HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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Financiamentos com casas como colateral nos EUA, início dos despejos,1985-2007
Fonte: Associação dos Banqueiros Financiadores
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tou) de repente se viu sem dinheiro e inundado por casas, escritórios e shopping 
centers em excesso, além de ainda mais capacidade produtiva e trabalho excedentes. 
No fim de 2008, todos os segmentos da economia dos EUA estavam com pro\u2011
blemas profundos. A confiança do consumidor despencou, a construção de habi\u2011
tação cessou, a demanda efetiva implodiu, as vendas no varejo caíram, o desem\u2011
prego aumentou e as lojas e as fábricas fecharam. Muitos dos tradicionais ícones 
da indústria dos EUA, como a General Motors, chegaram perto da falência, e um 
socorro temporário das montadoras de Detroit teve de ser organizado. A economia 
britânica estava igualmente com sérias dificuldades, e a União Europeia foi abala\u2011
da, mesmo com níveis desiguais, com a Espanha e a Irlanda, juntamente com vá\u2011
rios dos Estados orientais europeus que recentemente aderiram à União, mais seria\u2011
mente afetados. A Islândia, cujos bancos tinham especulado nesses mercados 
financeiros, ficou totalmente falida. 
No início de 2009, o modelo de industrialização baseado em exportações, que 
gerou um crescimento tão espetacular no Leste e Sudeste da Ásia, contraía\u2011se a uma 
taxa alarmante (muitos países como Taiwan, China, Coreia do Sul e Japão viram 
suas exportações caírem em 20% ou mais em apenas dois meses). O comércio global 
internacional caiu em um terço em poucos meses, criando tensões nas economias 
majoritariamente exportadoras, como a da Alemanha e a do Brasil. Produtores de 
matérias\u2011primas, que andavam em alta no verão de 2008, de repente depararam 
com uma queda de preços que trouxe sérias dificuldades para países produtores 
de petróleo, como a Rússia e a Venezuela, assim como os Estados do Golfo. O 
desemprego começou a aumentar a uma taxa alarmante. Cerca de 20 milhões de pes\u2011
soas perderam subitamente seus empregos na China, e relatos perturbadores de agita\u2011
ção social vieram à tona. Nos Estados Unidos, o número de desempregados au\u2011
mentou em mais de 5 milhões em poucos meses (de novo, fortemente concentrado 
em comunidades afro\u2011americanas e hispânicas). Na Espanha, a taxa de desempre\u2011
go saltou para mais de 17%. 
Na primavera de 2009, o Fundo Monetário Internacional estimava que mais de 
50 trilhões de dólares em valores de ativos (quase o mesmo valor da produção total 
de um ano de bens e serviços no mundo) haviam sido destruídos. A Federal Reser\u2011
ve estimou em 11 trilhões de dólares a perda de valores de ativos das famílias dos 
EUA apenas em 2008. Naquele período, o Banco Mundial previa o primeiro ano 
de crescimento negativo da economia mundial desde 1945.
Esta foi, sem dúvida, a mãe de todas as crises. No entanto, também deve ser 
vista como o auge de um padrão de crises financeiras que se tornaram mais fre\u2011
quentes e mais profundas ao longo dos anos, desde a última grande crise do capi\u2011
talismo nos anos 1970 e início dos anos 1980. A crise financeira que abalou o 
Leste e Sudeste Asiático de 1997 a 1998 foi enorme, e as repercussões na Rússia 
(que decretou a moratória de sua dívida em 1998) e, em seguida, na Argentina em 
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2001 (causando a um colapso total que levou a instabilidade política, ocupações de 
fábrica, bloqueios espontâneos de estradas e formação de associações de vizinhan\u2011
ça) foram catástrofes locais. Nos Estados Unidos, a falência de empresas\u2011estrela 
como a WorldCom e a Enron em 2001, que basicamente negociavam instrumentos 
financeiros chamados derivados, imitava a enorme falência do fundo de cobertura 
Long Term Capital Management (cuja gestão incluía dois vencedores do Prêmio 
Nobel de Economia) em 1998. Antes da bancarrota havia vários sinais de que 
nem tudo estava bem no que ficou conhecido como o \u201csistema de banco às escuras\u201d 
em negociações financeiras entre particulares, ou seja, em mercados não regula\u2011
mentados que haviam surgido como que por mágica depois de 1990.
Houve centenas de crises financeiras ao redor do mundo desde 1973, em com\u2011
paração com as muito poucas entre 1945 e 1973, e várias destas foram baseadas 
em questões de propriedade ou desenvolvimento urbano. A primeira crise em es\u2011
cala global do capitalismo no mundo pós\u2011Segunda Guerra começou na primavera 
de 1973, seis meses antes de o embargo árabe sobre o petróleo elevar os preços do 
barril. Originou\u2011se em um crash do mercado imobiliário global, que derrubou 
vários bancos e afetou drasticamente não só as finanças dos governos municipais 
(como o de Nova York, que foi à falência técnica em 1975, antes de ser finalmente 
socorrido), mas também as finanças do Estado de modo mais geral. O boom ja\u2011
ponês da década de 1980 terminou em um colapso do mercado de ações e preços 
da terra em queda (ainda em curso). O sistema bancário sueco teve de ser nacio\u2011
nalizado em 1992, em meio a uma crise nórdica que também afetou a Noruega e a 
Finlândia, causada por excessos nos mercados imobiliários. Um dos gatilhos para o 
colapso no Leste e Sudeste Asiático de 1997 a 1998 foi o desenvolvimento urbano 
excessivo, alimentado por um influxo de capital especulativo estrangeiro, na Tai\u2011
lândia, em Hong Kong, na Indonésia, na Coreia do Sul e nas Filipinas. E as crises 
prolongadas nas poupanças e no crédito ligados ao setor imobiliário comercial nos 
Estados Unidos de 1984 a 1992 levaram mais de 1.400 companhias de poupança 
e empréstimo e 1.860 bancos a fechar as portas, com um custo de cerca de 200 
bilhões de dólares para os contribuintes do país (uma situação que preocupou tan\u2011
to William Isaacs, então presidente da Federal Deposit Insurance Corporation, 
que, em 1987, ele ameaçou a Associação dos Banqueiros Estadunidenses com a 
nacionalização dos bancos, a menos que eles retomassem o rumo correto). Crises 
associadas a problemas nos mercados imobiliários tendem a ser mais duradouras 
do que as crises curtas e agudas que, às vezes, abalam os mercados de ações e os 
bancos diretamente. Isso porque, como veremos, os investimentos no espaço 
construído são em geral baseados em créditos de alto risco e de retorno demorado: 
quando o excesso de investimento é enfim revelado (como aconteceu recentemen\u2011
te em Dubai), o caos financeiro que leva muitos anos a ser produzido leva muitos 
anos para se desfazer.
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Taxa anual da mudança da dívida hipotecária nos EUA
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Índice dos preços de títulos de propriedade na Inglaterra
Fonte: Secretaria de Comércio
Fonte: Revista Fortune
Fonte: Revista Investers Chronicle
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Não há, portanto, nada de original no colapso atual, além do tamanho e alcan\u2011
ce. Também não há nada de anormal sobre seu enraizamento no desenvolvimento 
urbano e no mercado imobiliário. Há, temos de concluir, alguma conexão inerente 
em jogo aqui, que exige cuidado na reconstrução.
Como, então, é que devemos interpretar a confusão atual? Será que a crise sinaliza, 
por exemplo, o fim do neoliberalismo de livre\u2011mercado como modelo econômico 
dominante de desenvolvimento capitalista? A resposta depende do que entendemos 
com a palavra neoliberalismo.