HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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Mais comumente, o populismo se concentra no que fazem os 
barões da alta finança, as imensas fortunas e o poder do dinheiro que muitas vezes 
adquirem e o poder social esmagador que com frequência exercem ao ditar as con\u2011
dições de existência de todos os outros. A polêmica sobre o salário e o bônus dos 
banqueiros em 2009 na Europa e nos Estados Unidos é ilustrativa desse tipo de 
movimento populista e seus limites. Isso se assemelha à indignação nos Estados Uni\u2011
dos contra os bancos e financistas que foram amplamente responsabilizados pelos 
males da década de 1930. A simpatia popular com os ladrões de banco \u201cBonnie e 
Clyde\u201d faz parte do folclore lendário do período.
As forças sociais envolvidas na forma como o nexo Estado\u2011finanças funciona \u2013 e 
nenhum Estado é exatamente como qualquer outro \u2013 diferem, portanto, um pouco 
da luta de classes entre capital e trabalho geralmente privilegiada na teoria marxista. 
Não pretendo sugerir por isso que as lutas políticas contra as altas finanças não são 
do interesse do movimento sindical, porque é claro que são. Mas há muitas ques\u2011
tões, incluindo impostos, tarifas, subsídios e políticas de regulação tanto internas 
quanto externas, em que o capital industrial e o trabalho organizado em determi\u2011
nados contextos geográficos será um aliado em vez de um opositor. Isso aconteceu 
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com o pedido de um socorro da indústria automobilística dos EUA em 2008 e 
2009. As montadoras e os sindicatos sentaram lado a lado na tentativa de preservar 
os empregos e salvar as empresas da falência. Por outro lado, há uma vasta gama de 
interesses, além do trabalho, que luta contra o poder da alta finança. Quando os fi\u2011
nancistas se tornam dominantes em todos os outros setores, como aconteceu nos 
Estados Unidos a partir de meados dos anos 1980, e quando os que deveriam ser 
regulamentados capturam o aparelho regulador do Estado, o nexo Estado\u2011finanças 
tende a favorecer interesses particulares em vez do corpo político em geral. Indig\u2011
nação popular continuada é então essencial para restabelecer o equilíbrio.
No entanto, quando o sistema financeiro e o nexo Estado\u2011finanças fracassam, 
como aconteceu em 1929 e em 2008, então todo o mundo reconhece que há uma 
ameaça para a sobrevivência do capitalismo, e ninguém mede esforços e todo tipo 
de compromisso é estabelecido para ressuscitá\u2011lo. Não podemos, ao que parece, 
viver sem o capitalismo apesar de reclamarmos dele.
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O capital vai ao trabalho
Uma vez que o dinheiro é reunido nas mãos corretas e no lugar correto no mo\u2011
mento correto, então tem de ser posto a trabalhar para mobilizar as matérias\u2011pri\u2011
mas, as instalações e os equipamentos, os fluxos de energia e a força de trabalho 
para produzir uma mercadoria. Vamos considerar os vários elementos que devem 
ser adquiridos para a produção ocorrer. 
A acumulação perpétua a uma taxa composta depende da disponibilidade per\u2011
manente de reservas suficientes de acesso à força de trabalho. O que Marx chama 
de \u201cexército industrial de reserva\u201d é, portanto, uma condição necessária para a re\u2011
produção e a expansão do capital. Esse exército de reserva deve ser acessível, socia\u2011
lizado e disciplinado, além de ter as qualidades necessárias (isto é, ser flexível, dócil, 
manipulável e qualificado quando preciso). Se essas condições não forem satisfei\u2011
tas, então o capital enfrenta um sério obstáculo à acumulação contínua. 
A despossessão da massa da população do acesso direto aos meios de produção 
(a terra, em particular) libera a força de trabalho como uma mercadoria no mercado. 
O relato de Marx sobre a \u201cacumulação primitiva\u201d pode ser dramatizada ou simplifi\u2011
cada em demasia, mas sua verdade essencial é inegável. De alguma forma ou outra, 
a massa da população tem sido colocada em uma posição em que tem de trabalhar 
para o capital para sobreviver. A acumulação primitiva não terminou com a ascensão 
do capitalismo industrial na Grã\u2011Bretanha no final do século XVIII. Nos últimos 
trinta anos, por exemplo, cerca de 2 mil trabalhadores assalariados foram adiciona\u2011
dos à força de trabalho global disponível, em função da abertura da China e do co\u2011
lapso do comunismo na Europa central e oriental. Em todo o mundo, aconteceu a 
integração das populações camponesas até então independentes nas forças de traba\u2011
lho. O mais dramático de todos esses acontecimentos foi a mobilização das mulhe\u2011
res, que agora formam a espinha dorsal da força de trabalho global. Está agora dis\u2011
ponível uma piscina enorme de força de trabalho para a expansão capitalista. 
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Os mercados de trabalho são, no entanto, geograficamente segmentados. Uma 
viagem diária para o local de trabalho de quatro horas é como um limite externo 
para os trabalhadores no dia a dia. Claro que a distância percorrida em quatro 
horas de viagem depende da velocidade e do custo do transporte, mas a inevitável 
segmentação geográfica dos mercados de trabalho significa que as questões da ofer\u2011
ta de trabalho se resumem numa série de problemas locais integrados nas estra\u2011
tégias regionais e estaduais, mitigada pelos movimentos migratórios (do capital e 
do trabalho). O Estado se envolve, inter alia, quando se trata de imigração e leis 
trabalhistas (salário mínimo, jornada de trabalho e regulação das condições de tra\u2011
balho), fornecimento de infraestruturas sociais (como educação, formação e saú de) 
que afetam a qualidade da oferta do trabalho e políticas destinadas a manter o 
exército de reserva (a provisão de bem\u2011estar social). 
Os capitalistas podem administrar e contornar os limites potenciais da oferta 
de trabalho de várias maneiras, mesmo em contextos locais. Alguma expansão pode 
ser obtida por meio de crescimento da população (e em algumas instâncias políti\u2011
cas pró\u2011natalidade por parte do Estado, como subsídios às famílias numerosas na 
França, tiveram um impacto definitivo sobre as condições de oferta do trabalho em 
benefício do capital). Há, de fato, uma relação muito geral entre o crescimento 
populacional e a acumulação composta do capital. O crescimento surpreenden\u2011
te do desempenho do capitalismo na China depois de 1980 dependeu, por exem\u2011
plo, da redução radical da mortalidade infantil nos anos de Mao, que mais tarde 
resultou em uma enorme força de trabalho jovem clamando por emprego. 
Na ausência de aumento da produtividade, a acumulação conduz ao empre\u2011
go relativamente total dos recursos de trabalho local. Escassez de trabalho significa 
aumento dos salários. Ou os salários continuam a subir de tal forma a não interfe\u2011
rir com a massa crescente da acumulação (porque mais trabalhadores estão emprega\u2011
dos), ou a acumulação diminui, assim como a demanda de trabalho, empurrando 
os salários para baixo. Em algumas ocasiões, os capitalistas na realidade iniciam 
uma greve, recusando\u2011se a reinvestir, porque os salários mais altos são um corte em 
sua rentabilidade. A esperança é que o desemprego resultante rediscipline o traba\u2011
lho, fazendo\u2011o aceitar uma taxa de salários menor. 
Embora os casos de \u201cgreve do capital\u201d possam ser identificados (a \u201cRecessão 
Reagan\u201d de 1980 a 1982, quando o desemprego subiu para mais de 10%, teve um 
pouco esse caráter), existem outras formas mais vantajosas para o capital de resolver 
os problemas da escassez de trabalho. As tecnologias de economia de tra balho e as 
inovações organizacionais podem mandar as pessoas para fora do trabalho e de 
volta à reserva industrial. O resultado é um exército \u201cflutuante\u201d de trabalha dores 
demitidos cuja existência coloca uma pressão descendente sobre os salários. O ca\u2011
pital manipula simultaneamente a oferta e a demanda de trabalho. 
O trabalho, sabendo disso muito bem, com frequência luta contra a imple\u2011