempre tornando os ricos mais ricos? Será 
que George W. Bush abraçou princípios de tributação que favoreceram imensa\u2011
mente os ricos só porque gostava deles ou porque necessitava de seu apoio à reelei\u2011
ção? Foi coincidência que o \u201cPartido de Wall Street\u201d tenha tomado o poder, 
tanto no Congresso quanto no Executivo? Em caso afirmativo, por que Gordon 
Brown, o novo chanceler trabalhista do Ministério das Finanças da Grã\u2011Bretanha, 
também se juntou tão facilmente a essa linha? (Será que a City de Londres chegou 
a ele, também?) E por que os mais ricos enriqueceram imensamente em todos os 
lugares, desde a Rússia e o México até a Índia e a Indonésia?
Na ausência de quaisquer limites ou barreiras, a necessidade de reinvestir a fim 
de continuar a ser um capitalista impulsiona o capitalismo a se expandir a uma 
taxa composta. Isso cria então uma necessidade permanente de encontrar novos 
campos de atividade para absorver o capital reinvestido: daí \u201co problema da absor\u2011
ção do excedente de capital\u201d. De onde virão as novas oportunidades de investimen\u2011
to? Existem limites? Claramente, não há nenhum limite inerente à capacidade 
monetária de estimular o crescimento (como se tornou evidente em 2008 e 
2009, quando os Estados produziram, aparentemente do nada, trilhões de dólares 
para salvar um sistema financeiro em crise).
Mas existem outros potenciais obstáculos à circulação do capital, que, se se tor\u2011
narem intransponíveis, podem produzir uma crise (definida como uma condição 
em que os excedentes de produção e reinvestimentos estão bloqueados). O cresci\u2011
mento, em seguida, para e parece haver um excesso ou superacumulação de capital 
em relação às possibilidades de uso desse capital de forma lucrativa. Se o crescimen\u2011
to não recomeça, então o capital superacumulado se desvaloriza ou é destruído. A 
geografia histórica do capitalismo está repleta de exemplos de crises de superacu\u2011
mulação, algumas locais e de curta duração (como a queda dos bancos suecos em 
1992), outras em uma escala um pouco maior (a recessão de longa data que aflige 
a economia japonesa desde 1990 aproximadamente) e outras vezes tomando todo 
o sistema e, mais tarde, o globo (como em 1848, 1929, 1973 e 2008). Numa crise 
geral, uma grande quantidade de capital fica desvalorizada (cerca de 50 trilhões de 
dólares de perda estimada em valores de ativos globais na crise atual, por exemplo). 
Capital desvalorizado pode existir em muitas formas: fábricas desertas e abandona\u2011
das; áreas de escritório e lojas de varejo vazias; mercadorias excedentes que não 
podem ser vendidas; dinheiro que fica ocioso sem ganhar nenhuma taxa de retor\u2011
no; declínio dos valores de ativos e ações, terras, propriedades, objetos de arte etc.
Tanto Karl Marx quanto Joseph Schumpeter escreveram de modo detalhado 
sobre as tendências \u201ccriativo\u2011destrutivas\u201d inerentes ao capitalismo. Embora Marx 
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claramente admirasse a criatividade do capitalismo, ele (seguido por Lenin e toda 
a tradição marxista) enfatizou sua autodestruição. Os schumpeterianos têm van\u2011
gloriado a criatividade sem fim do capitalismo, tratando a destrutividade como 
uma questão de custos normais dos negócios (embora admitam que, às vezes, a 
destrutividade infelizmente fique fora de controle). Ainda que os custos