HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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em que as fontes domésticas têm continuado a 
declinar. Os EUA agora importam cerca de 300 bilhões de dólares de petróleo por 
ano, o que representa quase um terço de um florescente déficit comercial externo 
que deve ser coberto por empréstimos do resto do mundo em bem mais de 2 bi\u2011
lhões dólares por dia. A recente guinada para o etanol combinou uma tendência a 
diminuir a vulnerabilidade política e econômica dos EUA em relação a essa depen\u2011
dência externa com um delicioso subsídio a um poderoso lobby do agronegócio, 
que domina o antidemocrático Senado dos EUA (no qual os pequenos Estados 
rurais comandam 60% dos votos) e que tem sido um dos mais poderosos lobbies 
em Washington (o elevado nível de subsídios agrícolas nos EUA tem sido um dos 
temas mais controversos nas negociações da OMC com o resto do mundo). O con\u2011
sequente e totalmente previsível aumento dos preços dos grãos também foi uma 
boa notícia para o agronegócio, mesmo que os nova\u2011iorquinos, de repente, tenham 
encontrado seu pão com um aumento no preço de 50%. A exacerbação da fome 
no mundo não é brincadeira. Como um crítico da tese Hubbard observou, \u201cencher 
o tanque de 50 litros de uma picape com etanol puro requer 450 libras de mi\u2011
lho, o que são calorias suficientes para alimentar uma pessoa durante um ano. 
Com base nas tendências atuais (2008), o número de pessoas cronicamente famin\u2011
tas po deria dobrar até 2025, chegando a 1,2 bilhão\u201d. 
Isso tudo foi apoiado por evidências crescentes (e muita retórica) de que a fór\u2011
mula do \u201cpico do petróleo\u201d que Hubbert tinha aplicado para os EUA poderia ser 
usada com sucesso para prever o abastecimento mundial de petróleo. Na medida 
em que as taxas globais da descoberta subiram em meados da década de 1980, de 
acordo com os dados, era amplamente esperado que a produção de petróleo che\u2011
gasse a seu pico no mais tardar em 2010. Vários países produtores de petróleo, 
além dos EUA, têm mais ou menos estado de acordo com a fórmula de pico de 
Hubbert, incluindo Kuwait, Venezuela, Reino Unido, Noruega e México. Apesar 
de a situação em outros lugares, particularmente na Arábia Saudita (onde há ru\u2011
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mores de que o pico da produção já tenha sido alcançado), no Oriente Médio em 
geral, na Rússia (onde o então presidente Putin declarou recentemente que, em\u2011
bora por razões políticas e não por razões de fato, o pico petrolífero já foi passado) 
e na África, ser mais difícil de monitorar, o aumento dos preços do petróleo, de 
menos de 20 dólares o barril em 2002 para 150 dólares o barril (e uma duplicação 
dos preços da gasolina na bomba para os consumidores dos EUA) no verão de 
2008, serviu como todas as provas populares necessárias para demonstrar que o 
pico do petróleo chegou e está aqui para ficar. Feliz ou infelizmente, dependendo 
do seu ponto de vista, os preços do petróleo caíram de repente para menos de 50 
dólares o barril no fim de 2008, colocando uma grande interrogação popular sobre 
a relevância da teoria e abrindo o caminho para o relaxamento dos bancos centrais 
em relação aos temores sobre um aumento da inflação gerado pelos preços do pe\u2011
tróleo e uma consequente redução das taxas de juro, chegando a zero, nos Estados 
Unidos no final de 2008. Como o petróleo a 50 dólares o barril é frequentemente 
citado como o ponto de ruptura a partir do qual o etanol se torna rentável, o enor\u2011
me investimento que quase dobrou o número de plantas destinadas à produção de 
etanol nos EUA desde 2006 agora pode estar em perigo. 
Como e por que a escassez supostamente dada pela natureza e representada de 
forma tão nítida pela fórmula do pico do petróleo pode ser tão volátil no mercado 
requer algumas explicações. Para chegar a isso precisamos apresentar outra categoria 
de distribuição, o que Marx caracteristicamente também deixou de lado \u201caté mais 
tarde\u201d: as rendas de terrenos e de recursos naturais. Existem dois tipos de renda que 
importam (desconto aqui uma terceira categoria que Marx propôs chamada \u201crenda 
absoluta\u201d, pois, francamente, não acho que funcione). A primeira categoria que 
funciona é chamada \u201crenda diferencial\u201d e surge, num primeiro momento, por causa 
da diferença na fertilidade ou no rendimento em terras e minas em relação a uma 
terra, mina ou poço de petróleo menos produtivo que precisa ser posto em produ\u2011
ção a fim de satisfazer as demandas do mercado. A renda diferencial também pode 
e muitas vezes tem um componente de localização (a terra mais perto do centro da 
cidade é tipicamente mais valiosa do que a terra na periferia, e os poços de petróleo 
na superfície são mais fáceis de explorar do que aqueles situa dos em águas profundas 
ou em locais árticos). No caso do petróleo, os custos de exploração dos poços menos 
produtivos e menos acessíveis precisam ser cobertos, e uma taxa normal de lucro, 
acrescida à taxa média para que os capitalistas se engajem na produção \u2013 é isso que 
define o preço de base de petróleo. Todos os outros produtores ganham lucros exces\u2011
sivos já que seus custos de produção e acessibilidade são mais baixos e seu rendimen\u2011
to, superior em comparação com o poço marginal. Para quem vai esse excesso de 
lucro? Na medida em que os direitos de propriedade podem ser exercidos sobre a 
terra e os poços de petróleo, o titular desses direitos de propriedade (particulares ou 
o Estado) pode reivindicar uma taxa de royalty para a liberação da terra ou dos re\u2011
cursos para outros usos. A taxa pode ser um pagamento em dinheiro direto (renda) 
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para o uso do recurso; uma parcela dos lucros adquirida pela empresa privada que 
explora o recurso; ou um rendimento a partir da ven da direta do excesso de petróleo 
no mercado mundial por alguma entidade (como uma empresa estatal de petróleo) 
que detém o direito de propriedade para o recurso que ele próprio explora. Em to\u2011
dos esses casos, porém, o proprietário do imóvel tem um preço de reserva que nor\u2011
malmente procura extrair antes de liberar o recurso para a exploração de outros. Eles 
podem reivindicar toda ou a maior parte da renda diferencial, se forem espertos o 
suficiente, e ainda terão como continuar a produção.
A própria existência do preço de reserva atesta a renda monopolista atribuída a 
todas as formas de reivindicações dos direitos de propriedade sob os arranjos insti\u2011
tucionais que caracterizam o capitalismo. Qualquer titular de um direito de pro\u2011
priedade pode impedir o acesso a essa propriedade e recusar\u2011se a liberá\u2011lo até um 
preço de reserva ser alcançado. Em situações de competição esse preço de reserva é 
geralmente muito baixo porque, se há abundância de terras disponíveis, os produ\u2011
tores têm escolhas quanto ao local aonde vão \u2013 e, se você não dispensar sua terra para 
eles a um preço razoável (por venda, arrendamento ou contrato de locação), outros 
o farão. Algumas vezes o preço de reserva se aproxima de zero, embora, nesse caso, 
pareça não ter sentido os proprietários liberarem sua terra de qualquer maneira. 
Mas neste momento temos igualmente de reconhecer que a fertilidade ou a pro\u2011
dutividade do recurso não é por inteiro dependente da natureza, mas também dos 
investimentos em tecnologias e aperfeiçoamentos que elevam a produtividade dos re\u2011
cursos originais a novos níveis. A fertilidade da terra é tanto fabricada quanto dada 
pela natureza. O titular do direito de propriedade da terra tem um grande interesse 
em que o usuário melhore sua produtividade. No período de sucesso da \u201cagricultura 
intensiva\u201d na Grã\u2011Bretanha do século XIX, antes da longa depressão agrícola que 
começou em 1873, os proprietários favoreciam grandes aluguéis, pois isso incenti\u2011
vava os inquilinos a empreender melhorias a longo prazo (como drenagem, fertiliza\u2011
ção e técnicas de cultivo em rotação), que, em vez de melhorar a