HARVEY, David. O Enigma do Capital
235 pág.

HARVEY, David. O Enigma do Capital


DisciplinaPolítica Social492 materiais1.903 seguidores
Pré-visualização50 páginas
francês do século XVIII 
Saint\u2011Simon há muito argumentou, é preciso que haja a \u201cassociação de capitais\u201d em 
larga escala para por em marcha os tipos de trabalhos monumentais como ferrovias 
que são necessários para sustentar o desenvolvimento capitalista a longo prazo. Isso foi 
o que os financistas do século XIX, os irmãos Péreires, educados na teoria saint\u2011simo\u2011
niana, efetivamente alcançaram por meio das instituições de crédito que criaram para 
ajudar o barão Haussmann a transformar o ambiente urbano da Paris do Segundo 
Império na década de 1850. (As avenidas que vemos hoje são desse período.)
No caso das sociedades limitadas e de capital casado, além de outras formas 
organizacionais corporativas que surgiram no século XIX, enormes quantidades 
de poder de dinheiro são reunidas e centralizadas (muitas vezes a partir de uma 
miríade de pequenas quantidades de poupanças pessoais) sob o controle de alguns 
diretores e gerentes. Aquisições (tanto amigáveis quanto hostis), fusões e compra 
da maioria das ações de uma empresa com capital emprestado também têm sido 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 48 11/18/11 4:35 PM
O capital reunido / 49
um grande negócio. Atividades desse tipo podem acarretar novas rodadas de acu\u2011
mulação por despossessão. Nos últimos tempos, grupos privados de capital (como 
Blackstone) normalmente adquirem empresas públicas, reorganizam\u2011nas, tiram\u2011
\u2011lhes ativos e demitem funcionários antes de vendê\u2011las de volta para o domínio 
público com um lucro substancial. Além disso, existem todos os tipos de truques 
em que o grande capital pode abater o pequeno (a regulação estatal que é particu\u2011
larmente pesada para as pequenas empresas leva a uma maior centralização do ca\u2011
pital). A despossessão dos pequenos operadores (lojas de bairro ou agricultura fa\u2011
miliar) para abrir caminho para as grandes empresas (cadeias de supermercados e 
agronegócio), frequentemente com a ajuda de mecanismos de crédito, também 
tem sido uma prática de longa data.
A questão da organização, configuração e massa do capital\u2011dinheiro disponível 
no ponto de partida da circulação nunca desaparece. A construção de uma usina 
siderúrgica, uma ferrovia ou o lançamento de uma companhia aérea exigem um 
imenso despendimento inicial de capital\u2011dinheiro antes mesmo de a produção co\u2011
meçar e os intervalos de tempo entre o início e a conclusão podem ser substanciais. 
Só há relativamente pouco tempo, por exemplo, tornou\u2011se possível a constituição 
de consórcios privados de capitais associados para realizar grandes projetos de in\u2011
fraestrutura, no lugar do Estado, como o Túnel da Mancha que liga a Grã\u2011Breta\u2011
nha à Europa. Esses grandes projetos de infraestrutura tornam\u2011se cada vez mais 
necessários na medida em que o capitalismo cresce em escala por meio do cresci\u2011
mento da capitalização.
Redes geográficas também devem ser construídas para facilitar os fluxos de ca\u2011
pital financeiro global conectando as zonas de excedente de capital com as regiões 
de escassez de capital. Aqui, também, há uma longa história de inovação na indús\u2011
tria de serviços financeiros e nas relações com o Estado e entre Estados. O princi\u2011
pal objetivo é superar qualquer obstrução potencial à livre circulação de capitais em 
todo o mercado mundial. Isso abre a possibilidade de \u201cajustes espaciais\u201d em cascata 
para o problema da absorção do capital excedente. Demasia de capital excedente 
na Grã\u2011Bretanha no fim do século XIX? Então, envie\u2011o para os Estados Unidos, 
a Argentina ou a África do Sul, onde pode ser usado com rentabilidade. Capital 
excedente em Taiwan? Então, envie\u2011o para criar fábricas que exploram trabalhadores 
na China ou no Vietnã. Ex cedentes de capital nos Estados do Golfo em 1970? En\u2011
tão, envie\u2011os para o México por meio dos bancos de investimentos de Nova York.
Para que tudo isso aconteça de forma eficaz, em última análise, é preciso criar ins\u2011
tituições internacionais com caráter de Estado, como as criadas no âmbito do Acordo 
de Bretton Woods para facilitar e regulamentar os fluxos internacionais de capital. O 
Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, juntamente com o Banco de 
Compensações Internacionais na Basileia, são centrais aqui, mas outras organizações, 
como a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o 
G\u20117 (mais tarde G\u20118), agora expandido para G\u201120, também desempenham um papel 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 49 11/18/11 4:35 PM
50 / O enigma do capital
importante, na medida em que os bancos centrais do mun do e os departamentos de 
Tesouro procuram coordenar suas ações para constituir uma arquitetura financeira 
mundial em evolução para uma versão internacional do nexo Estado\u2011finanças.
Há, no entanto, duas ideias importantes a serem discutidas sobre o papel do 
nexo Estado\u2011finanças. A primeira é que ele extrai juros e impostos em troca de seus 
serviços. Além disso, sua posição de poder em relação à circulação do capital lhe 
permite extrair rendas de monopólio de quem precisa de seus serviços. Por outro 
lado, para atrair dinheiro ocioso para a circulação ou tem de oferecer segurança e 
eficiência transacionais a seus clientes ou uma taxa de retorno aos que poupam com 
os excedentes de dinheiro. Em seguida, baseia\u2011se na discrepância entre o custo de 
seus serviços e da taxa de juros oferecida aos que poupam e a taxa de juros ou co\u2011
branças sobre os usuários para sustentar sua própria lucratividade. Mas os bancos 
também podem emprestar mais do que tomam emprestado. Faz uma diferença se 
os bancos emprestam três ou trinta vezes o que eles têm em depósito. O aumento 
da dinâmica significa muito simplesmente a criação de moeda dentro do sistema 
bancário e o rápido aumento dos lucros. Na trajetória da crise atual, a rentabilida\u2011
de do setor financeiro subiu. A porcentagem dos lucros totais nos EUA imputável 
aos serviços financeiros subiu de cerca de 15% em 1970 para 40% em 2005.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
O sistema de crédito e as instituições que se especializam na reunião e distribui\u2011
ção do poder do dinheiro, portanto, tornam\u2011se mais e não menos significativas ao 
longo do tempo. Uma configuração inadequada do sistema de crédito ou alguma 
crise dentro dela, do tipo que estamos testemunhando agora, constitui um ponto 
de bloqueio potencial para mais acumulação de capital. 
Essa centralização do poder do dinheiro por meio do sistema de crédito tem 
todos os tipos de implicações para a trajetória do desenvolvimento capitalista. Dá 
a uma classe privilegiada de financistas um poder social imenso em potencial em 
relação aos produtores, comerciantes, proprietários, desenvolvedores, trabalhado\u2011
res assalariados e consumidores. O aumento da centralização do capital cria, ainda, 
o perigo do poder ascendente do monopólio e da concorrência diminuída, o que 
pode levar à estagnação. Estados capitalistas, portanto, às vezes, têm sido obrigados a 
promover a concorrência, legislando contra o excesso de poder de monopólios (por 
exemplo, a legislação antitruste nos Estados Unidos ou a Comissão sobre os 
Monopólios na Europa). Mas é bem provável que o nexo Estado\u2011finanças, avassa\u2011
lado pelo poder de crédito centralizado, constitua uma forma que se pode chamar 
\u201ccapitalismo de Estado monopolista\u201d. Foi assim que muitos teóricos críticos nos 
Estados Unidos descreveram a situação em 1960. Paul Baran e Paul Sweezy, por 
exemplo, publicaram seu influente texto Capitalismo monopolista* (1966). A linha 
* Rio de Janeiro, Zahar, 1974. (N. E.)
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 50 11/18/11 4:35 PM
O capital reunido / 51
oficial do influente Partido Comunista Francês em 1960 foi que eles estavam lu\u2011
tando contra o \u201ccapitalismo monopolista de Estado\u201d.
A circulação do capital é inerentemente arriscada e sempre especulativa. Em 
geral \u201cespeculação\u201d se refere a uma situação em que um excesso de capital é apli\u2011
cado em atividades nas quais os retornos são potencialmente