HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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assim, quem pensa que eles 
podem prever o futuro climático, mesmo com certeza modesta, está enganado.
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A geografia histórica do capitalismo, no entanto, foi marcada por uma fluidez 
e flexibilidade incríveis no que diz respeito à relação com a natureza juntamente 
com amplas consequências inesperadas (boas e más, a partir da perspectiva da saú\u2011
de humana). Por isso, seria falso afirmar que existem limites absolutos em nossa 
relação metabólica com a natureza que não podem, em princípio, ser superados ou 
ignorados. Mas isso não significa que as barreiras não sejam, por vezes, graves e 
que a superação possa ser alcançada sem passar por algum tipo de crise ambien\u2011
tal geral (por oposição ao colapso da população de tubarões, que poderia ser inter\u2011
pretado como \u201cmeramente\u201d lamentável se não fosse pelo impacto desconhecido, 
mas provavelmente violento, que terá sobre todo o ecossistema oceânico). 
Muitas políticas capitalistas, especialmente hoje em dia, consistem em assegurar 
que os dons gratuitos da natureza estejam tanto disponíveis para o capital de modo 
fácil quanto garantidos para o uso futuro. As tensões no seio da política capitalista 
sobre esses tipos de questões podem às vezes ser agudas. Por um lado, por exemplo, 
o desejo de manter um fluxo crescente de petróleo barato tem sido fundamental 
para a orientação geopolítica dos Estados Unidos ao longo dos últimos cinquenta 
a sessenta anos, precisamente porque a absorção do excedente de capital pela su\u2011
burbanização depois de 1945 estava condicionada à disponibilidade de petróleo 
barato. A certificação de que os fornecimentos de petróleo do mundo estão abertos 
para a exploração tem levado os EUA a conflitos no Oriente Médio e em outros 
lugares, e a política de energia, só para dar um exemplo de uma relação essencial 
com a natureza, muitas vezes tem emergido como uma questão de posição do\u2011
minante dentro do aparelho estatal e nas relações interestatais. 
Mas, por outro lado, a política do petróleo barato tem suscitado problemas de 
depleção excessiva, bem como o aquecimento global e uma série de outras questões 
em torno da qualidade do ar (o ozônio troposférico, neblina, partículas em suspen\u2011
são na atmosfera e outros) que representam riscos crescentes para as populações 
humanas. O alto consumo energético para a expansão urbana tem produzido a 
degradação crônica do uso do solo, o que propicia inundações, seca de vias fluviais 
e produção de \u201cilhas de calor\u201d urbanas. Esses impactos ambientais complemen\u2011
tam o esgotamento dos recursos naturais necessários para apoiar uma indústria 
automobilística que desempenhou um papel essencial na absorção do excedente de 
capital a partir da década de 1930. 
Alguns marxistas, liderados pelo economista californiano Jim O\u2019Connor, que 
fundou a revista Capitalism, Nature, Socialism, referem\u2011se às barreiras da natureza 
como \u201ca segunda contradição do capitalismo\u201d (a primeira sendo, é claro, a relação 
capital\u2011trabalho). Em nossa época é certo que essa \u201csegunda contradição\u201d está ab\u2011
sorvendo tanta atenção política quanto a questão do trabalho, se não mais, e há um 
campo amplo de preocupação, de ansiedade e de esforço político que se centra na 
ideia de uma crise na relação com a natureza, como a fonte sustentável de matérias\u2011
\u2011primas e de terra para o desenvolvimento capitalista (urbano e agrícola), e de uma 
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pia para o crescente fluxo de lixo tóxico. Mas há sempre um perigo em sobresti\u2011
mar limites naturais supostamente \u201cpuros\u201d em detrimento da concentração sobre 
a dinâmica capitalista que é a força das mudanças ambientais em primeiro lugar 
e das relações sociais (de classe em especial) que movem essas dinâmicas em certas 
direções ambientalmente perversas. A classe capitalista, é óbvio, está sempre feliz, 
nesse ponto pelo menos, de ter seu papel deslocado e mascarado por uma retórica 
ambientalista que não a toma como a criadora do problema. Quando os preços do 
petróleo subiram no verão de 2008, foi útil reclamar da escassez natural, quando 
as companhias petrolíferas e os especuladores eram os culpados. 
No trabalho de O\u2019Connor, a segunda contradição do capitalismo veio para subs\u2011
tituir a primeira após as derrotas dos trabalhadores e movimentos socialistas da década 
de 1970. Para ele, o movimento ambientalista constitui (ou deveria constituir) a 
vanguarda da agitação anticapitalista e, durante os anos 1980 e 1990, de fato às 
vezes parecia que era o único movimento anticapitalista a ter alguma vida em si. 
Deixo a seu critério até que medida esse tipo de política deve ser prosseguido. Mas 
o que é certo é que a barreira na relação com a natureza é para ser tomada a sério e 
que as tensões estão se tornando, juntamente com todo o resto, mais globais. 
Pode haver uma crise iminente na nossa relação com a natureza que exigirá 
adaptações generalizadas (cultural e social, bem como técnica), se for para contor\u2011
nar com sucesso essa barreira pelo menos por um tempo, no âmbito da acumula\u2011
ção de capital sem fim. O fato de, no passado, o capitalismo, ter navegado com 
sucesso pelas barreiras naturais e de tê\u2011lo feito muitas vezes de modo rentável uma 
vez que as tecnologias ambientais têm sido um grande negócio e certamente po\u2011
dem se tornar muito maiores (como a administração de Obama propõe) não sig\u2011
nifica que a questão da natureza nunca constituirá um limite máximo. Mas em 
termos de uma crise imediata do nosso tempo, que começou em 2006, a questão dos 
limites naturais não pode, na superfície pelo menos, ser a primazia reconhecida 
do lugar, com a pos sível exceção do papel do chamado \u201cpico do petróleo\u201d e seu 
impacto sobre os preços da energia. A questão do pico petrolífero exige, portanto, 
algum comentário. 
Como pano de fundo vale notar que o que começou a aparecer como o maior 
de todos os potenciais limites naturais para o desenvolvimento capitalista na Grã\u2011
\u2011Bretanha do século XVIII foi perfeitamente superado com os combustíveis fós\u2011
seis e a invenção da máquina a vapor. Antes disso a terra tinha de ser usada tanto 
para a produção de alimentos quanto de energia (a partir de biomassa) e tornou\u2011se 
cada vez mais claro que não poderia ser utilizada para ambos na perspectiva de uma 
taxa composta de crescimento, dada a capacidade de transporte do tempo. Por 
volta de 1780, a energia pôde vir do subterrâneo (sob a forma de reservas de carvão 
do período carbonífero) e as terras puderam ser utilizadas apenas para a produ\u2011
ção alimentar. Cerca de um século mais tarde a imensa reserva de energia do perío\u2011
do cretáceo também pôde ser aproveitada na forma de petróleo e gás natural. Faço 
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essa observação a fim de apontar a estupidez óbvia de tentar responder à suposta 
escassez de petróleo contemporânea com a produção de etanol, que leva a produ\u2011
ção da energia de volta para a terra (utilizando mais energia para sua produção do 
que de fato produz), com impactos imediatos e sérios sobre os preços dos grãos 
usados em alimentos. A perversidade de uma política que nos leva de volta para a 
armadilha energia versus alimentos da Grã\u2011Bretanha do século XVIII não é nada 
a não ser chocante. Como isso aconteceu?
A ideia de \u201cpico do petróleo\u201d remonta a 1956 quando um geólogo, então traba\u2011
lhando para a Shell Oil, M. King Hubbert, previu, com base em uma fórmula 
que liga as taxas de novas descobertas e as de exploração, que a produção de petró\u2011
leo dentro dos EUA atingiria seu pico em 1970 e, em seguida, gradualmente con\u2011
trairia. Ele perdeu seu trabalho na Shell, mas suas previsões se revelaram corretas e, 
desde 1970, os Estados Unidos diariamente tornam\u2011se mais e mais dependentes 
do petróleo estrangeiro na medida