HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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negativos, mas que a 
euforia do mercado permite disfarçar. A Enron, por exemplo, disfarçou eficiente\u2011
mente suas perdas (como fez todo o sistema bancário depois) durante os anos 1990 
e continuou obtendo lucros fictícios, mesmo em face de perdas reais. Estes são os 
casos especiais aos quais geralmente chamamos de \u201cfarra especulativa\u201d. Mas é vital 
lembrar que toda a circulação de capital é especulativa de cabo a rabo. \u201cVocê tem 
de entender\u201d, o romancista francês Émile Zola escreveu certa vez, \u201cque a especula\u2011
ção, a aposta, é o mecanismo central, o próprio coração de um caso grande como 
o nosso. Sim, isso atrai o sangue, trá\u2011lo de todas as fontes em pequenas veias, reco\u2011
lhe\u2011o, envia\u2011o de volta a rios em todas as direções e estabelece uma circulação 
grande de dinheiro, que é a própria vida dos grandes empreendimentos\u201d[...]. 
O dinheiro que é lançado para a circulação no início do dia não é necessariamen\u2011
te realizado como lucro no fim do dia. Quando o excedente é realizado no fim do 
dia, enaltecemos a presciência, a imaginação e a criatividade do empresário, mas, se 
não é (muitas vezes sem culpa particular do empresário), normalmente acusamos o 
capitalista de ser um especulador! No espaço de um ano, Kenneth Lay, o diretor da 
Enron, deixou de ser um empreendedor genial para ser um vil especulador. 
Embora tudo deva ser feito para garantir que o capital gere (produza) e obte\u2011
nha (realize) o excedente no fim do dia, muitas vezes as coisas dão errado. Isso 
significa que as expectativas, a fé, as crenças, as expectativas, os desejos e os \u201cespíri\u2011
tos animais\u201d (como o economista John Maynard Keynes os chamou na década de 
1930) têm um importante papel a desempenhar para a decisão de lançar o capital 
em circulação. A psicologia dos investidores não pode ser ignorada como também 
não se pode ignorar o estado de confiança na integridade do sistema financeiro que 
leva muitas pequenas poupanças a emprestar ao capitalista em troca de um paga\u2011
mento de juros. Se eu não confio nos bancos, então prefiro guardar o ouro debaixo 
de meu travesseiro, o que diminui os empréstimos disponíveis para o capitalista. O 
ditado \u201ctão seguro quanto o Banco da Inglaterra\u201d sempre foi uma forma popular 
icônica de registrar essa fé. O crédito é muito protestante, observou Marx \u2013 repou\u2011
sa puramente sobre a fé.
De vez em quando, porém, as expectativas se tornam tão excessivas e o finan\u2011
ciamento é tão perdulário que dão origem a uma crise financeira distinta dentro do 
próprio sistema financeiro. Marx fornece uma breve descrição em O capital *. 
* São Paulo, Civilização Brasileira, 2008. (N. E.)
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O burguês [leia Wall Street], embriagado com a prosperidade e arrogantemente seguro 
de si, acaba de declarar que o dinheiro é uma criação puramente imaginária. As merca\u2011
dorias [leia tão seguras quanto casas] sozinhas são o dinheiro. Mas agora a observação 
oposta ressoa nos mercados do mundo: só o dinheiro [leia a liquidez] é uma mercadoria. 
Como o cervo anseia por água fresca, anseia com toda a sua alma por dinheiro, a única 
riqueza. Numa crise, a antítese entre mercadorias e sua forma de valor, o dinheiro, é 
elevada ao nível de uma contradição absoluta. 
No fundo dessa contradição, as expectativas tornam-se crivadas com medo (nem 
casas nem o Banco da Inglaterra parecem tão seguros quanto se presumia que fossem) 
e o financiamento torna-se escasso demais para apoiar a acumulação.
Crises financeiras e monetárias têm sido características de longa data da geogra\u2011
fia histórica do capitalismo. Mas sua frequência e profundidade aumentaram acen\u2011
tuadamente desde 1970, mais ou menos, e temos de lidar com o porquê de isso 
estar acontecendo e pensar no que poderia ser feito. A taxa de capitalização do 
crescimento da acumulação do capital global coloca uma pressão imensa sobre o 
nexo Estado\u2011finanças para encontrar formas novas e inovadoras de reunir e distri\u2011
buir quantidades de capital\u2011dinheiro, além de modos e locais onde se posicionar 
para explorar oportunidades lucrativas. Muitas das inovações financeiras recentes 
foram projetadas para superar as barreiras impostas pelos arranjos institucionais e 
regulatórios pré\u2011existentes. A pressão para desregulamentar tornou\u2011se aparentemen\u2011
te irresistível. Mas os movimentos desse tipo invariavelmente criam uma probabili\u2011
dade séria de o financiamento torna\u2011se selvagem e desenfreado, gerando uma crise. 
Foi o que aconteceu quando o Crédit Mobilier e o Crédit Immobilier dos irmãos 
Péreires faliram, juntamente com o orçamento municipal de Paris, na crise de 1868. 
E isso é o que aconteceu no sistema financeiro global em 2008.
O nexo Estado\u2011finanças funciona há muito tempo como o \u201csistema nervoso 
central\u201d da acumulação do capital. Quando os sinais internos de seu funcionamen\u2011
to derem errado, então, obviamente, as crises surgirão. Boa parte do que acontece 
dentro dos bancos centrais e ministérios das finanças dos Estados contemporâneos 
é ocultada e envolta em mistério. Não foi à toa que William Greider chamou 
sua investigação exaustiva de 1989 sobre como funciona o Federal Reserve de 
\u201cSegredos do Templo\u201d. Marx retratou o mundo das finanças como o \u201cVatica\u2011
no\u201d do capitalismo. No mundo de hoje poderia ser ainda mais irônico chamá\u2011lo 
de \u201cKremlin\u201d, já que o mundo parece mais propenso a acabar sendo governado 
pela ditadura de seus banqueiros centrais do que pelos trabalhadores. O nexo Esta\u2011
do\u2011finanças tem todas as características de uma instituição feudal, repleta de intri\u2011
gas e passagens secretas, exercendo um poder estranho e totalmente antidemocrá\u2011
tico, não apenas sobre como o capital circula e se acumula, mas sobre quase todos 
os aspectos da vida social. A fé cega nos poderes corretivos residentes no nexo Es\u2011
tado\u2011finanças é consistente com a confiança e as expectativas que Keynes conside\u2011
rou tão cruciais para a sustentação do capitalismo.
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Cada Estado tem uma forma particular do nexo Estado\u2011finanças. As variações 
geográficas nos arranjos institucionais são consideráveis, e os mecanismos de coor\u2011
denação interestatais, como o Banco de Compensações Internacionais na Basileia e 
o Fundo Monetário Internacional, têm também um papel importante. As potências 
envolvidas na construção dos arranjos como as que se reuniram para tomar as deci\u2011
sões internacionais\u2011chave sobre a futura arquitetura financeira do sistema de comér\u2011
cio mundial, como em Bretton Woods em 1944, são normalmente da elite, peritos, 
altamente tecnocráticos e antidemocráticos. E assim isso continua em nossos dias. 
Somente os iniciados nos caminhos secretos estão sendo chamados a corrigi\u2011los.
Amplas lutas políticas acontecem, no entanto, sobre e em torno do nexo Esta\u2011
do\u2011finanças. Com frequência mais populistas do que classistas, esses protestos ge\u2011
ralmente se concentram em ações dessa facção da classe que controla o nexo Estado\u2011
\u2011finanças. A campanha \u201cCinquenta anos são o suficiente\u201d contra a continuação do 
FMI e do Banco Mundial na década de 1990 inspirou\u2011se em uma aliança de in\u2011
teresses diversos trazendo juntos, por exemplo, o trabalho, bem como ambientalis\u2011
tas, para produzir o lema \u201cCaminhoneiros em defesa das tartarugas\u201d logo após os 
protestos de rua contra a OMC em Seattle, em 1999. O foco foi em grande medi\u2011
da o papel disciplinador, neocolonial e imperialista dessas instituições. O traba\u2011
lho, por sua parte, muitas vezes, só participa dessas lutas com um pé atrás. Pode, 
no entanto, ser facilmente atraído para uma política populista de indignação (mui\u2011
tas vezes liderada por interesses da pequena burguesia ou nacionalistas \u2013 lembre\u2011se 
de quando, em 1956, o então chanceler\u2011sombra britânico Harold Wilson criticou 
os poderes do que ele chamou de \u201cos gnomos de Zurique\u201d, que pôs a economia 
britânica em xeque).