HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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das explicações de nossas dificuldades econômicas atuais. 
Há todos os tipos de meios, ao que parece, pelos quais os supostos limites da na\u2011
tureza podem ser confrontados, por vezes superados e mais frequentemente contorna\u2011
dos. A dificuldade é que a categoria \u201cnatureza\u201d é tão ampla e tão complicada que pode 
abranger praticamente tudo o que é material (incluindo, é claro, a chamada \u201csegunda 
natureza\u201d produzida pelas atividades humanas que vamos considerar separadamente a 
seguir). É, portanto, muito difícil che gar a qualquer explicação abrangente do papel 
desempenhado pela escassez da natureza (em oposição à escassez resultante das mani\u2011
pulações de mercado) na formação da crise. O conceito de recursos naturais é, por 
exemplo, uma avaliação técnica, social e cultural de tal modo que qualquer escassez 
natural aparente pode, em princípio, ser mitigada, se não totalmente contornada por 
mudanças tecnológicas, sociais e culturais. Mas, ao que parece, as formas culturais são 
frequentemente tão fixas e problemáticas quanto qualquer outra coisa. 
Os tubarões estão sendo cruelmente caçados e estão perto da extinção para sa\u2011
tisfazer a predileção cultural chinesa por sopa de barbatana de tubarão, como ocor\u2011
re com os elefantes africanos por suas presas de marfim que, quando se tornam pó, 
* Rio de Janeiro, Qualitymark, 2007. (N. E.)
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supostamente têm poderes afrodisíacos (o advento da Viagra pode ainda salvar o 
elefante africano!). As preferências culturais ocidentais pelas dietas à base de carne 
têm implicações enormes para o uso de energia e para o aquecimento global, de 
forma direta (gado produz grande nuvens de metano) e indireta (os insumos ener\u2011
géticos nos alimentos para o gado são exorbitantes em relação à energia liberada 
pelo consumo de carne por populações humanas). A preferência cultural \u201canglo\u201d 
por uma \u201ccasa própria\u201d em um pedaço de terra tem gerado padrões de suburbani\u2011
zação que são perdulários em relação à energia e desperdiçam terra. Em nenhum 
desses casos seria formalmente correto culpar o capitalismo per se pelo desenvolvi\u2011
mento e persistência dessas preferências culturais perversas para o meio ambiente, 
embora tenha de ser dito que um capitalismo igualmente perverso é perfeita\u2011
mente compatível com a realização, a aceitação e, em alguns casos, a promoção 
sem medir esforços dessas preferências culturais (como a suburbanização e o con\u2011
sumo de carne), sempre e onde o lucro estiver para ser feito. 
Além disso, \u201cnatureza\u201d é um termo simples demais para dar conta da imensa di\u2011
versidade geográfica de formas de vida e da complexidade infinita dos ecossistemas 
interligados. No esquema ampliado das coisas, o desaparecimento de uma zona úmi\u2011
da aqui, de uma espécie local ali e de um determinado habitat em algum outro lugar 
podem parecer triviais, bem como inevitáveis, dados os imperativos do crescimento 
populacional humano, sem dizer a continuidade da acumulação do capital sem fim 
com uma taxa composta. Mas é justamente a agregação de tais mudanças de peque\u2011
na escala que pode produzir problemas macroecológicos, como o desmatamento, a 
perda de habitats e da biodiversidade, a desertificação e a poluição oceânica. 
A construção da relação com a natureza como inerentemente dialética indica 
uma série de possíveis transformações nos comportamentos humanos bem como 
um processo de evolução natural, incluindo a produção humana da própria nature\u2011
za, que torna essa relação dinâmica e perpetuamente aberta. Enquanto, por um la\u2011
do, essa formulação parece negar qualquer possibilidade de uma crise ambiental 
contínua ou prolongada, o que dizer de \u201cfinal\u201d, ela também traz consigo a perspec\u2011
tiva de consequências não intencionais em cascata com amplos efeitos críticos para 
a continuidade da vida diária como a conhecemos atualmente. Quem teria pensado 
que a refrigeração, que tem salvado tantas vidas e fez a urbanização em grande esca\u2011
la possível mediante a preservação da qualidade dos alimentos, acabaria por produ\u2011
zir o buraco de ozônio por causa dos clorofluorcarbonos utilizados para refrigeração; 
que o DDT ficaria tão disperso ao longo da cadeia alimentar a tal ponto de levar à 
morte pinguins da Antártida; ou que o amianto e as tintas à base de chumbo teriam 
efeitos terríveis na saúde das populações humanas muitas décadas após seu primeiro 
uso? Há muito que se compreendeu (desde os gregos antigos, pelo menos) que as 
consequências ambientais não intencionais das atividades humanas podem ser ex\u2011
tensas e que, sabe\u2011se desde os tempos antigos, a mera habilidade de usar o fogo ou 
deixar livres carneiros e cabras no campo, para não falar da vasta gama de efeitos 
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mais contemporâneos de magia química sobre a toxicidade dos ecossistemas, podem 
resultar em formas extensivas de modificação ambiental, de tal forma que na da do 
que hoje chamamos de natureza é desprovida de influência humana.
Mas a taxa composta de crescimento da acumulação do capital inevitavelmente 
sugere que as modificações ambientais se tornem mais profundas e mais extensas 
em suas consequências ao longo do tempo. Quando as fábricas de algodão de 
Manchester começaram a expelir fumaça em seus arredores por volta de 1780, as 
cabanas rupestres nas colinas Pennine logo em seguida colapsaram em virtude da 
deposição ácida. Mas isso está muito longe das estações elétricas do Vale do Ohio 
que destroem a ecologia das florestas e dos lagos da Nova Inglaterra e das estações 
elétricas britânicas que fazem o mesmo na Escandinávia desde os anos 1950. 
O que chamamos de mundo natural não é uma entidade passiva, mas, como o 
filósofo Alfred North Whitehead disse certa vez, \u201cum sistema na eterna busca de 
novidade\u201d. Para começar, os movimentos tectônicos abaixo da superfície da terra 
geram instabilidades que causam terremotos, erupções vulcânicas, maremotos e 
outros eventos, enquanto as instabilidades nas circulações atmosféricas e oceânicas 
causam furacões, tornados, tempestades de neve, secas e ondas de calor com todos 
os tipos de consequências humanas, embora desigualmente distribuídas tanto geo\u2011
gráfica quanto socialmente. Além disso, o comércio e o lucro em casos de catástro\u2011
fes humanas induzidas por eventos naturais são um característica do capitalismo 
muito frequente e merecem nossa atenção. 
Apesar de a ação humana ter eliminado com sucesso a peste bubônica e a varío la, 
agora tem de enfrentar patógenos inteiramente novos e doenças como o HIV/Aids, 
o SRAS, o vírus do Nilo ocidental, o vírus ebola e a gripe aviária, para não dizer 
nada sobre uma possível nova gripe mutante pandêmica do tipo que matou milhões 
em 1918. Os climas têm sido submetidos a um conjunto de forças que misturam 
desconfortavelmente elementos induzidos pelo homem e elementos não hu manos 
de tal forma a torná\u2011los difíceis de determinar, mesmo quando os melhores cérebros 
científicos são colocados para trabalhar em conjunto para descobrir as consequências 
climáticas globais da ação humana. Embora os efeitos sejam incontestáveis, a gama 
de consequências é quase impossível de determinar. As mudanças passadas, antes de 
os seres humanos começarem a trabalhar para mudar a face da terra, foram por vezes 
bastante rápidas \u2013 pelo menos na medida do tempo geológico (centenas de anos) \u2013 e 
completamente imprevisíveis (como as ondas de extinção das espécies). Sem contar 
aquilo que permanece sob controle, os indiscutíveis efeitos humanamente induzidos 
estão sujeitos à lei do crescimento da taxa composta, o que certamente deve ser mo\u2011
tivo de séria preocupação, além de pelo menos incentivar pesquisas sérias e medidas 
de precaução regulamentares internacionais (do tipo realizado no Protocolo de Mon\u2011
treal, de 1989, que limitou o uso de CFCs). Mas mesmo