HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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primeiro, como o mundo funcionava e, segundo, quais as consequências dessas 
mudanças. Repetidamente, o imprevisto e o inesperado aconteceram, deixando pa\u2011
ra trás uma vasta empreitada intelectual e prática na tentativa de limpar as conse\u2011
quências desordenadoras do que já estava preparado por mais que não se soubesse.
A saga do capitalismo é cheia de paradoxos, por mais que a maioria dos tipos de 
teoria social \u2013 a teoria econômica em particular \u2013 não os leve de modo algum em 
consideração. Do lado negativo, temos não só as crises econômicas periódicas e 
muitas vezes localizadas que têm pontuado a evolução do capitalismo, incluindo as 
guerras mundiais intercapitalistas e interimperialistas, os problemas da degradação 
ambiental, a perda de biodiversidade, a espiral da pobreza entre as populações em 
crescimento, o neocolonialismo, as graves crises na saúde pública, a abundância de 
alienações e exclusões sociais e as angústias da insegurança, violência e desejos não 
realizados. No lado positivo, alguns de nós vivemos em um mundo onde os padrões 
de vida material e o bem\u2011estar nunca foram maiores, onde as viagens e as comuni\u2011
cações foram revolucionadas e as barreiras espaciais físicas (embora não sociais) das 
interações humanas foram reduzidas, onde os conhecimentos médicos e biomédi\u2011
cos oferecem para muitos uma vida mais longa, onde cidades enormes e espetacu\u2011
lares, que seguem se alastrando, foram construídas, onde o conhecimento prolifera, 
a esperança é eterna e tudo parece possível (da autoclonagem à viagem espacial). 
Que esse é o mundo contraditório em que vivemos, e que continua a evoluir 
em um ritmo acelerado de modo imprevisível e aparentemente incontrolável, é 
inegável. No entanto, os princípios que sustentam essa evolução continuam obs\u2011
curos, em parte porque nós, seres humanos, lidamos mais com essa história com 
base em caprichos de algum tipo de desejo humano coletivo e às vezes individual, 
em vez de buscar princípios evolutivos dominantes do tipo que Darwin descobriu 
no campo da evolução natural. Se quisermos mudar o mundo coletivamente em 
uma configuração mais racional e humana por meio de intervenções conscientes, 
temos primeiro de aprender a compreender muito melhor do que compreendemos 
agora o que es tamos fazendo com o mundo e com quais consequências. 
A geografia histórica do capitalismo não pode ser reduzida, evidentemente, a 
questões da acumulação do capital. Mas também tem de ser dito que a acumulação 
do capital, junto com o crescimento da população, está no cerne da dinâmica evo\u2011
lutiva humana desde mais ou menos 1750. Entender como exatamente isso se deu 
é fundamental para desvendar o enigma do capital. Existem princípios evolutivos 
que devemos levar em consideração aqui, nos quais podemos buscar algum tipo de 
clareza?
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
Considere, em primeiro lugar, o desenvolvimento capitalista ao longo do tem po, 
deixando de lado por enquanto a questão de sua organização espacial evolutiva, sua 
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dinâmica geográfica e seus impactos e constrangimentos ambientais. Imagine, en\u2011
tão, uma situação em que o capital se movimenta em busca de lucro por meio de 
diferentes \u201cesferas de atividade\u201d (como vou chamá\u2011las), mas interrelacionadas. 
Uma \u201cesfera da atividade\u201d crucial diz respeito à produção de novas formas tecnoló\u2011
gicas e organizacionais. Alterações nessa esfera têm efeitos profundos nas relações 
sociais, bem como na relação com a natureza. Mas também sabemos que tanto as 
relações sociais quanto a relação com a natureza estão mudando de maneiras que 
não são determinadas pelas tecnologias e formas organizacionais. Além disso, há 
situações em que a escassez da oferta de trabalho ou na natureza coloca pres sões 
fortes para que sejam encontradas novas tecnologias e formas organizacionais. Em 
nossos dias, por exemplo, os meios de comunicação dos EUA estão cheios de 
comentários sobre a necessidade de novas tecnologias para libertar o país de sua 
dependência do petróleo estrangeiro e combater o aquecimento global. A adminis\u2011
tração de Obama promete programas para tal fim e já está empurrando a indústria 
automobilística para a produção de carros elétricos ou híbridos (infelizmente, os 
chineses e os japoneses chegaram lá primeiro). 
Os sistemas de produção e processos de trabalho estão também profundamen\u2011
te implicados no modo como a vida diária é reproduzida pelo consumo. Nenhum 
deles é independente das relações sociais dominantes, da relação com a natureza e 
das tecnologias e formas de organização devidamente constituídas. Mas o que nós 
chamamos \u201cnatureza\u201d, por mais que seja de fato afetada pela acumulação do capi\u2011
tal (a destruição de habitats e espécies, o aquecimento global, os novos compos\u2011
tos químicos que poluem e as estruturas do solo e das florestas cuja produtividade 
tem sido reforçada pela gestão sofisticada), certamente não foi determinada pela 
acumulação do capital. Os processos evolutivos do planeta Terra ocorrem indepen\u2011
dentemente e o tempo todo. O surgimento de um novo patógeno \u2013 como o 
HIV/Aids \u2013 teve, por exemplo, um imenso impacto sobre a sociedade capitalista (e 
suscita respostas tecnológicas, organizacionais e sociais que são incorporadas na 
circulação do capital). Os efeitos na reprodução da vida cotidiana, nas relações e ati\u2011
vidades sexuais e nas práticas reprodutivas foram profundos, mas foram mediados 
por tecnologias médicas, respostas institucionais e sociais e crenças culturais. 
Todas essas \u201cesferas de atividade\u201d estão incorporadas em um conjunto de arran\u2011
jos institucionais (como os direitos de propriedade privada e os contratos de 
mer cado) e estruturas administrativas (o Estado e outros arranjos locais e multina\u2011
cionais). Essas instituições também evoluem por conta própria, até mesmo quando 
são forçadas a adaptar\u2011se a condições de crise (como acontece agora) e a mudanças 
nas relações sociais. As pessoas agem, além disso, de acordo com suas expectativas, 
suas crenças e sua compreensão do mundo. Os sistemas sociais dependem da con\u2011
fiança em especialistas, do conhecimento e da informação adequados daqueles 
que tomam decisões e da aceitação razoável dos arranjos sociais (hierárquicos ou 
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igualitários), bem como da construção de padrões éticos e morais (vis-à-vis, 
por exemplo, nossas relações com os animais e nossas responsabilidades para 
com o mundo que chamamos de natureza, e também com aqueles que não são como 
nós). As normas culturais e os sistemas de crenças (ou seja, ideologias religiosas e 
políticas) são muito presentes, mas não existem independentemente das rela\u2011
ções sociais de produção, das possibilidades de produção e consumo e das tecno\u2011
logias dominantes. As inter\u2011relações em conflito entre as necessidades de evolução 
técnica e social para a acumulação do capital e as estruturas de conhecimento e 
normas e crenças culturais compatíveis com a acumulação infinita têm desempe\u2011
nhado um papel fundamental na evolução do capitalismo. Para fins de simplifica\u2011
ção, vou agrupar todos os últimos elementos sob a rubrica de \u201cconcepções men\u2011
tais do mundo\u201d. 
Essa forma de pensar nos leva a sete \u201cesferas de atividade\u201d distintas na trajetória 
evolutiva do capitalismo: tecnologias e formas de organização; relações sociais; ar\u2011
ranjos institucionais e administrativos; processos de produção e de trabalho; rela\u2011
ções com a natureza; reprodução da vida cotidiana e da espécie; e \u201cconcepções 
mentais do mundo\u201d. Nenhuma das esferas é dominante, e nenhuma é independen\u2011
te das outras. Mas também nenhuma delas é determinada nem mesmo coletivamente 
pelas outras. Cada esfera evolui por conta própria, mas sempre em interação dinâ\u2011
mica com as outras.