HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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que qualquer enfraquecimento nas leis coercitivas da 
competição, por meio, por exemplo, das leis de patentes e monopolização, da cen\u2011
tralização crescente do capital ou da intervenção forte demais da burocracia do 
Estado, terá um impacto sobre o ritmo e a forma das revoluções tecnológicas. 
Nos Estados Unidos, as universidades de pesquisa, que são difíceis de regulamen\u2011
tar e manter sob o controle centralizado, apesar de se tornarem mais corporativi\u2011
zadas e cada vez mais dependentes dos recursos do Estado e das empresas, desem\u2011
penham um papel crucial na manutenção de uma vantagem tecnológica em relação 
ao resto do mundo. A forma livre peculiar das universidades as preserva da ten\u2011
dência pa ra a ossificação (e corrupção tácita) na sobreposição entre as burocracias 
estatais e corporativas. Significativa e tardiamente, os europeus, os japoneses e os 
chineses passaram a reconhecer a importância desse tipo de setor de P&D de Esta\u2011
do\u2011universidade para seu futuro competitivo e estão tentando desesperadamente 
alcançar o nível dos EUA, investindo de forma pesada no ensino superior e finan\u2011
ciando centros de pesquisa e desenvolvimento. 
As dimensões da luta de classes também merecem consideração. As oposições ge\u2011
neralizadas (por exemplo, o movimento ludista de quebra de máquinas no início do 
século XIX, que Marx levou em consideração), incluindo a sabotagem das novas tec\u2011
nologias e formas de organização no chão de fábrica, têm uma longa história. Essa 
oposição surge porque o capital com frequência usa as novas tecnologias como armas 
na luta de classes e os trabalhadores resistem instintivamente. Quanto mais trabalha\u2011
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dores se tornam apêndices das máquinas que operam, menos margem de manobra 
têm, menos contam suas habilidades específicas e mais vulneráveis ficam ao desem\u2011
prego induzido pela tecnologia. Por isso, há frequentemente forte oposição dos traba\u2011
lhadores à introdução de novas tecnologias. O compromisso, é claro, tem sido acordos 
de produtividade entre os sindicatos e o capital, em que ambos os lados partilham 
alguns dos benefícios que decorrem do aumento da produtividade. Os acordos de 
produtividade que ficaram conhecidos em muitos dos setores avançados do mundo 
capitalista nas décadas de 1950 e 1960 (sustentando um padrão de vida melhor para 
os setores privilegiados da classe trabalhadora) tornaram\u2011se cada vez mais difíceis de se 
fazer valer após a crise de meados da década 1970. Desde então, a maioria dos bene\u2011
fícios do aumento da produtividade tem ido para os capitalistas e seus agentes da 
classe alta, enquanto a renda dos trabalhadores estagnou em comparação.
Mas existem duas outras implicações do dinamismo tecnológico e organizacio\u2011
nal que são de extrema importância se quisermos entender a trajetória evolutiva 
do capitalismo. Embora ambos sejam de longa data, têm também se tornado mais 
e mais salientes desde a Segunda Guerra Mundial, até o ponto em que surgiram 
como dominantes a partir dos anos 1970. 
Em primeiro lugar, tem sido argumentado que existem as chamadas \u201condas 
longas\u201d ou \u201cciclos de Kondratieff \u201d, que duram em média cinquenta anos na histó\u2011
ria do desenvolvimento capitalista e são fundadas em inovações tecnológicas que se 
agregam em um determinado lugar e momento para definir o estágio do desenvol\u2011
vimento estável e de difusão até que um novo pacote de inovações venha substituí\u2011
\u2011lo. É possível olhar para trás e definir \u201ceras\u201d do desenvolvimento capitalista, que 
correspondem aproximadamente às ferrovias, navios a vapor, indústria do carvão 
e do aço e telégrafo; ao automóvel, petróleo, indústrias de borracha e plásticos e 
rádio; ao motor a jato, geladeiras, condicionadores de ar, indústrias de metais leves 
(alumínio) e TV; e ao chip de computador e nova indústria eletrônica, que susten\u2011
tou a \u201cnova economia\u201d da década de 1990. O que está faltando nessa conta são a 
compreensão das consequências revolucionárias e sociais contraditórias da dinâ\u2011
mica Estado\u2011capital e as mudanças associadas a isso na forma de organização 
(como a passagem de empresas familiares a corporações verticalmente integradas e, 
depois, a sistemas de rede horizontais de produção e distribuição). 
A tese de ondas temporais (e com difusão espacial) regularmente espaçadas e 
que ocorrem de modo mecânico na inovação tecnológica e organizacional, na minha 
opinião, não funciona. Mas a percepção de que formas tecnológicas e organizacio\u2011
nais tornam\u2011se, por assim dizer, paradigmáticas por um tempo, até se esgotarem 
suas possibilidades, apenas para serem substituídas por outra coisa, é importante. É 
ainda mais significativa quando o problema da absorção do excedente de capital 
se torna mais agudo. Onde a quantidade crescente de excedente de capital encon\u2011
traria oportunidades de investimento rentável se não fosse por essas ondas de ino\u2011
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vação? Quanto mais excedente há ao redor, mais há uma corrida frenética por 
novas tecnologias, formando uma enorme onda especulativa que suplantam os 
booms e acidentes nas ferrovias do século XIX. O nexo Estado\u2011capital se integra 
aqui com o nexo de pesquisa Estado\u2011corporação já que, sem o capital de risco à 
fren te, muitas inovações enlanguesceriam nas sombras em vez de se tornarem tão 
rapidamente proeminentes. 
Os arranjos institucionais e as culturas estatais e burocráticas desempenham 
aqui um papel crítico. As ondas de inovação são suscetíveis, no entanto, de torna\u2011
rem\u2011se mais rápidas, mais compactas e mais especulativas, em resposta à taxa com\u2011
posta de acumulação do capital e à necessidade dominante de encontrar novos 
locais para a absorção do excedente de capital. De onde, então, virá nossa próxima 
bolha especulativa estimulada pela inovação? A minha aposta atual é a engenharia 
biomédica e genética (nas quais as grandes organizações filantrópicas, fundadas por 
aqueles que, como Bill Gates e George Soros, substituíram parcialmente o Estado 
no financiamento da pesquisa, concentram suas atividades), junto com as chama\u2011
dos tecnologias \u201cverdes\u201d (que, suspeito, são mais limitadas do que geralmente se 
imagina). 
Considerem\u2011se, em segundo, as implicações revolucionárias das mudanças tec\u2011
nológica e organizacional para a sociedade em geral. Há muito tempo é verdade 
que o esforço para criar novas riquezas e poder por meio de novos produtos e 
inovação organizacional tem permitido a uma classe dominante continuar a go\u2011
vernar, mas não necessariamente pela mesma identidade ou descendentes bioló\u2011
gicos. Pense em Andrew Carnegie, Jay Gould, os Vanderbilts, Andrew Mellon e 
outros \u201cbarões\u201d do pós\u2011Guerra Civil estadunidense e da vasta riqueza que construí\u2011
ram a partir de quase nada por conta das ferrovias; pense em Henry Ford, John D. 
Rockefeller (da Standard Oil) e todas as outras pessoas cujo aumento de poder da 
classe repousou sobre o automóvel; e, depois, pense em Bill Gates, Paul Allen, Jack 
Welch, Michael Bloomberg e outros, que assumiram as rédeas depois de 1980 
com as novas tecnologias eletrônicas e de comunicação, juntamente com os mag\u2011
natas financeiros, como George Soros, Sandy Weill, Robert Rubin, Bruce Wassers\u2011
tein, Charles Sanford e todo o resto da gangue de Wall Street. 
Claramente, a \u201cperturbação ininterrupta de todas as condições sociais\u201d e \u201ca in\u2011
certeza e agitação permanente\u201d, como Marx e Engels colocaram, aplicam\u2011se tanto 
à composição da classe capitalista como a qualquer outra coisa. A classe capitalista 
passa de revolução em revolução, e nem sempre isso ocorre pacificamente. Aqueles 
que já detinham o poder, muitas vezes procuram minar os \u201carrivistes\u201d e os \u201cnou-
veaux riches\u201d ao enredá\u2011los em redes de exclusão e de cultura que são difíceis de 
quebrar, além de manipular seu declínio (como os antiquados Rothschilds fizeram