HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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fertilidade, degra\u2011
daram\u2011na. Nesse caso, a renda diferencial adviria para o usuário durante o tempo do 
contrato de locação como um retorno do capital investido em melhorias a longo pra\u2011
zo. Mas como dar conta da terra extremamente fértil, que foi drenada ou subtraída 
do mar no século XVI? Embora a renda diferencial seja uma única categoria, resume 
maravilhosamente o problema da grande dificuldade de, enfim distinguir o que é 
dado pela natureza do que surge como resultado da ação humana, como destaca a 
questão estratégica que deve ser enfrentada por qualquer proprietário de um recur\u2011
so: minerar um recurso existente (não importa se a sua produtividade é devida à 
natureza ou à ação humana) com uma eficiência impiedosa até que seja esgotado ou 
preservar e melhorar o recurso para o futuro de modo a garantir potencialmente o 
uso sustentável de longo prazo. 
No caso de poços de petróleo, no entanto, estamos lidando com um recurso 
não renovável, o preço de reserva, o qual é dado pelas condições de relativa escas\u2011
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sez. A renda diferencial em poços de petróleo (não importa se surge a partir de tec\u2011
nologias de produção superior ou de condições naturais, digamos, de alta pressão e 
grandes quantidades subterrâneas) toma contornos de renda monopolista, como 
tem sido tão obviamente o caso do controle da Opep sobre a liberação de petróleo 
no mercado mundial a uma taxa que mantém ou estabiliza os preços a um deter\u2011
minado nível. O campo de ação da Opep é limitado, naturalmente, pelo fato de que 
nem todos os Estados pertencem ao cartel. Mas, apesar de todas as acusações de 
costume, os produtores e utilizadores em geral se beneficiam de razoável estabi\u2011
lidade dos preços no mercado, por causa das ações da Opep. Então, por que essa 
volatilidade nos preços do petróleo? 
Isso nos leva ao cerne do problema, porque o mercado de óleo é impulsiona\u2011
do tanto pela escassez criada pelas condições sociais, econômicas e políticas quanto 
pela chamada escassez natural. Rendas e futuros de petróleo são alvo de investi\u2011
mentos especulativos, e a crença em alguma escassez iminente (devida a instabili\u2011
dades políticas, guerras ou picos petrolíferos) eleva os preços drasticamente, sobre\u2011
tudo em condições em que exista uma escassez temporária na oferta para com binar 
algum \u201cpico\u201d de demanda como a que surgiu quando, em meados dos anos 1990, 
a China e a Índia entraram no mercado de petróleo de formas que acompanharam 
seu forte impulso de crescimento econômico. Rendas e futuros de petróleo, por\u2011
tanto, são capitalizados como uma forma de capital e aposta fictícia e também 
circulam de modo que todos os operadores dos mercados protejam seus in\u2011
vestimentos, criando todos os tipos de derivativos e em seguida manipulando o 
mercado de forma a coincidir com suas apostas. Como os preços do petróleo so\u2011
bem, é claro, todos os tipos de campos marginais são explorados (ou, em alguns 
casos, reabertos), simplesmente porque a definição da margem varia com a vola\u2011
tilidade singular. As areias betuminosas de Athabaska, no Canadá, são caras para 
explorar, mas se tornam altamente rentáveis quando o petróleo vai para 150 dólares 
o barril. Mas o problema é que leva um tempo considerável para colocar novos 
campos em produção e assim o tempo de resposta a um aumento da demanda é 
lento a menos que haja capacidade existente, como a controlada pela Opep, o 
que pode mais facilmente ser posto em jogo. Mas aqui, também, toda a operação, 
incluindo a de refinaria, é de capital intensivo e muito sensível para as condições 
nos mercados de capitais, para as margens de lucro e para o que está acontecendo no 
mercado de futuros de petróleo, que é um dos grandes mercados de cobertura e de 
apostas e assim fortemente influenciado pela disponibilidade do capital exceden\u2011
te. Considerando que o mundo está inundado de liquidez excessiva, então por que 
não colocar um pouco dela e apostar no mercado de futuros de petróleo? Especial\u2011
mente se alguém lhe diz que o pico do petróleo está quase chegando! 
O que está claro sobre tudo isso é que a relação com a natureza tem duas vias 
em que os caprichos e contingências das mudanças evolutivas que ocorrem natu\u2011
ralmente são correspondidos pelos caprichos e contingências das situações sociais, 
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eco nômicas e políticas que definem tanto o significado quanto a relação com a 
natureza. Barreiras à acumulação se dissolvem perpetuamente e se reformam em 
torno da questão da chamada escassez natural e, às vezes, como Marx salientou, essas 
bar reiras podem ser transformadas em contradições e crises absolutas. 
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A natureza tem sido modificada pela ação humana ao longo dos tempos. O 
meio ambiente é uma categoria que tem de incluir os campos que foram limpos, os 
pântanos e as zonas úmidas que foram drenados, os rios que foram alvo de reenge\u2011
nharia e os estuários que têm passado por dragagens, as florestas que foram corta\u2011
das e replantadas, as estradas, canais, sistemas de irrigação, ferrovias, portos, pistas 
de pouso e terminais que foram construídos, as barragens, geradores de alimenta\u2011
ção e sistemas de rede elétrica que foram desenvolvidos, sistemas de água e esgotos, 
cabos e redes de comunicações, grandes cidades, subúrbios, fábricas, escolas, casas, 
hospitais, shoppings e destinos turísticos em abundância. Além disso, esses ambien\u2011
tes são habitados por espécies inteiramente novas (pense em cães, gatos, raças bo\u2011
vinas e galinhas sem penas) que ou foram alvo de engenharia através de práticas de 
reprodução seletiva (complementada agora com práticas de engenharia genética 
direta que modificam os cultivos de milho e tomate), ou se transformaram, ou en\u2011
contraram novos nichos ambientais (basta pensar nos padrões de doenças, como a 
gripe aviária, que se transformam e surgem nos ambientes recém\u2011construídos da 
fábrica de produção de frangos sem penas). Há pouco na superfície do planeta 
Terra que possa ser imaginado como uma natureza pura e intocada, ausente de 
qualquer alteração humana. Por outro lado, não há nada de não natural em as es\u2011
pécies, incluindo a nossa, modificarem seus ambientes nas formas que lhes são pro\u2011
pícias à sua própria reprodução. As formigas o fazem, assim como as abelhas e os 
castores, estes de modo ainda mais espetacular. Da mesma forma que não há nada 
de não natural sobre um formigueiro, então não há, certamente, nada de particu\u2011
larmente não natural sobre Nova York. 
Mas tudo isso tomou energia e engenho humano para ser construído. O am\u2011
biente construído que constitui um vasto campo de meios coletivos de produção e 
consumo absorve enormes quantidades de capital tanto na construção quanto na 
manutenção. A urbanização é uma forma de absorver o excedente de capital.
Mas os projetos desse tipo não podem ser mobilizados sem reunir um enorme 
poder financeiro. E o capital investido nesses projetos deve estar preparado para 
esperar por retornos a longo prazo. Isso implica ou o envolvimento do Estado ou 
um sistema financeiro robusto o suficiente para reunir o capital e implementá\u2011lo 
com os efeitos desejados a longo prazo e esperar pacientemente pelo retorno. Isso 
tem significado geralmente inovações radicais no nexo Estado\u2011finanças. Desde 
1970, as inovações financeiras, como a securitização da dívida hipotecária e a 
disseminação dos riscos de investimento mediante a criação de mercados de deri\u2011
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vativos, tacitamente (e agora, como vemos, de verdade) apoiadas pelo poder do 
Estado, permitiram um enorme fluxo de excesso de liquidez em todas as facetas 
da urbanização e do espaço construído no mundo todo.
Em cada instância, a inovação no nexo Estado\u2011finanças tem sido uma condição