HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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atacam invariavelmente as formas de produção de 
valor e de valorização diferentes das indicadas pelo mercado e, se forem bem\u2011suce\u2011
didos (o que muitas vezes não são), dissolvem formas de significado cultural e so\u2011
lidariedades sociais, que desempenham um importante papel na manutenção da 
vida diária, tanto em nível material quanto social, fora da produção habitual de 
mercadorias. Modos de vida não mercantis e não capitalistas são, em suma, consi\u2011
derados uma barreira para a acumulação do capital e, portanto, devem ser dissolvi\u2011
dos para dar lugar aos 3% de taxa de crescimento composto que constitui a força 
motriz capitalista. A complicada história de como o limite absoluto contra a 
acumulação do capital na China sob o regime comunista foi dissolvido após as 
reformas de 1978 numa série de barreiras, cada uma das quais transcendida ou 
contornada de modo gradual, é, naturalmente, uma das histórias políticas e econô\u2011
micas mais significativas dos nossos tempos. 
Mas há também, ao que parece, algumas tensões e contradições potenciais den\u2011
tro das cadeias produtivas que podem levar às assim conhecidas \u201ccrises de despro\u2011
porcionalidade\u201d. No fim do volume 2 de O capital, Marx configura o que chamou 
de \u201cesquemas da reprodução\u201d para analisar as relações dinâmicas entre dois grandes 
setores da economia, os que produzem \u201cbens básicos\u201d (para alimentar, sustentar e 
reproduzir o trabalhador, posteriormente ampliado para incluir os \u201cbens de luxo\u201d 
para o consumo pessoal da classe capitalista) e os que produzem os meios de produ\u2011
ção (para os capitalistas utilizarem na produção). Marx, então, se perguntou como 
o capital poderia passar de um setor para o outro, dada a tendência dos capitalistas 
de equalizar a taxa de lucro em todos os setores por meio da concorrência. O que 
Marx mostrou foi que poderiam facilmente aparecer situações em que o reinvesti\u2011
mento do capital fluiria de tal forma a criar desproporções entre os setores e que 
essas desproporcionalidades poderiam gerar uma espiral de crises. O problema sur\u2011
giu porque, no esforço de maximizar a taxa de lucro, os capitalistas individuais 
tenderam para uma má alocação sistemática dos fluxos do capital nos dois setores. 
Investigações posteriores construídas sobre os argumentos de Marx, com o uso de 
modelos matemáticos muito mais sofisticados, sugerem que Marx estava certo em 
seu raciocínio geral. O economista japonês do século XX Michio Morishima, por 
exemplo, mostrou que, dependendo da dinâmica das mudanças tecnológicas e da 
intensidade do capital nos dois setores, chega\u2011se ou a \u201coscilações explosivas\u201d ou à 
\u201cdivergência monotônica\u201d em torno de uma trajetória de crescimento equilibrado 
da economia. Essa percepção confirmou as conclusões de modelos anteriores (basea\u2011
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dos indiretamente no trabalho pioneiro de Marx sobre os esquemas de reprodu\u2011
ção) do crescimento econômico dos economistas Roy Harrod e Evsey Domar, nos 
idos de 1930 e 1940, de que o crescimento econômico sempre esteve em uma 
\u201ccorda bamba\u201d do crescimento equilibrado e poderia sair muito facilmente desse 
caminho estreito e mergulhar de cabeça em crises de grandes proporções.
O que eles também mostraram foi que as crises são, de fato, não apenas inevitá\u2011
veis, mas também necessárias, pois são a única maneira em que o equilíbrio po de ser 
restaurado e as contradições internas da acumulação do capital, pelo menos tem\u2011
porariamente, resolvidas. As crises são, por assim dizer, os racionalizadores irracio\u2011
nais de um capitalismo sempre instável. Durante uma crise, como esta em que estamos 
agora, é sempre importante manter esse fato em mente. Temos sempre a perguntar: 
o que está sendo racionalizado aqui e que direção estão tomando as racionalizações, 
uma vez que isso é o que vai definir não apenas a nossa forma de saída da crise, mas 
o caráter futuro do capitalismo? Em tempos de crise há sempre opções. Qual delas 
é escolhida depende criticamente da relação das forças de classe e das concepções 
mentais sobre o que poderia ser possível. Não havia nada de inevitável no New Deal 
de Roosevelt, na mesma medida em que a contrarrevolução de Reagan e Thatcher 
de 1980 não era inevitável. Mas as possibilidades não são infinitas. É a tarefa da 
análise descobrir o que agora pode ser possível e colocá\u2011lo firmemente em relação ao 
que é provável, dado o estado atual das relações de classe em todo o mundo. 
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
Na base da longa cadeia da oferta que traz os meios de produção para o capi\u2011
talista, esconde\u2011se um problema mais profundo de limites naturais em potencial. 
O capitalismo, como qualquer outro modo de produção, baseia\u2011se no usufruto da 
natureza. O esgotamento e a degradação da terra e dos chamados recursos naturais 
não fazem mais sentido no longo prazo do que a destruição dos poderes coletivos 
de trabalho, pois ambos estão na raiz da produção de toda a riqueza. Mas os capi\u2011
talistas individuais, que trabalham em seus próprios interesses de curto prazo e são 
impelidos pelas leis coercitivas da competição, estão perpetuamente tentados a 
tomar a posição de après moi le déluge com respeito ao trabalhador e ao solo. Mes\u2011
mo sem isso, a corrida pela acumulação perpétua coloca enormes pressões sobre a 
oferta de recursos naturais, enquanto o inevitável aumento da quantidade de resí\u2011
duos testa a capacidade dos sistemas ecológicos de absorvê\u2011los sem transformá\u2011los 
em tóxicos. Aqui, também, é provável que o capitalismo encontre limites e barrei\u2011
ras que se tornarão cada vez mais difíceis de contornar. 
Em nenhum lugar a ideia de limites para o capital foi mais estridente e persisten\u2011
temente afirmada ao longo da história do capitalismo do que com relação à escassez 
na natureza. Os famosos economistas do Iluminismo Thomas Malthus e David Ri\u2011
cardo se deram conta de que a diminuição dos retornos na agricultura acabaria por 
levar a taxa de lucro a zero, ditando o fim do capitalismo como nós o conhecemos, 
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porque todo o lucro seria absorvido por rendas de terrenos e pelo fornecimento de 
recursos naturais. Malthus foi ainda mais longe, é claro, insistin do (na primeira ver\u2011
são de sua teoria da população) que o conflito entre o crescimento populacional e os 
limites naturais era obrigado a produzir (e já estava produzindo) crises de fome, po\u2011
breza, peste e guerra, independentemente das políticas implementadas.
Embora Marx não fosse avesso a contemplar o fim do capitalismo, ele contestou 
ferozmente as visões de Malthus e Ricardo. Com relação a Ricardo, Marx sugeriu 
que os custos de transporte em queda e a abertura de novas terras férteis, sobretudo 
nas Américas, deram a falsa impressão de que a queda nos lucros (a tendência que 
Marx prontamente aceitou) e as crises tinham algo a ver com a escassez natural. 
Quando confrontado com uma crise, observou Marx ironicamente, Ricardo \u201cse re\u2011
fugia na química orgânica\u201d. No caso da Malthus, a objeção central de Marx era que 
o capitalismo gera pobreza em virtude de suas relações de classe e sua necessidade 
imperiosa de manter um excedente de trabalho empobrecido para a exploração fu\u2011
tura. A atribuição de baixos padrões de vida à escassez na natureza (e não às opres\u2011
sões do capital), no entanto, tem sido periodicamente ressuscitada. Explicações am\u2011
bientais eram comuns durante a crise dos anos 1970 (o influente Limites do 
crescimento* de Donella H. Meadows foi publicado em 1972 e o primeiro \u201cDia da 
Terra\u201d foi em 1970) e não é nenhuma surpresa que, nos tempos de turbulência eco\u2011
nômica iniciados em 2006, uma vasta gama de questões em torno do meio ambien\u2011
te tenha sido invocada, variando do pico do petróleo e dos preços das mercadorias 
(pelo menos até o outono de 2008) ao aquecimento global, como ba se para explica\u2011
ções ou, pelo menos, parte