HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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algum entendimento sobre o que o fluxo do ca pital 
representa. Se conseguirmos alcançar uma compreensão melhor das perturbações 
e da destruição a que agora estamos todos expostos, poderemos começar a sa ber o 
que fazer.
David Harvey
Nova York, outubro de 2009
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A crise
Algo sinistro começou a acontecer nos Estados Unidos em 2006. A taxa de des\u2011
pejos em áreas de baixa renda de cidades antigas, como Cleveland e Detroit, repen\u2011
tinamente explodiu. Contudo, as autoridades e a mídia não deram atenção porque 
as pessoas afetadas eram de baixa renda, principalmente afro\u2011americanos, imi\u2011
grantes (hispânicos) ou mães solteiras. Os afro\u2011americanos, em especial, vinham 
tendo dificuldades com o financiamento de habitações desde o fim dos anos 1990. 
Entre 1998 e 2006, antes de a crise imobiliária bater com seriedade, estima\u2011se que 
perderam entre 71 bilhões e 93 bilhões de dólares em ativos ao se envolver com 
empréstimos conhecidos como subprime. Mas nada foi feito. Mais uma vez, como 
aconteceu durante a pandemia de HIV/Aids, que aumentou durante a adminis\u2011
tração Reagan, o custo humano e financeiro final da sociedade por não dar atenção 
aos claros sinais de alerta, pela falta de interesse coletivo e pelo preconceito contra 
os primeiros na linha de fogo foi incalculável.
Foi somente em meados de 2007, quando a onda de despejos atingiu a classe 
média branca, nas áreas urbanas e suburbanas dos EUA outrora crescentes e signi\u2011
ficativamente republicanas no Sul (em particular na Flórida) e Oeste (Califórnia, 
Arizona e Nevada), que as autoridades começaram a levar em consideração e a 
grande imprensa, a comentar. Projetos de novos condomínios e comunidades fe\u2011
chadas (muitas vezes em \u201cbairros dormitórios\u201d ou atravessando zonas urbanas pe\u2011
riféricas) começaram a ser afetados. Até o fim de 2007, quase 2 milhões de pessoas 
perderam suas casas e outros 4 milhões corriam o risco de ser despejados. Os valo\u2011
res das casas despencaram em quase todos os EUA e muitas famílias acabaram de\u2011
vendo mais por suas casas do que o próprio valor do imóvel. Isso desencadeou uma 
espiral de execuções hipotecárias que diminuiu ainda mais os valores das casas.
Em Cleveland, foi como se um \u201cKatrina financeiro\u201d atingisse a cidade. Casas 
abandonadas, com tábuas em janelas e portas, dominaram a paisagem nos bairros 
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pobres, principalmente negros. Na Califórnia, também se enfileiraram casas abando\u2011
nadas e vazias em ruas de cidades inteiras, como Stockton; na Flórida e em Las Vegas, 
os condomínios permaneceram vazios. As vítimas de despejo tinham de encontrar 
alojamento em outros lugares: cidades de tendas começaram a se formar na Califór\u2011
nia e na Flórida. Em outras áreas, famílias ou dobraram de tamanho, com a chega\u2011
da de amigos e parentes, ou organizaram suas casas em quartos de hotéis baratos.
As pessoas por trás do financiamento da catástrofe das hipotecas inicialmente 
pareceram não se abalar. Em janeiro de 2008, os bônus em Wall Street somaram 
32 bilhões de dólares, apenas uma fração menor do que o total em 2007. Esta foi 
uma recompensa notável pela destruição do sistema financeiro mundial. As per\u2011
das dos que estão na base da pirâmide social quase se igualaram aos extraordinários 
ganhos dos financistas na parte superior.
No outono de 2008, no entanto, a \u201ccrise das hipotecas subprime\u201d, como veio a 
ser chamada, levou ao desmantelamento de todos os grandes bancos de investi\u2011
mento de Wall Street, com mudanças de estatuto, fusões forçadas ou falências. O 
dia em que o banco de investimentos Lehman Brothers desabou \u2013 em 15 de setem\u2011
bro de 2008 \u2013 foi um momento decisivo. Os mercados globais de crédito conge\u2011
laram, assim como a maioria dos empréstimos no mundo. Como o venerável ex\u2011
\u2011presidente da Federal Reserve Paul Volcker (que cinco anos antes, juntamente com 
vários outros comentaristas de prestígio, previra a calamidade financeira se o gover\u2011
no dos EUA não forçasse o sistema bancário a reformar seu funcionamento) obser\u2011
vou, nunca antes as coisas haviam despencado \u201ctão fácil e tão uniformemente ao 
redor do mundo\u201d. O resto do mundo, até então relativamente imune (à exceção do 
Reino Unido, onde problemas análogos no mercado da habitação já tinham vindo à 
tona, o que levou o governo a nacionalizar uma casa de empréstimos importantes, 
a Northern Rock), foi arrastado precipitadamente para a lama, gerada em particu\u2011
lar pelo colapso financeiro dos EUA. No epicentro do problema estava a montanha 
de títulos de hipoteca \u201ctóxicos\u201d detidos pelos bancos ou co mercializados por inves\u2011
tidores incautos em todo o mundo. Todo mundo tinha agi do como se os preços dos 
imóveis pudessem subir para sempre.
Até o outono de 2008, tremores quase fatais já haviam se espalhado para o exte\u2011
rior, dos bancos aos principais credores da dívida hipotecária. As instituições de 
crédito Fannie Mae e Freddie Mac, licenciadas pelo governo dos Estados Unidos, 
tiveram de ser nacionalizadas. Seus acionistas foram destruídos, mas os portadores 
de títulos, incluindo o Banco Central chinês, mantiveram\u2011se protegidos. Investido\u2011
res incautos em todo o mundo, como fundos de pensão, pequenos bancos regionais 
europeus e governos municipais da Noruega à Flórida, que haviam sido atraídos 
para investir em carteiras de hipoteca com \u201cmuita garantia de retorno\u201d, terminaram 
segurando pedaços de papel sem valor e incapazes de cumprir suas obrigações ou 
pagar seus empregados. Para piorar, gigantes dos seguros como a AIG, que haviam 
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Propriedade de casa nos EUA, 1970-2008
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segurado as apostas de risco dos EUA e bancos internacionais, tiveram de ser socor\u2011
ridos por causa das grandes dificuldades que enfrentavam. Os mercados de ações 
se desintegraram na medida em que especialmente as ações de bancos tornaram\u2011se 
quase inúteis; fundos de pensão racharam sob a tensão; orçamentos municipais en\u2011
colheram; e espalhou\u2011se o pânico em todo o sistema financeiro.
Tornou\u2011se cada vez mais claro que só um maciço plano de socorro do governo 
poderia restaurar a confiança no sistema financeiro. A Federal Reserve reduziu as 
taxas de juro a quase zero. Pouco depois da falência do Lehman, alguns funcioná\u2011
rios e banqueiros do Tesouro, incluindo o secretário do Tesouro, que era um ex\u2011
\u2011presidente da Goldman Sachs e atual diretor executivo da Goldman, surgiram de 
uma sala de conferências com um documento de três páginas exigindo 700 bilhões 
de dólares para socorrer o sistema bancário, prenunciando um Armageddon nos 
mercados. Era como se Wall Street tivesse iniciado um golpe financeiro contra o 
governo e o povo dos Estados Unidos. Algumas semanas depois, com ressalvas 
aqui e ali e muita retórica, o Congresso e, em seguida, o presidente George Bush 
cederam e o dinheiro foi enviado, sem qualquer controle, para todas as instituições 
financeiras consideradas \u201cgrandes demais para falir\u201d. 
Mas o mercado de crédito permaneceu congelado. Um mundo que antes pare\u2011
cia estar \u201cinundado com excesso de liquidez\u201d (como o FMI frequentemente rela\u2011
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