HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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organizacional e 
tecnológico. \u201cA indústria moderna\u201d, observa Marx em O capital, \u201cnunca vê ou trata 
a forma existente de um processo de produção como definitiva. Sua base técnica é, 
portanto, revolucionária, enquanto todos os modos de produção anteriores eram 
essencialmente conservadores\u201d. Esse é um tema persistente nas obras de Marx. 
Como ele e Engels prenunciam no Manifesto do Partido Comunista*, \u201ca burguesia 
não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção e, 
assim, as relações de produção, e com eles as relações da sociedade. [...] Essa subver\u2011
são contínua da produção, esse abalo ininterrupto de todas as condições sociais, a 
incerteza e agitação permanentes distinguem a época burguesa de todas as outras\u201d.
Mas por que esse impulso revolucionário no coração do capitalismo e por que o 
capitalismo é tão diferente de outros modos de produção? Os seres humanos são cla\u2011
ramente fascinados pela busca permanente da novidade, mas as condições sociais e 
culturais sob as quais o fascínio pode tornar\u2011se uma força central de condução na 
evolução humana são muito especiais. A maioria das ordens sociais até então existen\u2011
* São Paulo, Boitempo, 1998. (N. E.)
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tes era inerentemente conservadora. Procuraram preservar o status quo para proteger 
uma classe dominante e reprimir os impulsos humanos para a inovação e as ideias 
novas. Esta era uma característica persistente da história da civilização chinesa, por 
exemplo. Em última análise provou ser o calcanhar de Aquiles do comunismo real\u2011
mente existente. A ossificação burocrática e da estrutura de poder tornou\u2011se o problema.
Por razões que são muito debatidas e provavelmente nunca serão resolvidas, 
entre a inquisição da Igreja Católica e a repressão de Galileu, no começo do século 
XVII, e a invenção da máquina a vapor por Watt, no final do século XVIII, ocorreu 
na Europa e na Grã\u2011Bretanha em particular uma reconfiguração radical das condi\u2011
ções sociais, políticas, culturais e jurídicas que transformaram inovação e novas 
ideias em um abre\u2011te sésamo da criação de riqueza e poder. Uma classe dominante 
continuou a governar, mas não necessariamente por meio das mesmas personifica\u2011
ções ou descendentes biológicos.
O tipo de sociedade que emergiu foi fundamentado nos direitos de propriedade 
privada, no individualismo jurídico e em alguma versão do livre\u2011mercado e livre\u2011
\u2011comércio. O Estado viu cada vez mais seu papel como gestor dessa economia co\u2011
mo uma forma de aumentar sua riqueza e poder. Nada disso funcionou perfeita\u2011
mente de acordo com John Locke e Adam Smith, e basta ler A casa abandonada*, 
de Charles Dickens, com suas intermináveis batalhas jurídicas em Chancery, para 
reconhecer que a sociedade britânica era e ainda se constitui como uma luta de 
poder perpétua entre a antiga e a nova ordem social. Mas na Grã\u2011Bretanha e em sua 
antiga colônia, os Estados Unidos, as leis coercitivas da competição, que fluíram a 
partir desses novos arranjos institucionais, conseguiram fazer amplamente seu tra\u2011
balho sem entraves por repressões de classe e de status.
O principal mecanismo que libera a inovação da repressão e do controle regu\u2011
latório é, portanto, a concorrência. Em geral, isso produz um fluxo permanente de 
inovações em tecnologias e formas de organização simplesmente porque os capi\u2011
talistas com os processos de trabalho mais eficientes, eficazes e produtivos obtêm 
lucros mais elevados do que o resto. A busca por maior eficiência, na verdade, 
engloba todos os aspectos da circulação do capital, desde a aquisição de material 
de trabalho e meios de produção (daí a estrutura da cadeia de oferta de entregas no 
tempo exato de fornecedores subcontratados para a moderna corporação) até estra\u2011
tégias de mercado eficientes e de baixo custo (a síndrome do Wal\u2011Mart). Entidades 
capitalistas, de pequenos empresários a grandes corporações, são, portanto, obri\u2011
gadas a prestar atenção às formas organizacionais e tecnológicas e estão sempre 
à procura de inovações que gerem lucros em excesso, pelo menos por um tempo. 
O problema é que o lucro adicional que obtêm é efêmero, pois os concorrentes po\u2011
dem alcançar e até mesmo ultrapassar sua vantagem tecnológica e organizacional.
* Lisboa, Romano Torres, 1964, 2 v. (N. E.)
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A competição feroz, que os capitalistas por vezes chamam de \u201cruinosa\u201d, tende, 
portanto, a produzir inovações de salto de qualidade, que muitas vezes levam os 
capitalistas a fetichizar a inovação tecnológica e organizacional como a resposta 
para todas as suas orações (incluindo o disciplinamento do trabalho tanto no mer\u2011
cado quanto no processo de trabalho). Esse fetichismo é alimentado à medida que 
a inovação se torna um negócio que visa formar seu próprio mercado, convencen\u2011
do todos e cada um de nós de que não podemos sobreviver sem ter o mais re\u2011
cente gadget e parafernália sob nosso comando. O medo dos impactos destrutivos 
e potencialmente ruinosos das novas tecnologias, por vezes, provoca as tentati\u2011
vas de controlar ou mesmo suprimir inovações ameaçadoras. Nos últimos tempos, 
monopolizar e comprar patentes ou destruir sistematicamente determinados cami\u2011
nhos inovadores (como os carros elétricos) por meio do controle de monopólio 
não são casos inéditos, mas, como estamos vendo atualmente no caso da indústria 
automobilística de Detroit, esse tipo de resposta não funciona no longo prazo.
Mas não é só a concorrência entre os capitalistas que importa. Existem outras 
instâncias de decisão que desempenham um papel decisivo na promoção da inova\u2011
ção, das quais a mais importante é o aparelho de Estado. Um sistema interestatal 
putativo se consolidou na Europa com o Tratado de Vestfália, em 1648. Entidades 
soberanas se formaram, e sua integridade territorial era supostamente para ser res\u2011
peitada ou protegida pela força se necessário. A partir desse ponto em diante, mui\u2011
tos Estados se envolveram na busca de tecnologias militares, formas organizacio\u2011
nais, transportes e comunicações superiores. Patrocinadas pelo Estado, embora 
nominalmente autônomas, \u201csociedades científicas\u201d \u2013 por exemplo, a Académie 
Française e a Sociedade Real Britânica \u2013 começaram a patrocinar iniciativas de 
pesquisa, como a busca celebrada por um cronômetro que iria trabalhar em alto 
mar e, assim, facilitar a navegação (as ordens aristocráticas que ainda detinham o 
poder se recusaram, no entanto, em reconhecer a realização de um simples artesão 
John Harrison, que na verdade resolveu o problema em 1772). O que mais tar\u2011
de veio a ser chamado de \u201ccomplexo militar\u2011industrial\u201d surgiu em forma sombria 
no início da história do desenvolvimento do Estado capitalista (a organização dos 
\u201cPonts et Chaussées\u201d, fundada em 1747, tornou\u2011se lendária na França por sua 
competência científica e tecnológica sobre os problemas de construção de infraes\u2011
trutura e militares). Mas foi somente durante e após a Segunda Guerra Mundial 
que esse aspecto do comportamento inovador tornou\u2011se fundamental, na medida 
em que a corrida por armas da Guerra Fria, a corrida do espaço e todo o resto en\u2011
volveram diretamente o Estado na atividade de pesquisa e desenvolvimento, junta\u2011
mente com as empresas capitalistas, em diferentes setores da economia (tudo desde 
a energia nuclear para imagens de satélite até a saúde pública). Períodos de guer\u2011
ra ou de tensão política (como a Guerra Fria e, mais recentemente, a chamada 
\u201cGuerra ao Terror\u201d), tiveram assim um papel crucial na orientação dos caminhos 
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da inovação. Da mesma maneira como o nexo Estado\u2011finanças passou a desempe\u2011
nhar um papel fundamental no desenvolvimento capitalista, um nexo Estado\u2011cor\u2011
porações também surge