HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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da América do Sul e 
África, para a classe capitalista industrial localizada no núcleo dos países capita\u2011
listas da Europa e América do Norte. Mas, por fim, na medida em que o capitalis\u2011
mo cresceu e se espalhou geograficamente, a capacidade de estabilizar o sistema por 
esses meios tornou\u2011se cada vez menos plausível. 
Desde mais ou menos 1950, e de forma mais acentuada desde a década de 
1970, a capacidade das práticas imperialistas desse tipo de desempenhar o papel 
de grande estabilizador tem sido seriamente prejudicada. Com o capitalismo (de 
algum modo) agora implantado com firmeza em todo o Leste e Sudeste Asiático e 
se desenvolvendo fortemente na Índia e Indonésia, para não falar de todo o resto 
do mundo, o problema da demanda global e eficaz dos consumidores está colocado 
numa ba se inteiramente diferente. A demanda efetiva que estabiliza o cresci\u2011
mento atual da China, por exemplo, é agora em grande parte localizada nos Estados 
Unidos, o que explica por que a China se sente tão obrigada a cobrir os déficits 
dos EUA, pois o colapso do consumismo nos EUA teria (e tem) efeitos devastado\u2011
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res nos empregos industriais e nas taxas de lucro na China. A resposta óbvia é a 
China desenvolver seu próprio mercado interno, mas isso exigiria a elevação dos 
salários e enfraqueceria sua própria vantagem competitiva na economia global. 
Significaria também usar mais de seu superávit para o desenvolvimento interno, o 
que se traduziria em ter menos disponível para emprestar para os EUA. Isso di\u2011
minuiria ainda mais a demanda efetiva de produtos chineses nos Estados Unidos. 
O que isso prenuncia, como vimos anteriormente, é uma inversão histórica dos 
150 anos ou mais da transferência de riquezas do Leste e Sul Asiático para os Es\u2011
tados Unidos e a Europa e uma mudança radical na capacidade de os EUA domi\u2011
narem o capitalismo global como fazem desde 1945.
A resposta mais importante para o enigma da demanda efetiva \u2013 que Luxem\u2011
burgo não percebeu, mas que decorre logicamente da análise de Marx \u2013 é que a 
solução reside no consumo capitalista. Este se dá de duas formas: uma parte da 
mais\u2011valia é consumida como gastos (por exemplo, como bens de base e bens de lu\u2011
xo e serviços), mas a outra parte é reinvestida ou em bens de sobrevivência para que 
mais trabalhadores sejam empregados ou em meios de produção novos. Tendo em 
conta a repressão salarial que ocorreu em todo o mundo (embora de forma desi\u2011
gual), a classe capitalista em geral tem tido um fluxo crescente de receitas sob seu 
comando e a demanda por bens de luxo tem crescido claramente a um grau corres\u2011
pondente (basta ir a qualquer marina na Flórida ou nos arredores do Mediterrâneo 
e olhar os iates e navios de cruzeiro atracados por lá, e daí comparar isso com o que 
se via em 1970 para entender a questão). Mas, apesar da ostentação de seus hábitos 
de consumo, ainda há um limite físico para o número de iates, mansões ou 
pares de sapatos que a classe bilionária pode consumir. O consumo pessoal capita\u2011
lista, ao que parece, é uma fonte muita fraca da demanda efetiva. Quanto mais a 
centralização de capital concentra a riqueza nas mãos de um grupo muito pequeno 
da po pulação (como as mais ou menos 300 famílias que o relatório de desenvolvi\u2011
mento da ONU de 1996 mostrou que controlam 40% da riqueza do mundo), 
menos eficaz se torna seu consumo no estímulo da demanda. 
Portanto, a resposta tem de estar no reinvestimento capitalista. Suponha que os 
capitalistas utilizem seus excedentes somente na expansão da produção. A demanda 
extra para a expansão de hoje dá conta dos excedentes dos meios de produção e 
de bens de salário produzidos ontem. A produção excedente internaliza seu próprio 
aumento de demanda monetária! Em termos mais formais, a demanda efetiva do 
produto excedente de ontem depende do consumo dos trabalhadores, do consumo 
pessoal capitalista e da nova demanda gerada pela expansão da produção de amanhã. 
O que aparece como um problema de subconsumo se torna um problema de encon\u2011
trar oportunidades de reinvestimento de uma parte do excedente produzido ontem! 
Para que esse reinvestimento aconteça, três condições fundamentais devem ser 
realizadas. Em primeiro lugar, os capitalistas devem colocar imediatamente o di\u2011
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nheiro que ganharam ontem outra vez em circulação como novo capital. Mas não 
existe uma regra que diga que a conversão de mercadorias em dinheiro deve ser 
imediatamente seguida pela conversão do dinheiro em mercadorias. Os capitalistas 
podem preferir guardar o dinheiro em vez de reinvestir. Há circunstâncias em que 
isso faz todo o sentido para eles e é nesse ponto que surge uma sobreposição entre 
Marx e Keynes no pensamento sobre a possibilidade de crises de subconsumo. Em 
condições de incerteza, ficar com a forma universal da riqueza, o dinheiro, em vez 
de mercadorias faz sentido, a não ser em condições de inflação galopante, quando 
pode ser mais vantajoso guardar latas de atum e barris de óleo de cozinha em vez 
de dinheiro. O caso mais geral é aquele em que uma perda de fé e confiança na 
economia leva as pessoas a poupar dinheiro e não gastá\u2011lo. Isso pode ocorrer quan\u2011
do as perspectivas de lucro são pouco atrativas. Mas isso, por sua vez, leva ao que 
Keynes chamou de \u201carmadilha da liquidez\u201d \u2013 quanto mais pessoas ou instituições 
(incluindo bancos e empresas) acumularem dinheiro em vez de gastá\u2011lo, maior 
será a probabilidade de a demanda efetiva entrar em colapso e menor será a ren\u2011
tabilidade do reinvestimento na produção. O resultado é uma espiral descendente 
(do tipo que ocorreu nos anos 1930 e que presenciamos atualmente), que é difícil 
de reverter. Keynes tentou superar esse obstáculo com estratégias de gestão fis\u2011
cal e monetária lideradas pelo Estado. O financiamento do déficit organizado 
pelo Estado (do tipo que surgiu muito visivelmente no fim do outono de 2008, nos 
Estados Unidos, na Grã\u2011Bretanha e em outros lugares) é visto como a panaceia 
imediata.
A segunda condição é que o intervalo de tempo entre o reinvestimento de hoje 
e a produção de excedente de ontem possa ser superado de alguma forma. Isso re\u2011
quer o uso de dinheiro como meio de conta, o que pressupõe a existência de um 
sistema de crédito que possa entrar no processo de circulação para resolver o pro\u2011
blema da demanda efetiva insuficiente. Na medida em que outras opções desapa\u2011
recem (como invadir as reservas de ouro das ordens sociais anteriores ou roubar 
o valor do resto do mundo), o crédito se torna o único meio importante de cobrir o 
problema da demanda efetiva. A solução é, então, internalizada na dinâmica da 
acumulação do capital. O preço, porém, é que os banqueiros e financistas que ope\u2011
ram o sistema de crédito, juntamente com os poupadores que fazem depósitos de 
dinheiro em instituições de crédito, podem voltar a reivindicar sua parte da mais\u2011
\u2011valia futura na forma de juros e taxas de serviços. 
A terceira condição é que o dinheiro sob forma de crédito recebido seja gasto 
com a compra de bens de base e meios de produção extras que já foram produzi\u2011
dos. O argumento político geral para apoiar a concentração de riqueza nas classes 
superiores é que elas podem usar e usam sua riqueza para reinvestir e assim criam 
empregos, produtos novos e, portanto, uma nova riqueza que pode no fim do dia 
beneficiar a todos potencialmente (mediante um efeito cascata, entre outros) e 
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assim gerar mais demanda. O que falta a esse argumento é que os capitalistas, como 
se viu anteriormente, têm a capacidade de escolha sobre no que vão reinvestir: po\u2011
dem reinvestir na expansão da produção ou podem usar sua riqueza para comprar 
ativos, como ações