HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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anos 1990 em um momento em que o 
governo federal foi politicamente oposto a aumentar o salário mínimo nacional. A 
militância, o grau de organização e o nível de aspiração dentro de movimentos tra\u2011
balhistas localizados variam claramente de lugar para lugar e de tempo em tempo, 
de tal forma que as barreiras potenciais à acumulação contínua do capital podem 
proliferar aqui e desaparecer acolá. O poder supremo da força do trabalho \u2013 para se 
afastar de seu trabalho e fazer greve \u2013 está sempre lá, mas aqui também há muitas 
vezes uma assimetria de poder, na medida em que aqueles com reservas de dinheiro 
(normalmente os capitalistas) podem pressionar aqueles com pouco dinheiro (os 
trabalhadores e seus sindicatos), mesmo que a ameaça para o capitalismo de agitação 
laboral generalizada continue sendo uma reserva de poder de grande importância.
Mas, dentro desse mar de luta, geralmente há locais calmos suficientes onde o 
capital pode dominar com relativa facilidade e assegurar que a oferta de força de 
trabalho seja adequada a seus fins. Acho justo dizer que, desde 1980, a combina\u2011
ção de repressões políticas (incluindo o colapso dos regimes comunistas), alterações 
tecnológicas, elevada capacidade de mobilidade dos capitais e enorme onda de 
acumulação primitiva nas (e migração de) zonas anteriormente periféricas têm re\u2011
solvido efetivamente o problema da provisão de trabalho para o capital. Embora 
restrições locais existam aqui e ali, a disponibilidade de reservas de trabalho maci\u2011
ças (inclusive aquelas com alto nível de educação, cada vez mais da Índia e do Su\u2011
deste Asiático) em todo o mundo é inegável, e pesa sobre os níveis da luta de 
classes, com uma vantagem poderosa para o capital. 
É nessas circunstâncias que os interesses da classe capitalista esclarecida (em 
oposição aos capitalistas individuais em intensa concorrência uns com os outros, 
que muitas vezes praticam a política de après moi le déluge*) podem se unir em tor\u2011
* \u201cDepois de mim o dilúvio\u201d, expressão francesa que significa a total indiferença de quem a profere 
pelo desenlace de determinada situação, mesmo sendo uma catástrofe.
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no de um projeto político para subsidiar a oferta de mercadorias mais baratas ne\u2011
cessárias à sobrevivência para manter o valor da força de trabalho baixo (como 
aconteceu quando o interesse industrial na Grã\u2011Bretanha procurou reduzir as tari\u2011
fas sobre o trigo importado, a fim de baratear o fornecimento de pão em meados 
do século XIX, e como tem acontecido nos EUA com o advento do fenômeno 
Wal\u2011Mart e com os bens de varejo baratos da China). Também podem apoiar o 
investimento em melhorias para a qualidade da oferta de trabalho, por meio de 
saúde, educação e habitação e, finalmente, como Henry Ford fez quando se articu\u2011
lou para estabelecer uma jornada de oito horas por 5 dólares na década de 1920, 
propor salários mais altos e racionalizar o consumo dos trabalhadores como meio 
para garantir uma demanda maior e mais eficaz no mercado. 
O papel do poder do Estado em relação a essas lutas não é de modo algum fixo. 
Certamente, se o trabalho é bem organizado demais e muito poderoso num deter\u2011
minado local, a classe capitalista procurará comandar o aparato estatal pa ra que este 
atenda a seus interesses, como aconteceu, observou\u2011se anteriormente, com Pinochet, 
Reagan, Thatcher, Kohl et al. Mas a organização do trabalho por partidos políticos 
de esquerda pode empurrar na direção oposta, como tem acontecido em vários lu\u2011
gares (como a Escandinávia) em determinados momentos (como no consenso \u201cso\u2011
cial\u2011democrata\u201d dos anos 1960 em grande parte da Europa). Mas o uso do poder 
estatal para transcender a barreira da organização do trabalho tem sido muito efetivo 
desde meados da década de 1970 em muitas partes do mundo. Outro método é 
facilitar, se não subsidiar, a mobilidade do capital para que ele possa se deslocar para 
onde haja condições de negócio mais vantajosas, incluindo oferta de trabalho e or\u2011
ganização fraca do trabalho (como nos assim chamados Estados antissindicatos do 
\u201cDireito ao trabalho\u201d no Sul dos EUA). A competição interurbana, interregional e 
internacional por parte dos aparatos estatais por investimentos de capital tem um 
papel importante aqui. O Estado (local, regional ou nacional) se torna responsável 
por garantir o fornecimento de força de trabalho em quantidades e qualidades ade\u2011
quadas (incluindo formação pro fissional, treinamento e docilidade política) em re\u2011
lação à demanda de trabalho corporativo. Embora o aparelho do Estado possa passar 
a seguir a agenda das empresas em vez da agenda de trabalho, há ainda um grande 
interesse em localidades que investem em oportunidades educacionais de alta quali\u2011
dade (universidades e escolas técnicas), pois isso poderá ajudar a atrair a indústria de 
alta tecnologia que irá contribuir mais para a base tributária da localidade. 
Alguns marxistas construíram uma teoria distinta da formação da crise com 
base em obstáculos à oferta de trabalho adequado. A chamada teoria da crise por 
\u201cesmagamento dos lucros\u201d se coloca no problema perpétuo das relações de trabalho 
e da luta de classes, tanto no processo quanto no mercado de trabalho. Quando 
essas relações representam um obstáculo à acumulação do capital, segue\u2011se então 
uma crise, a menos que alguma medida (ou, mais provavelmente, uma mistura 
de medidas do tipo descrito acima) possa ser tomada para o capital superar ou 
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contornar essa barreira. Alguns analistas, como Andrew Glyn (ver seu relato impres\u2011
sionante, escrito com outros autores, em British Capitalism, Workers and the Profit 
Squeeze [Capitalismo britânico, trabalhadores e esmagamento dos lucros ]*), inter\u2011
pretam o que aconteceu no fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 (particular\u2011
mente na Europa e América do Norte) como um excelente exemplo de uma situa\u2011
ção de esmagamento dos lucros. Certamente, a gestão dos recursos de trabalho e as 
políticas de organização e oferta do trabalho dominaram a política do período. A 
organização da classe trabalhadora em grande parte da Europa e mesmo nos Esta\u2011
dos Unidos era relativamente forte e os aparatos estatais em todos os lugares esta\u2011
vam ou cautelosos com o poder do trabalho organizado ou, mediante políticas dos 
partidos de esquerda, tornaram\u2011se parcialmente subservientes aos interesses do tra\u2011
balho organizado. Não há dúvida de que se tratava de um sério obstáculo para a 
contínua acumulação do capital. A maneira como essa barreira foi contornada pelo 
capital com a ascensão do neoliberalismo durante os anos 1970 e início dos anos 
1980 define em muitos aspectos a natureza dos dilemas que enfrentamos agora. 
A sobrevivência do capitalismo depende da permanente superação ou neutra\u2011
lização dessa barreira potencial à acumulação sustentada. Como escrevo no fim de 
2009, há muito poucos sinais de um esmagamento dos lucros. As reservas de tra\u2011
balho existem em toda parte e há poucas barreiras geográficas ao acesso capitalista. 
O ataque político sobre os movimentos da classe trabalhadora do mundo inteiro 
reduziu a resistência do trabalhador a níveis muito modestos em quase toda a parte. 
A crise de 2008 a 2009 não pode ser entendida em termos de esmagamento dos 
lucros. A repressão salarial por causa da oferta de trabalho superabundante e a con\u2011
sequente falta de demanda de consumo efetiva são problemas muito mais graves. 
No entanto, a questão do trabalho nunca acaba. A agitação do trabalho pode mui\u2011
to bem surgir como um problema sério, em qualquer momento e em qualquer lugar. 
A China, por exemplo, é uma prova contemporânea, onde há uma maré de agitação 
crescente na medida em que a crise econômica mundial criou aumentos não desejados 
e não esperados (na China) no desemprego (estimado