HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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mentação de novas tecnologias (como aconteceu no caso do chamado movimento 
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ludista no início do século XIX). \u201cAcordos de produtividade\u201d, que aceitam as novas 
tecnologias em troca de segurança no trabalho, tornaram\u2011se importantes no 
processo de negociação sindical depois de aproximadamente 1945 nos países capi\u2011
talistas avançados. Uma estratégia capitalista alternativa é mobilizar os elementos 
da população que ainda não foram proletarizados. O alvo mais óbvio é os campo\u2011
neses e as populações rurais (como tem acontecido na China nos últimos anos). 
Nos países capitalistas avançados, onde essas populações em grande parte desapa\u2011
receram, houve uma virada importante para a mobilização das mulheres na força 
de trabalho, juntamente com a proletarização dos elementos da população que 
conseguiram viver fora da economia do trabalho assalariado. Nos Estados Uni\u2011
dos, a agricultura familiar e os pequenos comerciantes têm sido os maiores alvos da 
proletarização desde os anos 1930. Em muitos aspectos, a mobilização dessas reser\u2011
vas é preferível ao aumento do desemprego por demissões e mudança tecnológi\u2011
ca, que pode ser politicamente problemática e economicamente cara se o Estado 
for responsável pela assistência ao desemprego. 
Uma vez que a escassez de trabalho é sempre localizada, a mobilidade geográ\u2011
fica do capital ou do trabalho (ou ambos) se torna fundamental na regulação da 
dinâmica dos mercados de trabalho locais. Mesmo os movimentos de curta distân\u2011
cia (como o movimento das empresas de cidades centrais sindicalizadas dos EUA 
para os subúrbios, onde havia reservas latentes não sindicalizadas abundantes, em 
especial de mulheres, a partir da década de 1950) podem transformar radicalmen\u2011
te o equilíbrio do poder de classe no que diz respeito aos salários e às condições 
de trabalho. Distâncias mais longas, como do Nordeste e Centro\u2011Oeste indus\u2011
trializado e sindicalizado ao Sul e Oeste dos Estados Unidos ou a longa migração 
do excedente de trabalho do Sul para as cidades do Norte a partir da década de 
1920, também incidem sobre o problema da oferta de trabalho. Em tempos re\u2011
centes, os fluxos de trabalho global têm tido ainda mais importância. Embora a 
população nascida fora dos EUA tenha se situado em cerca de 5% em 1970, repre\u2011
senta mais de 12,5% hoje. Uma das consequências negativas de tais políticas tem 
sido uma crescente maré de fervor anti\u2011imigração, acompanhada por ondas de ra\u2011
cismo e discriminações étnicas no seio das classes trabalhadoras. 
No decorrer do tempo, os capitalistas têm procurado controlar o trabalho, co\u2011
locando trabalhadores individuais em concorrência uns com os outros para os pos\u2011
tos de trabalho em oferta. A força de trabalho potencial tem gênero, raça, etnia 
e tribo ou se divide pela língua, política, orientação sexual e crença religiosa, e tais 
diferenças emergem como fundamentais para o funcionamento do mercado de 
trabalho. Tornam\u2011se ferramentas por meio das quais os capitalistas administram a 
oferta de trabalho em conjunto com os setores privilegiados da força de trabalho 
que usam o racismo e o machismo para minimizar a competição. A história da 
acumulação primitiva implicou a produção de títulos de superioridade \u201cnatural\u201d 
e, portanto, baseadas na biologia, que legitimou as formas de poder hierárquico e 
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de classe em face das alegações religiosas ou seculares do status de igualdade peran\u2011
te os olhos de Deus ou do Estado (a Revolução Francesa e Estadunidense). Ao 
longo de sua história, o capital não foi de maneira nenhuma relutante em explo\u2011
rar, se não promover, fragmentações, e os próprios trabalhadores lutam para 
definir meios de ação coletiva que muitas vezes se defrontam com os limites das 
identidades étnicas, religiosas, raciais ou de gênero. De fato, nos EUA nos anos 
1950 e 1960, as organizações de trabalho procuraram reduzir a concorrência nos 
mercados de trabalho pela imposição de exclusões baseadas em raça e gênero. 
A capacidade de preservar tais distinções é ilustrada pelo fato de que, mesmo após 
quase meio século de campanha pelo princípio \u201csalário igual para trabalho igual\u201d, o 
fosso salarial entre homens e mulheres não desapareceu, mesmo nos Estados Uni\u2011
dos, onde as pressões têm sido provavelmente mais fortes. Em outros lugares, por 
exemplo, no Leste Asiático, as disparidades entre homens e mulheres são muito 
piores e é lá, claro, que o grosso das populações recém\u2011proletarizadas é composto de 
mulheres. As diferenças salariais nos Estados Unidos entre negros e brancos, bem 
como entre hispânicos e asiáticos, têm persistido igualmente, se não, em alguns ca\u2011
sos, crescido ao longo dos anos. Em outra parte, como na Índia, as distinções de 
casta mantiveram uma enorme barreira nos mercados de trabalho, apesar das dispo\u2011
sições constitucionais de igualdade de tratamento. E na medida em que todos os 
mercados de trabalho são locais, e mais ainda para os trabalhadores do que para os 
capitalistas, as solidariedades sociais e políticas, se quiserem significar alguma coisa, 
têm na primeira instância de ser construídas sobre uma base geográfica local antes 
que qualquer movimento nacional ou internacional possa se tornar possível. Apesar 
de os capitalistas também serem divididos por linhas étnicas e outras (embora sejam 
geralmente muito mais homogêneos do que as forças de trabalho), os trabalhadores 
têm dificuldade em explorar tais diferenças de forma sistemática a seu proveito pró\u2011
prio, mesmo que a história do antissemitismo popular contra os financistas de Wall 
Street muitas vezes tenha tido um papel lamentável. 
A partir de meados da década de 1960, as inovações nas tecnologias dos trans\u2011
portes tornaram mais fácil o deslocamento da produção, para áreas com salários 
baixos e fraca organização do trabalho. Nas últimas décadas, como observado an\u2011
tes, as deslocalizações maciças da atividade industrial transformaram radicalmente 
a forma como funcionam os mercados de trabalho, em comparação com as cir\u2011
cunstâncias que em geral prevaleciam antes de 1970. 
Há, no entanto, muitos aspectos contraditórios internalizados dentro da política 
da oferta de trabalho, decorrentes da dinâmica de organização da classe e da políti\u2011
ca de classe, tal como praticada individual e coletivamente pelos trabalhadores nos 
seus mercados de trabalho distintos. A taxa de salário real é definida pelos custos de 
fornecimento dos bens e serviços necessários para reproduzir a força de trabalho em 
um determinado padrão de vida aceitável. O que é \u201caceitável\u201d ou \u201cdado\u201d é um pro\u2011
duto da luta de classes, das normas costumeiras e dos pactos sociais (mais frequen\u2011
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temente do que os não tácitos, mas às vezes explícitos como o direito a saúde decente 
e educação) realizados normalmente dentro de alguma organização social territoria\u2011
lizada. (Daí, novamente, a importância do Estado como um quadro institucional 
chave para a definição de algum tipo de consenso bruto de como a vida social deve 
ser regulamentada.) Uma vez que os mercados de trabalho são invariavelmente lo\u2011
cais, as questões de custos e padrões de vida variam de acordo com a geografia, 
mesmo dentro de distâncias bastante curtas (a cidade de Nova York não é Buffalo, e 
nenhuma dessas cidades, claro, é algo como Mumbai). O quadro institucional em 
que a negociação salarial ocorre também varia de nível estadual (como na Suécia e, 
até recentemente, Reino Unido) a local (Estados Unidos). No último caso o resul\u2011
tado foi \u201ccampanhas pelo salário mínimo\u201d, cada lugar com sua própria definição do 
que constitui um salário mínimo, proliferando a partir de uma localidade para ou\u2011
tra, como aconteceu a partir da metade dos