HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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com os irmãos \u201carrivistes\u201d Péreires e suas novas instituições de crédito em 1868, 
em Paris). A reconstituição radical das relações de classe por meio da financeiriza\u2011
ção ainda tem de seguir seu curso.
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Mas há outra dimensão para as transformações das relações sociais que decor\u2011
rem das novas tecnologias e formas organizacionais. Marx julgava ser uma vir\u2011
tude das tecnologias desenvolvidas no âmbito da modernidade capitalista que tor\u2011
nassem transparentes e compreensíveis os processos industriais que tinham sido 
por muito tempo opacos e misteriosos. A ciência e as tecnologias de pasteurização, 
siderurgia, energia a vapor e materiais industriais e de construção estavam abertas 
a todos para que as entendessem, e não fechadas nas mentes e práticas costumeiras 
de artesãos. Mas agora chegamos a um círculo vicioso, ao que parece. Muitas tec\u2011
nologias contemporâneas (da energia nuclear à ciência de materiais, passando pela 
eletrônica) são tão complicadas que estamos cada vez mais submetidos a uma \u201clei 
de peritos\u201d. Todos nós já sentamos no consultório de um médico ou dentista e vi\u2011
mos algumas fotos borradas chamadas raio\u2011X habilmente interpretadas como boas 
ou más notícias; a maioria de nós não sabe como construir uma interpretação 
adequada desses exames. Diagnosticar o que há de errado com um sistema de com\u2011
putador não é tarefa fácil (e lidar com vírus, hackers e ladrões de identidade é ainda 
mais difícil). A maioria de nós conta com um sistema de fácil utilização que requer 
um especialista (que parece frequentemente falar em um idioma estranho, mesmo 
para aqueles que têm informação razoável) para consertar quando algo dá errado. 
Muita coisa depende da confiança no conhecimento do perito. Aqueles que têm 
esse conhecimento adquirem certo poder de monopólio, o que pode muito facil\u2011
mente levar a abusos (o tecnofascismo, como ouvi serem chamados). 
Qualquer quebra de confiança pode tornar\u2011se catastrófica. Os recentes aconte\u2011
cimentos no setor dos serviços financeiros ilustram exatamente esse problema. Em 
meados dos anos 1980 os computadores eram raros e primitivos em Wall Street. 
Os mercados ainda eram relativamente simples, transparentes e bem regulados. Os 
especuladores baseavam suas atividades em alguns compêndios de informações (de 
insiders, se você não fosse pego e condenado, como de fato aconteceu) e intuição. 
Vinte anos depois, mercados de opções e derivativos totalmente novos com nego\u2011
ciações ilegais e com frequência não regulamentadas dominavam o comércio 
(600 trilhões de dólares em negócios em 2008 em relação à produção total de bens 
e serviços na economia mundial de cerca de 55 trilhões de dólares!). Um dos pro\u2011
pósitos dessa onda de inovação foi evitar a regulamentação e criar novas arenas em 
que os excedentes de capital poderiam ser rentavelmente aplicados em mercados 
\u201clivres\u201d (ou seja, não regulamentados) sem qualquer preocupação. As inovações fo\u2011
ram pon tuais e privadas, o que correspondeu mais às atividades do \u201cbricoleur\u201d do 
que do sistematizador. Essa foi a maneira de evitar a regulação e liberar o mercado. 
Os especuladores eram em meados da década de 1990 muitas vezes matemáticos 
e físicos altamente capacitados (muitos chegaram com doutorados nessas áreas 
diretamente do MIT), que se encantaram com os complexos modelos dos merca\u2011
dos fi nanceiros, seguindo as linhas pioneiras de 1972, quando Fischer Black, 
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Myron Scholes e Robert Merton (que mais tarde se tornou famoso por seu papel 
no acidente do Long\u2011Term Capital Management e no socorro financeiro de 1998) 
escreveram uma fórmula matemática \u2013 pela qual ganharam um Prêmio Nobel de 
Economia \u2013 sobre a forma de dar valor a uma opção. A negociação identificava 
e explorava ineficiências nos mercados e distribuía os riscos, mas, dado o seu pa\u2011
drão totalmente novo, permitiu manipulações a rodo que eram extremamente di\u2011
fíceis de controlar ou mesmo de identificar, porque estavam encobertas por uma 
caixa\u2011preta de matemática intrincada dos programas informatizados dos acordos 
comerciais não regulados. 
Acabou nisso a esperança de Marx de que as novas tecnologias e formas orga\u2011
nizacionais tornariam as questões mais compreensíveis e transparentes! Os lucros 
auferidos por muitos especuladores individuais cresceram e os bônus foram estra\u2011
tosféricos. Mas o mesmo aconteceu com as perdas. Em 2002, essa realidade estava 
evidente. Um jovem especulador de Singapura, chamado Nicholas Leeson, derru\u2011
bou o venerável banco Baring, e empresas como Enron, WorldCom, Global Cros\u2011
sing e Adelphia colapsaram, como aconteceu com a Long\u2011Term Capital Mana\u2011
gement e o governo do Condado de Orange, na Califórnia, como resultado da 
negociação de novos mercados não regulamentados (derivativos e opções) e escon\u2011
dendo seus negócios em todo tipo de dispositivos contábeis obscuros e sistemas de 
avaliação matematicamente sofisticados. 
As inovações tecnológicas e financeiras desse tipo têm desempenhado um papel 
que coloca todos nós em risco sob uma lei de especialistas que não tem nada a ver 
com a preservação do interesse público, mas tudo a ver com o uso do poder de 
monopólio dessa experiência para ganhar bônus enormes para os especuladores 
entusiastas, que aspiram a ser bilionários no prazo de dez anos e, assim, garantir a 
adesão imediata à classe dominante capitalista. 
O ponto mais geral é reconhecer a inovação tecnológica e organizacional como 
uma espada de dois gumes. Isso desestabiliza assim como abre novos caminhos de 
desenvolvimento para a absorção do excedente de capital. Invariavelmente, nessa 
perspectiva, as ondas de inovação nas formas tecnológicas e organizacionais estão 
associadas a crises de \u201cdestruição criativa\u201d, nas quais um conjunto de formas domi\u2011
nantes é substituído por outro. Por mais que o relato de Marx de como os processos 
de mudança tecnológica e organizacional inevitavelmente levam a uma tendência de 
queda da taxa de lucro possa ser indevidamente simplista, sua visão fundamental 
de que tais mudanças têm um papel essencial na desestabilização de tudo e, por isso, 
produzem crises de um tipo ou de outro é sem dúvida correta.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
A aplicação do trabalho humano para retrabalhar as matérias\u2011primas (dadas 
pela natureza ou já parcialmente alteradas pela ação humana) para fazer uma nova 
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mercadoria nos leva ao coração do processo de trabalho, no qual, sob o controle do 
capitalista, o valor antigo é preservado e o novo valor (incluindo o excedente) é 
criado. Este é o lugar em que o lucro é produzido. O trabalho é fundamental 
para todas as formas de vida humana, porque os elementos da natureza têm de ser 
convertidos em produtos de utilidade para os seres humanos. Mas, nas relações 
sociais que dominam o cerne do capitalismo, o trabalho assume uma forma muito 
particular em que o trabalho, as tecnologias de produção e as formas de organização 
es tão reunidos sob o controle do capitalista por um tempo predeterminado de 
contrato para fins de produção lucrativa de mercadorias.
As relações humanas envolvidas no processo de trabalho são sempre assuntos 
complexos, não importa quão rígido seja o aparelho disciplinar, quão automatizada 
seja a tecnologia e quão repressivas sejam as condições de trabalho. Foi uma das 
realizações mais importantes de Marx reconhecer que é, na verdade, o trabalhador 
\u2013 a pessoa que realmente faz o trabalho \u2013 que detém o poder real dentro do pro\u2011
cesso de trabalho, mesmo que pareça que o capitalista tem todos os direitos legais 
e detém a maioria das cartas políticas e institucionais (por meio do comando 
sobre o Estado em particular). No processo de trabalho, no entanto, o capitalista 
é