HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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em torno das questões de pesquisa e desenvolvimento em 
setores da economia considerados de importância estratégica (e não apenas mili\u2011
tar) para o Estado. A segurança torna\u2011se um grande negócio. 
Na medida em que P&D sustenta vantagens comparativas na competição eco\u2011
nômica global, um vasto leque de serviços dentro do aparato governamental (lidan\u2011
do com saúde, alimentação, agricultura, transportes, comunicações e energia, assim 
como com ramificações mais tradicionais de militares e de segurança), apoiado por 
um sistema universitário semipúblico enorme de pesquisa, tem desempenhado um 
papel vital na inovação tecnológica e organizacional em associação com a indústria 
nas principais potências capitalistas. No Japão, foi o Estado que arrebanhou buro\u2011
craticamente as atividades das empresas em torno de um programa de pesquisa 
tecnológica e organizacional que colocou o Japão em nível de preeminência na con\u2011
corrência por meio da industrialização (um modelo que se seguiu na Coreia do Sul, 
Taiwan, Brasil, Singapura e agora desempenha um papel crucial na China).
A partir do momento em que todas essas forças se unem, o ritmo das mudanças 
tecnológicas e organizacionais normalmente acelera para produzir uma rápida suces\u2011
são de novas fronteiras em inovação de produto e desenvolvimento, assim como de 
métodos de produção. Tais ondas de inovação podem tornar\u2011se destrutivas e ruino\u2011
sas até para o próprio capital, em parte porque as tecnologias e formas de organiza\u2011
ção de ontem têm de ser descartadas antes de terem sido amortizadas (como o com\u2011
putador com o qual estou trabalhando) e porque as reestruturações perpétuas nos 
processos de trabalho são prejudiciais à continuidade do fluxo e desestabilizam as 
relações sociais. A desvalorização dos investimentos anteriores (instalações, máqui\u2011
nas e equipamentos, ambientes construídos, redes de comunicação) antes que seu 
valor seja recuperado, por exemplo, torna\u2011se um problema sério. Da mesma forma, 
mudanças rápidas nos requisitos de qualidade de trabalho (por exemplo, a súbita 
necessidade de novas habilidades, como a alfabetização eletrônica), que ultrapassam 
as capacidades existentes na força de trabalho, geram tensões no mercado de traba\u2011
lho. As infraestruturas sociais e educacionais têm dificuldade para se adaptar rapida\u2011
mente, e a necessidade permanente de muitas \u201creciclagens\u201d na vida de um trabalhador 
coloca pressões sobre os recursos públicos, bem como sobre as energias particulares. 
A produção da precariedade crônica por meio da desqualificação e requalificação é 
apoiada pelo desemprego tecnologicamente induzido (cerca de 60% dos postos de 
trabalho que se perderam nos EUA nos últimos anos são atribuíveis às mudanças 
tecnológicas, enquanto apenas 30% devem\u2011se à amplamente criticada deslocalização 
dos empregos para o México, a China e outros países). 
Crises de desproporcionalidade em espiral também podem surgir fora do desen\u2011
volvimento desigual das capacidades tecnológicas nos diferentes setores, produzindo, 
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por exemplo, os desequilíbrios na produção de bens de sobrevivência versus meios de 
produção. Mudanças dramáticas nas relações espaço\u2011temporais, conse quên cias das 
inovações nos transportes e comunicações, podem revolucionar o panorama global 
da produção e consumo (como já discutido no caso da desindustrialização) e produ\u2011
zir \u201ccrises de mudanças\u201d (mudanças repentinas nos fluxos do investimento de capital 
de um \u201cponto acelerado\u201d para outro) dentro de um sistema instável de desenvolvi\u2011
mento geográfico desigual. Acelerações repentinas e aumentos de velocidade gerais 
na circulação do capital (como o comércio de computadores nos mercados financei\u2011
ros, que muitas vezes são culpados pelas dificuldades recentes em Wall Street) podem 
ser caóticos e perturbadores, bem como vantajosos e altamente lucrativos para aque\u2011
les cujos modelos matemáticos funcionam melhor (pelo menos por um tempo).
A história da mudança tecnológica e organizacional dentro do capitalismo tem 
sido nada menos do que notável. Mas é, evidentemente, uma faca de dois gumes 
que pode ser tão perturbadora e destrutiva como progressiva e criativa. Marx 
achava que tinha identificado um meio fundamental para explicar a queda de 
rentabilidade que tanto Malthus quanto Ricardo haviam estudado. Era mais bem 
explicada, segundo ele, pelo impacto global das inovações de economia de trabalho 
sobre as taxas de lucro. Deslocar o trabalho da produção, a origem de toda a nova 
riqueza, era contraproducente para a lucratividade no longo prazo. A tendência de 
queda dos lucros (que Ricardo tinha identificado) e as crises a que inevitavelmente 
daria origem eram internas ao capitalismo e não eram explicáveis em termos de li\u2011
mites naturais. Mas é difícil fazer a teoria de Marx sobre a queda da taxa de lucros 
funcionar quando a inovação é tanto para economizar capital ou meios de produ\u2011
ção (por exemplo, pelo uso mais eficiente da energia) quanto para economizar 
trabalho. O próprio Marx, na verdade, listou uma série de influências de contra\u2011
tendência para a queda da taxa de lucro, incluindo as taxas crescentes de exploração 
do trabalho, a redução dos custos dos meios de produção (inovações de economia de 
capital), o comércio externo que reduziria os custos dos recursos, um enorme au\u2011
mento do exército industrial de reserva de mão de obra que inibe o estímulo ao 
emprego de novas tecnologias, juntamente com a constante desvalorização do ca\u2011
pital, a absorção do excedente de capital na produção de infraestruturas físicas e, 
finalmente, a monopolização e a abertura de novas linhas de produção com traba\u2011
lho intensivo. Essa lista é tão longa que torna a explicação de uma \u201clei\u201d sólida de 
queda de lucros uma resposta mecânica à inovação para economizar trabalho, que 
permanece uma proposta insuficiente. 
O último item na lista de contratendências de Marx merece aprofundamento 
porque o problema da absorção do excedente de capital poderia há muito tempo 
ter levado ao fim do capitalismo, se não fosse pela abertura de novas linhas de pro\u2011
dutos. Desde a época de Marx, a elaboração de novas linhas e nichos de produtos 
tem sido um salva\u2011vidas para o desenvolvimento capitalista, ao mesmo tempo que 
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tem transformado a vida diária, até mesmo das populações de baixa renda dos 
chamados países em desenvolvimento (como demonstra a rápida proliferação de 
rádios e telefones celulares em todo o mundo em poucas décadas). As tecnologias 
de uso do méstico agora empregadas por profissionais da burguesia e das classes alta 
e média dos países capitalistas avançados (que passaram a incluir, além de Europa e 
América do Norte, grande parte do Leste e Sudeste Asiático) são simplesmente 
surpreendentes. A inovação e o desenvolvimento de produtos, como todas as ou\u2011
tras coisas, tem se tornado um grande negócio, aplicável não só para a melhoria 
dos produtos existentes (como automóveis), mas também de setores da indústria 
inteiramente novos (como computadores e eletrônicos e seus enormes campos de 
aplicação no governo, produtos farmacêuticos, cuidados de saúde, organização em\u2011
presarial, entretenimento e similares, além de bens de uso doméstico). Grande parte 
disso depende, naturalmente, dos gostos dos consumidores e de seu nível de deman\u2011
da efe tiva (assuntos a serem tratados em breve). Mas a propensão espantosa para a 
criação de linhas de produtos totalmente novas e a aceleração que ocorreu no desen\u2011
volvimento de novos produtos desde aproximadamente a década de 1950 colocou 
o desenvolvimento do consumismo e de uma crescente demanda efetiva no centro 
da sustentabilidade do capitalismo contemporâneo de uma forma que Marx, por 
exem plo, teria achado difícil de reconhecer. 
A implicação, porém, é