HARVEY, David. O Enigma do Capital
235 pág.

HARVEY, David. O Enigma do Capital


DisciplinaPolítica Social518 materiais1.943 seguidores
Pré-visualização50 páginas
As mudanças tecnológicas e organizacionais surgem por qual\u2011
quer motivo (por vezes, acidentais), enquanto a relação com natureza é instável 
e muda perpetuamente apenas em parte por causa de mudanças induzidas pelo 
homem. Nossas concepções mentais do mundo, para dar outro exemplo, são geral\u2011
mente instáveis, conflituosas, sujeitas a descobertas científicas assim como a capri\u2011
chos, modas e crenças e desejos culturais e religiosos fortemente arraigados. Mu\u2011
danças nas concepções mentais têm todos os tipos de consequências, intencionais 
e não intencionais, para as formas tecnológicas e organizacionais, as relações so\u2011
ciais, os processos de trabalho, as relações com a natureza e os arranjos institucio\u2011
nais aceitáveis. A dinâmica demográfica que surge da esfera da reprodução e da 
vida cotidiana é simultaneamente autônoma e profundamente afetada por suas re\u2011
lações com as outras esferas. 
Todos os complexos fluxos de influência que se movem entre as esferas estão em 
perpétua reformulação. Além disso, essas interações não são necessariamente 
harmoniosas. De fato, podemos reconceitualizar a formação de crises em termos 
de tensões e antagonismos que surgem entre as diferentes esferas de atividade, por 
exemplo as novas tecnologias que levam ao desejo de novas configurações nas re\u2011
lações sociais ou perturbam a organização dos processos de trabalho existentes. 
Mas, em vez de examinar essas esferas de modo sequencial, como fizemos no início 
da análise da circulação do capital, agora pensamos nelas como copresentes e coe\u2011
voluindo, coletivamente, dentro da longa história do capitalismo. 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 104 11/18/11 4:35 PM
O capital evolui / 105
Em uma dada sociedade em um determinado ponto no espaço e no tempo \u2013 a 
Grã\u2011Bretanha, em 1850, ou o delta do Rio Pérola na China agora, por exemplo \u2013, 
podemos definir seu caráter e condição gerais principalmente em termos de como 
as sete esferas são organizadas e se configuram umas com as outras. Algo também 
pode ser dito sobre a evolução provável da ordem social em tais locais, dadas as 
tensões e contradições entre as esferas de atividade, mesmo que se tenha de reco\u2011
nhecer que a provável dinâmica evolutiva não é determinante, mas contingente. 
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
O capital não pode circular ou acumular\u2011se sem tocar em cada uma e em todas 
essas esferas de atividade de alguma forma. Quando o capital encontra barreiras ou 
limites dentro de uma esfera, ou entre as esferas, tem de achar meios para contor\u2011
nar ou superar a dificuldade. Se as dificuldades são graves, então aí está uma fonte 
de crises. O estudo da coevolução das esferas de atividade, portanto, proporciona 
um quadro para pensar a evolução global e o caráter propenso a crises da sociedade 
capitalista. Mas como esse quadro bastante abstrato para a análise pode nos servir 
na prática?
Uma anedota pode ajudar aqui. No outono de 2005, fui copresidente de um 
júri para selecionar ideias para a concepção de uma cidade completamente nova na 
Coreia do Sul. A cidade então chamada \u201cA Cidade Administrativa Multifuncional\u201d 
(agora Sejong) foi originalmente planejada para ser a nova capital, mas objeções 
constitucionais fizeram com que fosse reduzida a uma cidade\u2011satélite, a meio cami\u2011
nho entre Seul e Busan, mas com muitas das funções administrativas do governo. A 
tarefa do júri era decidir sobre ideias, não selecionar qualquer projeto final. Os res\u2011
ponsáveis pelo projeto foram incumbidos de realizar um desenho final, incorporan\u2011
do tudo o que nós (e eles) considerávamos útil das submissões para a competição. O 
júri era metade coreano e metade estrangeiro, com participação pre dominante de 
engenheiros, planejadores e alguns arquitetos de destaque. Ficou cla ro que o gover\u2011
no sul\u2011coreano, cansado das fórmulas de urbanização que até então dominavam na 
Coreia do Sul e grande parte da Ásia, estava interessado em fazer algo diferente, 
talvez gerando um novo modelo mundial de urbanização inovadora. 
Como prelúdio para nossa decisão, discutimos o tipo de critérios que seriam 
mais relevantes para julgar os projetos que haviam sido apresentados. A discussão 
inicial se centrou em torno dos diferentes pontos de vista dos arquitetos sobre a re\u2011
lação de forças entre círculos e cubos (representando as rotatórias e as praças) 
tanto como formas simbólicas quanto como formas físicas que podem acomodar 
diferentes tipos de estratégias de desenvolvimento. Olhando para os vários projetos 
em forma de mapa, era fácil ver as diferenças desse tipo claramente exibidas. Mas 
eu intervim para sugerir que am pliás semos a discussão e pensássemos uma série de 
outros critérios, como: a re lação proposta com a natureza e a tecnologia variada a ser 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 105 11/18/11 4:35 PM
106 / O enigma do capital
implantada na cidade; como os projetos abordavam as formas de produção e em\u2011
prego a ser geradas e as relações sociais associadas (como devemos abordar o pro\u2011
blema de a cidade ser dominada por uma elite científica, tecnológica e burocrática, 
por exemplo); as qualidades da vida cotidiana dos habitantes diferentemente posi\u2011
cionados; e as concepções mentais do mundo, incluindo as subjetividades políticas, 
que possam surgir a partir da experiência de viver nesse novo tipo de cidade (as 
pessoas se tornariam mais individualistas ou haveria uma inclinação para formas de 
solidariedade social?). Con cluí dizendo que me parecia equivocado imaginar que 
projetos físicos pudessem responder a todas essas questões, mas que devíamos fazer 
o nosso melhor pa ra pensar em construir a nova cidade de modo a ser sensível a 
esses critérios. 
Houve um interesse considerável na minha maneira de pensar. Um debate sobre 
minhas ideias se deu por um tempo até que um dos arquitetos, evidentemente im\u2011
paciente com a complexidade da discussão, interveio sugerindo que, de todas essas 
perspectivas, sem dúvidas válidas, havia uma que se destacava como primordial, as 
concepções mentais. Desse ponto de vista a questão mais importante era a dos sig\u2011
nificados simbólicos. Em pouco tempo estávamos de volta à discussão das potencia\u2011
lidades simbólicas, conceituais e materiais de rotatórias e praças no desenho urbano! 
Pode parecer utópico, mas se eu fosse responsável pela construção de uma ci\u2011
dade inteiramente nova, eu gostaria de imaginar que pudesse evoluir para o futuro, 
e não ser uma estrutura permanente, fixa, congelada e completa. E eu gostaria de 
imaginar como a dinâmica das relações entre as diferentes esferas poderia não só 
funcionar, mas ser mobilizada conscientemente nem tanto para alcançar algum ob\u2011
jetivo específico, mas para abrir possibilidades. Com certeza, a cidade teria de ser 
construída, em primeira instância, de acordo com as relações sociais, as estruturas 
de emprego e as formas tecnológicas e organizacionais disponíveis dominantes. 
Mas também poderia ser visto como um local para a exploração de novas tecnolo\u2011
gias e formas organizacionais compatíveis com o desenvolvimento de relações so\u2011
ciais mais igualitárias, respeitosas em relação às questões de gênero, por exemplo, e 
uma relação mais sensível com a natureza do que aquela que exige a busca do graal 
profano da acu mulação do capital sem fim a uma taxa composta de 3%. 
Esse quadro de pensamento não nasce comigo, no entanto. Deriva da elabora\u2011
ção em uma nota de rodapé no capítulo 15 de O capital, volume 1, em que Marx 
comenta, curiosamente depois de uma breve referência à teoria da evolução de 
Darwin, que \u201ca tecnologia revela a relação ativa do homem com a natureza, o pro\u2011
cesso direto da produção de sua vida e, assim, define também o processo de produ\u2011
ção das relações sociais de sua vida e das concepções mentais que fluem dessas re\u2011
lações\u201d. É aí que Marx invoca cinco das diferentes esferas de atividade que eu 
identifiquei (ou seis, se \u201co processo direto da produção de sua vida\u201d se referir