HARVEY, David. O Enigma do Capital
235 pág.

HARVEY, David. O Enigma do Capital


DisciplinaPolítica Social518 materiais1.948 seguidores
Pré-visualização50 páginas
e títulos, propriedades, objetos de arte ou participação em algu\u2011
ma empreitada especulativa, como uma empresa de equidade privada, um fundo 
de cobertura ou algum outro instrumento financeiro a partir dos quais podem 
rea lizar ganhos de capital. Nesse caso, seus reinvestimentos não desempenham pa\u2011
pel algum no fortalecimento da demanda efetiva. 
Se concluímos que mais expansão da produção cria a demanda para o produto 
excedente de ontem e que o crédito é necessário para preencher a lacuna temporal, 
segue\u2011se também que a acumulação do capital a uma taxa composta movida por 
crédito é também uma condição de sobrevivência do capitalismo. Só então a ex\u2011
pansão de hoje pode dar conta do excedente de ontem. A razão pela qual 3% de 
crescimento requerem 3% de reinvestimento se torna evidente. O capitalismo, com 
efeito, deve gerar e internalizar a sua própria demanda efetiva se quiser sobreviver 
em condições em que as possibilidades externas estão esgotadas. Se ele falhar ao 
fazê\u2011lo, como é atualmente o caso, por causa das barreiras à expansão continuada 
da produção, segue\u2011se uma crise. 
Há outro ponto a ser observado. Se é preciso que haja concorrência para manter 
a expansão permanente da produção, segue\u2011se que a preservação da competitividade 
é também necessária para a sobrevivência do capitalismo. Qualquer enfraquecimen\u2011
to da concorrência, por meio, por exemplo, da monopolização excessiva, é capaz de 
produzir uma crise na reprodução capitalista. Esse foi, naturalmente, o argumento 
dos economistas Paul Baran e Paul Sweezy, em seu Capitalismo monopolista (escri\u2011
to na década de 1960). A tendência de monopolização e a centralização do capital 
produzem necessariamente, como eles bem previram, uma crise de estagflação (au\u2011
mento do desemprego junto com aceleração da inflação) do tipo que assombrou os 
anos 1970. A contrarrevolução neoliberal que então ocorreu não só veio para que\u2011
brar o poder do trabalho, mas também para es tabelecer as leis coercivas da concor\u2011
rência como \u201cexecutoras\u201d das leis da acumulação sem fim do capitalismo. 
Esse processo não está isento de possíveis complicações. Para começar, o pressu\u2011
posto é que todos os outros obstáculos (como a relação com a natureza) foram supe\u2011
rados e que há uma abundância de possibilidades para mais produção. Isso implica 
uma mudança do imperialismo da prática de roubo de valores e devastação de 
ativos no resto do mundo ao uso do resto do mundo como um local para a aber\u2011
tura de novas formas de produção capitalista. A exportação do capital, no lugar de 
mercadorias, torna\u2011se crítica. Aqui reside a grande diferença entre a Índia e a China 
do século XIX, cuja riqueza foi saqueada pela dominação capitalista dos seus 
mercados, e os Estados Uni dos, onde o desenvolvimento capitalista irrestrito pro\u2011
duziu novas riquezas de tal for ma a absorver e realizar o produto excedente que 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 96 11/18/11 4:35 PM
O capital vai ao mercado / 97
estava sendo gerado nos centros mais antigos do capitalismo (por exemplo, a ex\u2011
portação de capital e máquinas da Grã\u2011Bretanha para os EUA no século XIX). 
Nos últimos tempos, a China tem absorvido uma grande quantidade de capital 
estrangeiro no desenvolvimento da produção e, com isso, gerado uma enorme 
demanda efetiva não só de matérias\u2011primas, mas também de máquinas e outros 
insumos materiais. É um mercado primário porque é um grande centro de inves\u2011
timento em produção. 
Há, no entanto, dois problemas inerentes a essa solução para o subconsumo. 
O primeiro decorre do simples fato de a acumulação tornar\u2011se duplamente especu\u2011
lativa: baseia\u2011se na crença de que a expansão de amanhã não vai encontrar barreiras, 
de tal forma que o excedente de hoje possa ser efetivamente realizado. Isso significa 
que as antecipações e expectativas, como Keynes bem entendeu, são fundamentais 
para a continuidade da circulação do capital. Qualquer queda nas expectativas 
de especulação gerará uma crise. Na Teoria geral* de Keynes, as soluções técnicas de 
políticas monetária e fiscal ocupam apenas uma pequena parte do argumento em 
comparação com a psicologia das expectativas e antecipações. A fé no sistema é fun\u2011
damental e a perda de confiança, como aconteceu em 2008, pode ser fatal. 
O segundo problema surge no âmbito do próprio sistema monetário e de cré\u2011
dito. A possibilidade de crises financeiras e monetárias \u201cindependentes\u201d é onipre\u2011
sente. O problema fundamental está nas contradições da própria forma dinhei\u2011
ro, mais fácil de entender quando o sistema da política monetária tinha uma clara 
base metálica. Uma mercadoria especial, o ouro, representava o valor de todas as 
formas de trabalho social, o particular (concreto e tangível) representava o univer\u2011
sal (abstrato), e pessoas físicas podiam ter controle sobre poder social ilimitado. Há 
uma tentação permanente das pessoas em relação a guardar seu dinheiro, precisa\u2011
mente porque é uma forma de poder social. Mas quanto mais as pessoas fazem isso, 
mais ameaçam a continuidade da circulação. Soltar o dinheiro novamente para a 
circulação para obter mais poder social é como um ato de fé, ou exige instituições 
seguras e confiáveis nas quais se possa colocar seu dinheiro pessoal à disposição de 
outra pessoa em busca de aventuras lucrativas (que é, claro, o que os bancos tra\u2011
dicionalmente fazem). A confiança no sistema torna\u2011se crucial. Esquemas de Ponzi 
de qualquer tipo minam essa confiança. 
A perda de confiança nos símbolos do dinheiro (o poder do Estado para garan\u2011
tir estabilidade monetária) ou na qualidade de dinheiro (inflação) leva à possibi\u2011
lidade de escassez monetária e ao congelamento dos meios de pagamento, do tipo 
que ocorreu no outono de 2008. No coração do sistema de crédito existe uma ga\u2011
ma de aspectos técnicos e jurídicos (muitos dos quais podem falhar ou ser distorci\u2011
dos, simplesmente por suas regras de funcionamento), aliada a expectativas e an\u2011
* Lisboa, Relógio D\u2019Água, 2010. (N. E.)
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 97 11/18/11 4:35 PM
98 / O enigma do capital
tecipações subjetivas. Na medida em que o capitalismo continua a se expandir, o 
papel do sistema de crédito se torna mais proeminente, como uma espécie de siste\u2011
ma nervoso central para dirigir e controlar a dinâmica global da acumulação do 
capital. A implicação é que o controle sobre os meios de crédito torna\u2011se crítica 
para o funcionamento do capitalismo \u2013 uma situação que Marx e Engels reconhe\u2011
ceram no Manifesto Comunista, fazendo com que a centralização dos meios de 
crédito nas mãos do Estado fosse uma de suas demandas essenciais (presumindo, é 
claro, o controle da classe trabalhadora sobre o Estado). Quando isso é adicionado 
ao papel fundamental do Estado no que diz respeito à qualidade da cunhagem e, 
mais importante, das moedas simbólicas, então uma maior fusão dos poderes esta\u2011
tais e financeiros no nexo Estado\u2011finanças parece inevitável. 
Mas aqui está o principal problema. Da mesma forma que o capital pode operar 
em ambos os lados da oferta e demanda da força de trabalho (via desemprego tecno\u2011
logicamente induzido), ele pode operar em ambos os lados da relação produção\u2011rea\u2011
lização, pelo sistema de crédito. Uma fonte cada vez mais liberal de crédito para 
futuros proprietários, acoplada a uma fonte igualmente liberal de crédito para os 
promotores imobiliários, leva a um crescimento maciço em habitação e desen\u2011
volvimento urbano (como aconteceu na Flórida e na Califórnia nos últimos anos). 
Poderia então se imaginar que o problema da produção e realização contínua dos 
excedentes estava resolvido. Isso concentra imenso poder social e econômico den\u2011
tro do sistema de crédito. Mas, para se sustentar, também exige que o cré dito se 
expanda a uma taxa composta, como de fato aconteceu nos últimos vinte anos. 
Quando a bolha do crédito estoura, o que inevitavelmente ocorre, a eco nomia toda 
mergulha em uma