HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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em cerca de 20 milhões de 
desempregados no início de 2009) dentro de uma população recentemente proletari\u2011
zada. É importante levar em consideração o desenvolvimento geográfico desigual das 
lutas sindicais. 
A relação capital\u2011trabalho sempre tem um papel central na dinâmica do capita\u2011
lismo e pode estar na origem das crises. Mas hoje em dia o principal problema resi\u2011
de no fato de o capital ser muito poderoso e o trabalho muito fraco, não o contrário. 
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
Quando os capitalistas reinvestem, precisam encontrar meios adicionais de pro\u2011
dução disponíveis no mercado. Os insumos de que necessitam são de dois tipos: os 
* Harmondsworth, Penguin, 1972. (N. E.)
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produtos intermédios (já moldados pelo trabalho humano), que podem ser utili\u2011
zados no processo de produção (como a energia e o tecido necessários para fazer 
um casaco) e máquinas e equipamento de capital fixo, incluindo os edifícios da 
fábrica e as infraestruturas físicas, como sistemas de transporte, canais e portos que 
permitem a atividade da produção. A categoria dos meios de produção é evidente\u2011
mente muito ampla e complicada. Mas, se qualquer um desses meios tornar\u2011se 
indisponível, constitui\u2011se uma barreira para a acumulação do capital. A indústria 
automobilística não pode expandir sem mais insumos de aço, plástico e compo\u2011
nentes eletrônicos e pneus de borracha, assim como não fará mais sentido sua 
expansão a menos que existam estradas nas quais se possa dirigir. As inovações 
tecnológicas em parte do que hoje chamamos de \u201ccadeia da mercadoria\u201d ou \u201cca\u2011
deia da oferta\u201d que fluem na produção, invariavelmente, tornam necessárias ino\u2011
vações em outros lugares. O aumento da produtividade na indústria do algodão 
do século XIX com o advento do tear, Marx assinala, exigiu inovações na produ\u2011
ção de algodão (o descaroçador de algodão), nos transportes e comunicações, nas 
técnicas de tingimento químicas e industriais e assim por diante. 
A conversão de uma parte do lucro de ontem em capital novo depende, portan\u2011
to, da disponibilidade de uma quantidade cada vez maior dos meios de produção, 
bem como de uma quantidade crescente de bens básicos para o sustento dos tra\u2011
balhadores adicionais a serem empregados. O problema é organizar o fornecimen\u2011
to de insumos materiais, de modo a sustentar a continuidade do fluxo de capital. 
O capital tem, em outras palavras, de produzir as condições para sua própria ex\u2011
pansão continuada antes da própria expansão! Como ele faz isso de uma forma 
harmoniosa e sem problemas? 
A resposta é que, curiosamente, tal como Marx colocou, \u201co curso do amor ver\u2011
dadeiro nunca é suave\u201d. Há sempre carências em algum lugar e excedentes em ou\u2011
tro, e, ocasionalmente, essas carências se aglutinam em grandes barreiras à ex\u2011
pansão que perturbam a continuidade do fluxo do capital. Mas mercados que 
funcionam de forma eficiente, com sinais de preço livres como reflexo das condi\u2011
ções da demanda e oferta, têm sido historicamente uma forma muito boa de coor\u2011
denação. Eles têm facilitado cada vez mais a complexa divisão social do trabalho e 
aumentos no que é chamado \u201co beco sem saída da produção\u201d (sinalizando o nú\u2011
mero de eta pas de produção independentes envolvidas antes de chegar ao produto 
acabado). O número crescente de componentes integrados no produto final (os 
carros que incorporam sofisticados dispositivos eletrônicos, como sistemas de 
GPS) aumenta a complexidade dos fluxos de abastecimento. Essa situação neces\u2011
sita da criação de estruturas de mercado mais ou menos \u201chonestas\u201d e confiáveis, 
com bons sinais de preço para garantir a continuidade da circulação do capital. 
A ligação interna entre a expansão do capital com juro composto e o uso de sinais 
de mercado para coordenar os fluxos apela à regulação estatal contra, por exemplo, 
a monopolização, o escanteamento e a manipulação dos mercados, ao mesmo tem\u2011
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po que exige a redução das barreiras sociais (tarifas, cotas ou atrasos desnecessários) 
para a circulação de mercadorias. A supressão dos controles fronteiriços na década 
de 1980 no tráfego de caminhões na Europa teve um enorme impacto sobre a lisu\u2011
ra dos fluxos de entradas em muitos processos da produção. Em oposição, tensões 
geopolíticas entre os Estados podem prejudicar o livre fluxo de insumos vitais e 
atuar como um estancamento da acumulação do capital. As interrupções do petró\u2011
leo russo e dos fluxos de gás natural através da Ucrânia por causa de disputas polí\u2011
ticas em 2008 criaram sérios problemas para os produtores e consumidores, che\u2011
gando a áreas distantes como Alemanha e Áustria.
Mas o mercado não é o único meio para a coordenação. Cada vez mais, os pro\u2011
dutores lidam diretamente com os fornecedores e, com modelos de agendamento e 
fornecimento ótimos, transmitem pedidos de componentes diretamente à sua ca\u2011
deia de abastecimento e assumem a entrega no princípio de \u201cna hora certa\u201d, que 
minimiza o custo de estoques ociosos. Em muitas indústrias (de automóveis, eletrô\u2011
nicos etc.), as coordenações diretas vêm para suplantar o mercado aberto. Os produ\u2011
tores sinalizam antes quantos meios de produção adicionais vão precisar, e as empre\u2011
sas fornecedoras calculam sua produção de acordo com esse sinal. E em certos casos 
de falha do mercado, o Estado pode intervir com seus próprios modelos de estrutu\u2011
ras de insumo/produção para planejar ou a totalidade ou um componente\u2011chave na 
cadeia de oferta que o capital tem dificuldade de organizar (como o fornecimento 
de energia ou de água e toda uma panóplia de infraestruturas físicas para a produ\u2011
ção). Apesar de ser uma crença comum, particularmente nos Estados Unidos, que 
intervenções do Estado levam à ineficiência, a história da industrialização do Japão 
ou de Singapura encabeça uma longa lista de exemplos em que o planejamento, a 
coordenação, a intervenção e a reorganização pelo Estado dos fluxos do capital têm 
sido mais eficazes do que a anarquia de coordenações do mercado aberto. Se as pró\u2011
prias empresas conseguiram evitar a anarquia dos mercados abertos com mecanis\u2011
mos eficientes de programação ótima com seus fornecedores, então por que a socie\u2011
dade não pode fazer o mesmo em um terreno ainda mais amplo? 
Deixando de lado a luta ideológica sobre o planejamento estatal versus mer\u2011
cado, o que tudo isso significa é que a continuidade do fluxo do capital em um 
mundo com uma divisão social do trabalho cada vez mais complicada repousa so\u2011
bre a existência de arranjos institucionais adequados que facilitem a continuidade 
desse fluxo pelo espaço e pelo tempo. Sempre que esses arranjos são defeituosos ou 
inexistentes, o capital se depara com sérios entraves. Embora possam ser encontra\u2011
das formas de o capital operar com sucesso em, digamos, condições de ilegalidade, 
corrupção e direitos de propriedade indeterminados, estas em geral não constituem 
um ambiente ideal para o capital florescer. O que fazer com os \u201cEstados fracassa\u2011
dos\u201d e como garantir a criação de \u201cum bom clima de negócios\u201d (incluindo a supres\u2011
são da corrupção e da ilegalidade), portanto, tornaram\u2011se missões prioritárias das 
instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, e tam\u2011
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bém um projeto de vários braços das práticas imperialistas contemporâneas estadu\u2011
nidense e europeia em muitas partes do mundo. Os acordos da OMC, por exemplo, 
codificam o \u201cbom comportamento\u201d para os Estados que os ratificaram (e muitos 
Estados não têm outra opção a não ser assinar se quiserem continuar a negociar 
com os EUA e a Europa), de tal forma a favorecer as liberdades das corporações de 
fazer negócios sem regulação ou interferência estatal excessiva. 
Infelizmente, tais projetos