HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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nos campos, nos escritórios, nas lojas e nos espaços de construção, bem como na 
produção dos espaços, nos lugares e ambientes construídos, definem um ponto de 
bloqueio potencial para a acumulação do capital que está perpetuamente presente 
e que precisa ser perpetuamente contornado para o capitalismo sobreviver.
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O capital vai ao mercado
O último obstáculo potencial para a acumulação perpétua reside no ponto em 
que a nova mercadoria entra no mercado tanto como uma coisa ou como algum 
tipo de serviço a ser trocado pelo dinheiro original acrescido de um lucro. A parti\u2011
cularidade da mercadoria tem de ser convertida na universalidade do dinheiro, o 
que é muito mais problemático do que ir do dinheiro (a representação universal do 
valor) à mercadoria. Alguém tem de necessitar, querer ou desejar essa mercadoria 
particular à venda para que isso seja possível. Se ninguém a quiser, então ela é 
inútil e sem valor. Mas aqueles que necessitam, querem ou desejam a mercadoria 
também precisam ter o dinheiro para comprá\u2011la. Sem dinheiro eles não podem 
fazê\u2011lo. Se ninguém quiser ou puder se dar ao luxo de comprá\u2011la, então não há 
venda, o lucro não é realizado, e o capital inicial é perdido. 
Uma imensa quantidade de esforço, incluindo a formação de uma vasta indús\u2011
tria de publicidade, tem sido colocada para influenciar e manipular as necessidades, 
vontades e desejos das populações humanas para assegurar um mercado potencial. 
Mas algo mais do que apenas publicidade está em jogo aqui. O que é necessário é 
a formação de condições diárias de vida que exigem a absorção de um conjunto de 
certas mercadorias e serviços, a fim de se sustentar. Considere, por exemplo, o de\u2011
senvolvimento das necessidades, vontades e desejos associados com a emergência 
do estilo de vida suburbano nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. 
Não estamos apenas falando da necessidade de automóveis, gasolina, estradas, casas 
amplas e centros comerciais, mas também de cortadores de grama, geladeiras, ares\u2011
\u2011condicionados, cortinas, móveis (para dentro e fora da casa), equipamentos de 
lazer (a TV) e uma série de sistemas de manutenção para dar continuidade à vida 
diária. A vi da diária nos subúrbios requer o consumo de pelo menos tudo isso. O 
desenvolvimento dos subúrbios fez com que essas mercadorias passassem de von\u2011
tades e desejos a necessidades absolutas. A criação perpétua de novas necessidades 
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é uma condição essencial para a continuidade da expansão infinita da acumulação 
do capital. É aqui que as tecnologias e a política de criação de novas necessidades 
vêm à tona como a ponta da acumulação sustentável. É agora bem entendido que 
\u201co sentimento do consumidor\u201d e \u201ca confiança do consumidor\u201d nas sociedades mais 
afluentes não são apenas as chaves para a acumulação do capital sem fim, mas são 
também cada vez mais a base da qual depende a sobrevivência do capitalismo. 
Setenta por cento da atividade econômica dos EUA dependem do consumismo. 
Mas de onde vem o poder aquisitivo para comprar todos esses produtos? Deve 
haver, no fim das contas, uma quantidade extra de dinheiro que alguém tem em 
algum lugar para permitir a compra. Senão, há uma falta de demanda efetiva, de\u2011
finida como necessidades, vontades e desejos, apoiados pela capacidade de pagar. 
O que se chama de crise de \u201csubconsumo\u201d ocorre quando não há suficiente deman\u2011
da efetiva para absorver os produtos produzidos. 
Quando trabalhadores gastam seu salário, isso se configura numa fonte de de\u2011
manda efetiva. Mas a massa salarial é sempre menor do que o capital total em cir\u2011
culação (senão, não haveria lucro), assim a compra dos bens de sobrevivência que 
sustentam a vida diária (mesmo com um estilo de vida suburbano) nunca é sufi\u2011
ciente para a venda com lucro da produção total. Uma política de repressão sala\u2011
rial só aumenta a possibilidade de uma crise de subconsumo. Muitos analistas 
chegaram a considerar a crise dos anos 1930 como uma crise essencialmente de 
subconsumo. Eles apoiaram, portanto, a sindicalização e outras estratégias do Es\u2011
tado (como a assistência social) para reforçar a demanda efetiva nas classes traba\u2011
lhadoras. Em 2008, o governo federal dos EUA liberou um desconto fiscal de 
seiscentos dólares para a maioria dos contribuintes abaixo de um determinado ní\u2011
vel de renda com o mesmo intuito. Teria sido muito melhor ter revertido a política 
de repressão salarial posta em prática a partir de meados da década de 1970 e 
elevado o salário real. Isso teria impulsionado permanentemente a demanda e a 
confiança dos consumidores. Mas muitos capitalistas, assim como os ideólogos da 
direita, não estavam dispostos a contemplar tal solução. Os republicanos no Con\u2011
gresso bloquearam o plano inicial para socorrer as montadoras de Detroit sob a 
justificação de que não reduzia os salários e benefícios dos trabalhadores sindicali\u2011
zados ao nível daqueles encontrados nas montadoras sem sindicatos japonesas e 
alemãs localizadas no Sul americano. Assim, viram a crise co mo uma oportunidade 
de levar a cabo outro ataque de repressão salarial, o que era exatamente a receita 
errada para a doença da falta de demanda efetiva. 
Mas a demanda dos trabalhadores, por mais que seja importante, obviamente não 
resolve o problema da realização de lucros. Rosa Luxemburgo, a famosa militante e 
teórica de esquerda, preocupou\u2011se bastante com esse problema no início dos anos 
1900. Primeiro, considerou a possibilidade de a demanda extra vir do aumento da 
oferta de ouro (ou, em nossos dias, do aumento da impressão de dinheiro pelos ban\u2011
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cos centrais). Obviamente, isso pode ajudar no curto prazo (a injeção de liquidez su\u2011
ficiente no sistema, como na crise financeira de 2008, foi crucial para estabilizar a 
circulação contínua e a acumulação do capital). Mas o impacto é limitado e, no longo 
prazo, o efeito é criar ainda outro tipo de crise, de inflação. A outra solução de Luxem\u2011
burgo foi pressupor a existência de alguma demanda latente e mobilizável extra fora 
do sistema capitalista. Isso significava a continuação da acumulação primitiva por 
imposições e práticas imperialistas em sociedades não capitalistas. Populações inteiras 
tiveram de ser mobilizadas como consumidores e não como trabalhadores. No século 
XIX, os britânicos usaram seu domínio imperial sobre a Índia para expandir o merca\u2011
do para os produtos britânicos (e no processo destruíram formas indígenas de produ\u2011
ção). O mercado chinês também foi violentamente aberto no século XIX (apenas 
para ser fechado de novo depois que os comunistas tomaram o poder em 1949).
Na transição para o capitalismo, e na fase da acumulação primitiva, os bolsões 
de riqueza acumulados na ordem feudal puderam desempenhar esse papel (muitas 
vezes em esquemas pouco claros nas atividades de agiotas e usurários), juntamente 
com o assalto e a pilhagem das riquezas do mundo não capitalista pelo capital mer\u2011
cantil. Mas o que poderia ser chamado de \u201creservas de ouro\u201d do mundo não capi\u2011
talista (como Índia e China) foi sistematicamente destruído ao longo do tempo e a 
capacidade associada dos camponeses de apoiar o consumismo da aristocracia fun\u2011
diária (por meio da extração monetarizada de rendas da terra) ou do aparelho do 
Es tado (pelos impostos) foi também pouco a pouco esgotada. 
Paralelamente à consolidação do capitalismo industrial na Europa e na América 
do Norte, a pilhagem das riquezas da Índia, China e outras formações sociais não 
capitalistas já desenvolvidas tornou\u2011se cada vez mais proeminente, em particular a 
partir de meados do século XIX. Essa foi a fase de uma transferência imensa de ri\u2011
quezas do Leste e Sul Asiático, mas também até certo ponto