HARVEY, David. O Enigma do Capital
235 pág.

HARVEY, David. O Enigma do Capital


DisciplinaPolítica Social518 materiais1.942 seguidores
Pré-visualização50 páginas
(sobretu\u2011
do quando medidos em vidas perdidas nas duas guerras mundiais que foram, afi\u2011
nal, guerras intercapitalistas) tenham sido maiores do que o que os schumpeteria\u2011
nos normalmente admitem, pode ser que estejam certos a partir da perspectiva da 
longue durée, pelo menos até recentemente. O mundo tem, afinal, sido feito e re\u2011
feito várias vezes desde 1750, e a produção acumulada, bem como o padrão de vida 
medido em bens materiais e serviços, aumentou significativamente para um núme\u2011
ro crescente de pessoas privilegiadas por mais que a população total tenha subido 
de menos de 2 bilhões para cerca de 6,8 bilhões. O desempenho do capitalismo nos 
últimos duzentos anos tem sido nada além de surpreendentemente criativo. Mas 
hoje a situação pode estar muito mais próxima do que nunca ao que Marx descre\u2011
veu \u2013 e não só porque as desigualdades sociais e de classe têm se aprofundado 
dentro de uma economia global muito mais volátil (já o fez antes \u2013 a vez mais 
preocupante foi nos anos 1920, antes da última grande depressão).
O capitalismo tem sobrevivido até agora apesar de muitas previsões sobre sua 
morte iminente. Esse êxito sugere que tem fluidez e flexibilidade suficientes para 
superar todos os limites, ainda que não, como a história das crises periódicas 
tam bém demonstra, sem violentas correções. Marx propõe uma forma útil de olhar 
para isso em suas anotações, enfim publicadas sob o título Grundrisse der Kritik der 
Politischen Ökonomie*, em 1941. Ele contrasta o ilimitado potencial de acumula\u2011
ção monetária, por um lado, com os aspectos potencialmente limitadores de ativi\u2011
dade material (produção, troca e consumo de mercadorias), por outro. O capital 
não consegue tolerar tais limites, ele sugere. \u201cCada limite aparece\u201d, observa, \u201ccomo 
uma barreira a ser superada\u201d. Há, portanto, dentro da geografia histórica do capi\u2011
talismo, uma luta perpétua para converter limites aparentemente absolutos em 
barreiras que possam ser transcendidas ou contornadas. Como isso acontece e 
quais são os limites principais?
O exame do fluxo de capital por meio da produção revela seis barreiras poten\u2011
ciais à acumulação, que devem ser negociadas para o capital ser reproduzido: i) 
capital inicial sob a forma de dinheiro insuficiente; ii) escassez de oferta de traba\u2011
lho ou dificuldades políticas com esta; iii) meios de produção inadequados, in\u2011
cluindo os chamados \u201climites naturais\u201d; iv) tecnologias e formas organizacionais 
* Karl Marx, Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857-1858 \u2013 Esboços da crítica da economia polí-
tica (São Paulo, Boitempo, 2011). A tradução para o português tem por base a edição da MEGA, 
Karl Marx Ökonomie Manuskripte 1857/58, partes 1 e 2 (MEGA\u20112 II/1, Berlim, Dietz, 1976 e 
1982). (N. E.)
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 46 11/18/11 4:35 PM
O capital reunido / 47
inadequadas; v) re sistências ou ineficiências no processo de trabalho; e vi) falta 
de demanda fundamentada em dinheiro para pagar no mercado. Um bloqueio 
em qualquer um desses pontos interrompe a continuidade do fluxo de capital e, 
se prolongado, acaba produzindo uma crise de desvalorização. Consideremos 
esses obs táculos potenciais um a um.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
A acumulação original do capital no fim da época medieval na Europa se fun\u2011
damentou em violência, depredação, furto, fraude e roubo. Por esses meios extra\u2011
legais, piratas, padres e comerciantes, complementados pelos usurários, reuniram 
\u201cpoder de dinheiro\u201d inicial suficiente para começar a circular o dinheiro de forma 
sistemática sob a forma de capital. O roubo espanhol de ouro incaico foi o exem\u2011
plo paradigmático. Nos estágios iniciais, porém, o capital não circulou diretamen\u2011
te por meio da produção. Assumiu uma variedade de outras formas, como capital 
agrário, comerciante, fundiário e, por vezes, mercantilista de Estado. Essas for\u2011
mas não eram adequadas para absorver os vastos fluxos de ouro. Ouro demais 
perseguia bens de menos. O resultado foi a \u201cgrande inflação\u201d do século XVI na 
Europa. Foi só quando os capitalistas aprenderam a circular o capital através da 
produção empregando trabalho assalariado que o crescimento composto pôde co\u2011
meçar, aproximadamente após 1750.
A burguesia em ascensão progressivamente usou seu poder do dinheiro para 
influenciar e reconstituir as formas do Estado, em última análise assumindo 
uma in fluência dominante sobre as instituições militares e administrativas, além dos 
sistemas jurídicos. Em seguida, ela pôde adotar meios sancionados legalmente para 
reunir o poder do dinheiro pela despossessão e destruição das formas pré\u2011capitalis\u2011
tas de providência social. Fê\u2011lo tanto dentro do Estado \u2013 ao lotear, por exemplo, 
terras comuns e monetarizar os aluguéis na Grã\u2011Bretanha \u2013 quanto no exterior, por 
meio de práticas coloniais e imperialistas (a imposição de impostos sobre a terra na 
Índia). Uma relação estreita, em seguida, surgiu entre as finanças e o Estado, em 
especial por meio do aumento da dívida pública (geralmente para financiar guerras).
No coração do sistema de crédito está um conjunto de acordos que constitui o 
que chamo de \u201cnexo Estado\u2011finanças\u201d. Isso descreve a confluência do poder esta\u2011
tal e das finanças que rejeita a tendência analítica de ver o Estado e o capital 
como claramente separáveis um do outro. Isso não significa que o Estado e o 
capital tenham constituído no passado ou agora uma identidade, mas que exis\u2011
tem estruturas de governança (como o poder sobre a confecção da moeda real no 
passado e os bancos centrais e ministérios do Tesouro hoje) nas quais a gestão do 
Estado para a criação do capital e dos fluxos monetários torna\u2011se parte integrante, 
e não separável, da circulação do capital. A relação inversa também se sustenta 
na medida em que impostos ou empréstimos fluem para os cofres do Estado e na 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 47 11/18/11 4:35 PM
48 / O enigma do capital
medida em que as funções do Estado também se monetarizam, mercantilizam e, 
finalmente, privatizam.
À medida que mais e mais excedente criado ontem é convertido em capital 
novo hoje, mais e mais dinheiro investido hoje vem dos lucros obtidos ontem. Isso 
poderia levar a pensar que a acumulação violenta praticada em tempos anteriores é 
redundante. Mas a \u201cacumulação por despossessão\u201d continua a desempenhar um pa\u2011
pel na reunião do poder do dinheiro inicial. Meios tanto legais quanto ilegais \u2013 como 
violência, criminalidade, fraude e práticas predatórias do tipo das que foram des\u2011
cobertas nos últimos tempos no mercado de hipotecas subprime ou de forma ainda 
mais significativa no comércio de drogas \u2013 são implementados. Os meios legais 
incluem a privatização do que antes era considerado como recursos de propriedade 
comum (como a água e a educação), o uso do poder público para apreender bens, 
as práticas generalizadas de aquisições, as fusões e outros mecanismos similares que 
resultam no \u201cdesmembramento de ativos\u201d e o cancelamento de obrigações de pen\u2011
são e saúde, por exemplo, num processo de falência. As perdas de ativos que muitos 
têm experimentado durante a crise recente podem ser vistas como uma forma de 
despossessão, que pode ser transformada em mais acumulação na medida em que 
os especuladores compram os ativos mais baratos hoje pensando em vendê\u2011los com 
lucro quando o mercado melhorar. Isso é o que os banqueiros e os fundos de 
cobertura fizeram durante o crash de 1997 a 1998 no Leste e Sudeste Asiático. As 
grandes perdas nessa parte do mundo alimentaram os cofres dos principais centros 
financeiros.
Se fosse só a acumulação de ontem que pudesse ser capitalizada para expandir 
hoje, ao longo do tempo nós veríamos um aumento gradual da concentração do capi\u2011
tal\u2011dinheiro em algumas mãos. Mas o sistema de crédito permite que grandes quan\u2011
tidades de poder de dinheiro possam ser reunidas rapidamente por meios diferentes. 
Isso se torna importante porque, como o pensador utópico