HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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basicamente dependente do trabalhador. O trabalhador produz o capital sob a 
forma de mercadorias e desse modo reproduz o capitalismo. Se o trabalhador se 
recusa a trabalhar, pousa as ferramentas, luta por seus direitos ou joga areia na 
máquina, o capitalista fica impotente. Por mais que os capitalistas organizem o 
processo de trabalho, o trabalhador é o agente criador. A recusa de cooperação, 
como os marxistas tal qual Mario Tronti que adotam a perspectiva chamada de 
\u201cautonomista\u201d têm enfatizado, é um ponto crucial de bloqueio potencial, em que 
o trabalhador tem o poder de impor limites.
Quando pensamos na luta de classes, muitas vezes nossa imaginação gravita na 
figura do trabalhador que luta contra a exploração do capital. Mas, no processo do 
trabalho (como é o caso em outros lugares), a direção da luta é de fato oposta. É o 
capital que tem de lutar bravamente para tornar o trabalho servil no exato mo\u2011
mento em que o trabalho é, potencialmente, todo\u2011poderoso. Faz isso tanto direta\u2011
mente pelas táticas de organização das relações sociais no chão de fábrica, nos 
campos, nos escritórios e nas instituições quanto pelas redes de transporte e co\u2011
municação. Para produzir o capital, essas relações sociais devem ser moldadas de 
forma colaborativa e cooperativa. Isso às vezes pode ser alcançado pela força bruta, 
pela coação e pelos meios técnicos de regulação, mas mais frequentemente pelas 
formas de organização social que implicam confiança, lealdade e formas sutis de 
interdependência que reconhecem os poderes potenciais do trabalho, por mais que 
seja modelado pela finalidade do capital. É aqui que o capital com tanta frequência 
concede alguns poderes ao movimento do trabalho, para não falar das vantagens 
materiais, desde, é claro, que o capital continue a ser produzido e reproduzido.
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Há, de fato, uma abundância de relatos de processos de trabalho em que os ope\u2011
rários trabalhavam sob o chicote de capatazes violentos, sujeitos a todo tipo de abuso 
verbal e violência física e psicológica. Um dos tópicos mais persistentes na história da 
inovação tecnológica tem sido o desejo de enfraquecer o trabalhador tanto quanto 
possível e passar os poderes de movimento e decisão para dentro da máquina, ou 
pelo menos \u201cpara cima\u201d, em alguma sala com controle remoto. Mas o pro cesso de 
trabalho é sempre um campo de batalha perpétua que é, ao mesmo tempo, particular 
do local de produção e realizado a portas fechadas sobre as quais está escrito o credo 
capitalista, como observou Marx: \u201cEntrada proibida exceto para negócios!\u201d. O que 
acontece atrás das portas fechadas em geral não sabemos, e aqueles que trabalham 
dentro sabem muito bem e se engajam em formas de luta e de compromissos que têm 
enormes implicações em termos agregados para a dinâmica de como funciona o ca\u2011
pitalismo (e de fato se continuarem a trabalhar e produzir com lucro). 
A constitucionalidade burguesa pode ser muito eficiente nos assuntos de mer\u2011
cado, mas não consegue estender facilmente seu alcance na produção. No entanto, 
o poder do trabalho ao longo dos anos rendeu concessões sobre questões como as 
condições do emprego, da segurança no trabalho, da regulação das relações sociais 
(antiassédio e legislação da igualdade de tratamento), das definições de competên\u2011
cias e assim por diante. As formas legalizadas de organização do trabalho podem 
habilitar os ativistas do chão de fábrica (no caso da Grã\u2011Bretanha, as lideranças 
sindicais), que po dem intervir diretamente nos processos de trabalho e regular as 
relações sociais no local de trabalho, além de relacionar\u2011se com movimentos mais 
amplos de classe (como sindicatos nacionais e partidos políticos de esquerda). Mas 
a organização do local de trabalho nem sempre é fácil e, mesmo quando ela é alcan\u2011
çada, muitas vezes, regulamenta o processo de trabalho tanto em benefício do ca\u2011
pital quanto em benefício do trabalho. E como tem sucessivamente sido revelado 
nos últimos anos por escândalos do emprego de trabalhadores sem papéis nos Es\u2011
tados Unidos (ironicamente impulsionados por um fervor anti\u2011imigração), as vio\u2011
lações das leis do trabalho são comuns em parte porque a capacidade do governo 
de impor\u2011se é sistematicamente eviscerada por um Estado cada vez mais regido por 
interesses corporativos. O estatuto jurídico de regulação dos processos de trabalho, 
entretanto, varia intensamente de um lugar para outro, de tal forma que a presença 
geográfica desigual dos movimentos de sindicalização e regimes de regulação sobre 
os processos de trabalho é muito acentuada em todo o mundo capitalista.
A gama de táticas capitalistas no processo de trabalho precisa ser examinada. É 
aqui, em particular, que os capitalistas usam o poder das diferenças sociais em seu 
próprio benefício ao máximo. As questões de gênero, muitas vezes, tornam\u2011se vitais 
no chão de fábrica, assim como as questões de etnia, religião, raça e preferência 
sexual. Nas fábricas do chamado mundo em desenvolvimento são as mulheres que 
carregam o peso da exploração capitalista e cujo talento e capacidades são utilizados 
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ao extremo, em condições muitas vezes semelhantes à dominação patriarcal. Isso 
acontece porque, em uma tentativa desesperada de exercer e manter o controle 
do processo de trabalho, o capitalista tem de mobilizar qualquer relação social de 
diferença, qualquer distinção dentro da divisão social do trabalho, qualquer prefe\u2011
rência ou hábito cultural especial, tanto para impedir a uniformização inevitável da 
localização no mercado de trabalho que pode ser consolidada em um movimento 
de solidariedade social quanto para sustentar uma força de trabalho fragmenta\u2011
da e dividida. A cultura do local de trabalho, em suma, torna\u2011se uma característica 
essencial e é lá que os valores culturais mais amplos \u2013 como o patriarcado, o respei\u2011
to à autoridade, as relações sociais de dominação e submissão \u2013 são importados 
para desempenhar seu papel nas práticas de produção. Vá a qualquer local de 
trabalho \u2013 como um hospital ou um restaurante \u2013 e note o gênero, raça e etnia dos 
que fazem as diferentes tarefas e torna\u2011se evidente como as relações de poder dentro 
do processo coletivo de trabalho são distribuídas entre diferentes grupos sociais. A 
re calcitrância dessas relações sociais para a mudança tem tanto a ver com as táticas 
do capital quanto com o conservadorismo inerente às relações sociais e o desejo de 
preservar privilégios menores (incluindo até mesmo o acesso a empregos de baixa 
remuneração) por parte de diferentes grupos. 
Temos agora a sorte de ter à nossa disposição inumeráveis estudos etnográficos, 
feitos em especial por antropólogos e sociólogos do trabalho, conduzidos em uma 
am pla gama de situações e contextos culturais radicalmente diferentes. Deixando 
de lado o interesse desses pesquisadores na elaboração de estudos sobre tais culturas 
em relação a diferenças e especificidades, o quadro global que emerge é de fato de 
variedades aparentemente infinitas de relações sociais e tradições culturais, ainda 
que dentro de um enquadramento global de constrangimentos.
Os constrangimentos ocorrem, no entanto, em termos simples, mesmo quando 
as tentativas ideológicas e práticas de obscurecer sua forma se multiplicam. Acon\u2011
teça o que acontecer no processo de trabalho, a potencialidade de um bloqueio 
revolucionário do tipo enfatizado pelos autonomistas é sempre uma ameaça. Deve 
ser evitado a todo custo pelo capital, porque o capital e o capitalista têm de ser 
perpetuamente reproduzidos pelos trabalhadores por meio da atividade do traba\u2011
lhador. Os detalhes de como isso é feito são infinitos em sua variedade e, certamen\u2011
te, dignos de uma investigação minuciosa. As lutas sociais no chão de fábricas e