HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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necessária para canalizar os excedentes em urbanização e projetos de infraestruturas 
(barragens e rodovias, por exemplo). Mas, sucessivamente nos últimos trinta anos, 
o investimento excessivo em tais projetos tornou\u2011se um gatilho catalisador co\u2011
mum para a formação de crises. Como foi dito anteriormente, várias das crises fi\u2011
nanceiras desde 1970 foram provocadas por excessos nos mercados imobiliários.
A taxa composta de crescimento que está no cerne do modo de produção capi\u2011
talista não pode ser alcançada sem antes estabelecer as condições físicas de infraes\u2011
trutura necessárias. Um crescimento econômico liderado por exportações para 
alguns países exige transporte prévio adequado e instalações portuárias, assim como 
uma fábrica não pode funcionar sem o fornecimento adequado (e, às vezes, abun\u2011
dante) de insumos de água e energia, além de transportes e infraestrutura de 
comunicações, que permitem a continuidade da produção sem estrangulamentos 
demais no fornecimento de insumos (incluindo o trabalho) e na comercialização 
do produto. Os trabalhadores também têm de viver, fazer compras, educar seus 
filhos e satisfazer suas necessidades de lazer em algum lugar razoavelmente perto.
A vasta infraestrutura que constitui o ambiente construído é um pressuposto 
material necessário para a produção capitalista, a circulação e a acumulação avan\u2011
çarem. Essa infraestrutura exige cada vez mais uma manutenção constante e ade\u2011
quada para mantê\u2011la em bom funcionamento. Uma parcela crescente da produção 
econômica, portanto, tem de ser colocada na manutenção adequada dessas infraes\u2011
truturas necessárias. Falhas de manutenção (como a ruptura de uma rede elétrica, 
a falta de abastecimento de água ou panes nos sistemas de transportes e comunica\u2011
ções) estão longe de ser incomuns, mesmo nas economias capitalistas mais avança\u2011
das (os Estados Unidos tiveram sua cota de desastres de infraestruturas, como o 
colapso de pontes e defeitos nas redes de energia nos últimos anos). A acumulação 
de capital adicional é, aliás, baseada na construção de novas infraestruturas. A so\u2011
brevivência do capitalismo, em suma, depende do investimento na organização e 
financiamento de infraestruturas adequadas para manter a taxa de crescimento 
composto. O capital tem de criar um cenário adequado para suas próprias neces\u2011
sidades \u2013 uma segunda natureza construída à sua própria imagem \u2013 em um dado 
momento, só para revolucionar a paisagem em um momento posterior, a fim de 
acomodar uma maior acumulação numa taxa composta.
Mas que incentivos existem para o capital investir nessas infraestruturas? Uma 
taxa adequada de retorno monetário é a resposta óbvia, e isso significa que o pa\u2011
gamento para a utilização dessas infraestruturas tem de ser extraído de alguma 
forma daqueles que delas se beneficiam. Embora seja fácil de imaginar com rela\u2011
ção a casas, lojas e fábricas que podem ser alugadas ou vendidas para usuários e 
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também imaginável (mas não necessariamente desejável) para determinados 
itens de provisão coletiva (como rodovias, escolas, universidades, hospitais) que 
poderiam ser financiados com base em uma taxa por serviço prestado, ainda exis\u2011
tem muitos aspectos do ambiente construído que são mantidos em comum e dos 
quais é muito difícil extrair um pagamento direto. É aqui que o Estado tem de 
entrar novamente em cena e desempenhar um papel central. Para isso, precisa 
extrair os impostos. A teoria do gasto público produtivo surgiu na Paris do Segun\u2011
do Império pelos financistas saint\u2011simonianos e, mais tarde, foi generalizada por 
Keynes, que sugeriu que a base de tributação deve aumentar à medida que o ca\u2011
pital privado responde positivamente a possibilidades geradas pelas novas dispo\u2011
sições de infraestrutura. O resultado é uma forma de circulação Estado\u2011capital em 
que não só os investimen tos do Estado se pagam por si mesmos, mas também ge\u2011
ram uma receita extra para ser colocada em mais infraestruturas. 
Considerações desse tipo exigem a libertação do conceito de produção de seus 
confinamentos habituais. A imagem habitual de produção que prevalece é de tra\u2011
balhadores que se esforçam em uma fábrica, talvez em uma linha de montagem, 
fazendo carros. Mas os trabalhadores que produzem e mantêm as estradas, os 
sistemas de abastecimento de água, os esgotos e as casas e aqueles que fazem o 
paisagismo e a decoração dos interiores são igualmente importantes. Uma infini\u2011
dade de empresas e de trabalhadores está ativamente envolvida na produção da 
urbanização (quase sempre financiada por dívidas) ou, o que talvez seja melhor e 
mais genericamente descrito, na produção de novos espaços, lugares e ambientes. 
As lutas políticas que surgem nesse cenário apresentam tipicamente características 
bastante distintas. Embora os trabalhadores da construção possam travar uma 
guerra feroz com os empreiteiros sobre salários, condições de trabalho e segurança, 
eles são conhecidos por apoiar os projetos de desenvolvimento públicos e privados 
de todo tipo. Apesar de tais projetos criarem oposições, por razões ambientais, 
políticos e sociais, e apesar de invariavelmente suporem a despossessão dos direitos 
territoriais de populações muitas vezes vulneráveis, a classe trabalhadora é tão sus\u2011
cetível de colidir em oposição ou de se unir à luta anticapitalista.
A produção de espaços e lugares absorveu, ao longo do tempo, grandes quan\u2011
tidades de excedentes de capital. Novas paisagens e novas geografias foram criadas 
dentro das quais o capital circula em formas que são frequentemente assombra\u2011
das por profundas contradições. Se a grande quantidade de capital fixo incorporada 
na terra (olhe para baixo, para a terra, da próxima vez que voar apenas para ter 
uma noção de quão vasta é) será realizada, então deverá ser usada e paga pelos 
produtores capitalistas aqui e agora. O abandono de todos esses elementos, como 
aconteceu com muitas cidades industriais mais antigas na enorme onda de desin\u2011
dustrialização da década de 1980, incorre em prejuízos (sociais, bem como infraes\u2011
truturais) e pode ser uma fonte de crises que afetam não apenas aqueles que 
detêm a dívida em muitos desses investimentos de infraestrutura, mas também a 
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eco nomia em ge ral. É aqui que a tese de Marx de que o capitalismo encontra ine\u2011
vitavelmente barreiras dentro de sua própria natureza (nesse caso, dentro dos espa\u2011
ços, lugares e ambientes que tem produzido) torna\u2011se mais visível.
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As relações entre capital e trabalho, bem como entre capital e natureza, são 
mediadas pela escolha de tecnologias e formas organizacionais. Marx, penso, é 
preciso em sua teorização das forças motrizes dessas escolhas e de por que os ca\u2011
pitalistas fetichizam as tecnologias (as máquinas, em particular) e as novas for\u2011
mas organizacionais. Tem um problema? Tem de haver uma solução tecnológica 
ou organizacional!
Máquinas não podem produzir lucros por elas mesmas. Mas os capitalistas com 
tecnologias e formas de organização superiores ganham tipicamente uma maior 
taxa de lucro que seus concorrentes e, por fim, levam\u2011nos à falência. Ao fazê\u2011lo, o 
custo dos bens consumidos pelos trabalhadores em geral declina devido ao aumen\u2011
to da produtividade. Os custos do trabalho podem ser reduzidos sem reduzir o 
nível de vida do trabalho, gerando maior lucro para todos os capitalistas. Se os 
ganhos de produtividade são muito fortes, os padrões de vida material dos tra\u2011
balhadores podem aumentar mesmo com o declínio dos salários. Isso aconteceu 
nos EUA após a década de 1990 com o sistema de varejo do Wal\u2011Mart com 
ba se em importações baratas da China. Note\u2011se que para o Wal\u2011Mart foi mais 
uma forma de organização do que máquinas que emplacou.
O resultado é um incentivo permanente para o dinamismo