HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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Minha opinião é que se refere a um projeto de classe 
que surgiu na crise dos anos 1970. Mascarada por muita retórica sobre liberdade 
individual, autonomia, responsabilidade pessoal e as virtudes da privatização, livre\u2011
\u2011mercado e livre\u2011comércio, legitimou políticas draconianas destinadas a restaurar 
e consolidar o poder da classe capitalista. Esse projeto tem sido bem\u2011sucedido, a julgar 
pela incrível centralização da riqueza e do poder observável em todos os países que 
tomaram o caminho neoliberal. E não há nenhuma evidência de que ele está morto.
Um dos princípios básicos pragmáticos que surgiram na década de 1980, por 
exemplo, foi o de que o poder do Estado deve proteger as instituições financeiras a 
todo custo. Esse princípio, que bateu de frente com o não intervencionismo que 
a teoria neoliberal prescreveu, surgiu a partir da crise fiscal da cidade de Nova York 
de meados da década de 1970. Foi então estendido internacionalmente para o 
México durante a crise da dívida que abalou os fundamentos do país em 1982. De 
modo nu e cru, a política era: privatizar os lucros e socializar os riscos; salvar os 
bancos e colocar os sacrifícios nas pessoas (no México, por exemplo, o padrão de 
vida da população diminuiu cerca de um quarto em quatro anos após o socorro 
econômico de 1982). O resultado foi o conhecido \u201crisco moral\u201d sistêmico. Os 
bancos se comportam mal porque não são responsáveis pelas consequências nega\u2011
tivas dos comportamentos de alto risco. O socorro bancário atual é essa mesma 
história, só que maior e, dessa vez, centrado nos Estados Unidos.
Da mesma forma que o neoliberalismo surgiu como uma resposta à crise dos 
anos 1970, o caminho a ser escolhido hoje definirá o caráter da próxima evolução 
do capitalismo. As políticas atuais propõem sair da crise com uma maior consoli\u2011
dação e centralização do poder da classe capitalista. Restaram apenas quatro ou 
cinco grandes instituições bancárias nos Estados Unidos, embora muitos em Wall 
Street estejam prosperando. Lazard, por exemplo, especializada em fusões e aquisi\u2011
ções, está fazendo dinheiro a rodo, e a Goldman Sachs (que muitos agora chamam 
de brincadeira \u201cgoverno Sachs\u201d, para marcar sua influência sobre a política do 
Tesouro) está muito bem, obrigado. Alguns ricos vão perder, com certeza, mas 
segundo a famosa observação de Andrew Mellon (banqueiro dos EUA, secretário 
do Tesouro de 1921 a 1932): \u201cEm uma crise, os ativos retornam aos seus legítimos 
proprietários\u201d (ou seja, ele). E assim vai ser desta vez também, a menos que um 
movimento político alternativo surja para detê\u2011lo.
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Índice dos preços de terra em todo o Japão
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As crises financeiras servem para racionalizar as irracionalidades do capitalismo. 
Geralmente levam a reconfigurações, novos modelos de desenvolvimento, novos 
campos de investimento e novas formas de poder de classe. Tudo isso pode dar er\u2011
rado, politicamente. Mas a classe política dos EUA até agora cedeu ao pragmatis\u2011
mo financeiro e não tocou as raízes do problema. Conselheiros econômicos do 
presidente Obama são da velha escola \u2013 Larry Summers, diretor de seu Conselho 
Econômico Nacional, foi secretário do Tesouro no governo Clinton, quando o fer\u2011
vor pela desregulamentação das finanças dominava. Tim Geithner, secretário do 
Tesouro de Obama, ex\u2011chefe da New York Federal Reserve, tem contatos íntimos 
com Wall Street. O que poderia ser chamado de \u201co Partido de Wall Street\u201d tem 
imensa influência dentro do Partido Democrata, assim como com os republicanos 
(Charles Schumer, o poderoso senador democrata de Nova York, arrecadou mi\u2011
lhões de Wall Street ao longo dos anos, não apenas para suas próprias campanhas 
políticas, mas para o Partido Democrata como um todo).
Aqueles que fizeram a licitação do capital financeiro outrora nos anos Clinton 
já estão de volta ao leme. Isso não significa que eles não vão redesenhar a arquite\u2011
tura financeira, porque eles devem. Mas para quem vão redesenhá\u2011la? Será que vão 
nacionalizar os bancos e transformá\u2011los em instrumentos para servir o povo? Será 
que os bancos vão simplesmente se tornar, como vozes influentes agora propõem 
até mesmo no Financial Times, serviços públicos regulamentados? Duvido muito. 
Será que os poderes que atualmente dominam o sistema vão apenas procurar lim\u2011
par o problema com o sacrifício popular e, em seguida, devolver os bancos aos in\u2011
teresses de classe que nos colocaram nessa confusão? Isso é quase certamente para 
onde nos dirigimos, a menos que uma onda de oposição política indique outra 
maneira de solucionar o problema. Já os assim chamados \u201cbancos de investimento 
boutique\u201d estão se formando rapidamente às margens de Wall Street, pron tos para 
entrar na pele de Lehman e Merrill Lynch. Enquanto isso os grandes ban cos que 
ainda restam estão depositando secretamente fundos para retomar o pagamento 
dos bônus milionários que pagavam antes da crise.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
A possibilidade de sairmos da crise de uma maneira diferente depende muito do 
equilíbrio das forças de classe. Depende do grau com que a massa da população se 
levanta e diz: \u201cJá basta, vamos mudar o sistema\u201d. O Joe e a Jean médios (mesmo 
se ele ou ela é um encanador) têm boas razões para dizer isso. Nos Estados Unidos, 
por exemplo, a renda familiar desde a década de 1970 tem em geral estagnado em 
meio a uma imensa acumulação de riqueza por interesses da classe capitalista. Pela 
primeira vez na história dos EUA, os trabalhadores não têm participação em qual\u2011
quer dos ganhos de produtividade crescentes. Temos vivenciado trinta anos de 
repressão salarial. Por que e como isso aconteceu?
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Salários nos EUA / PIB
Fonte: Instituto de Análise Econômica
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Ganhos reais na Inglaterra
Fonte: Escritório Nacional de Estatística
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Consumo residencial
China: salário e consumo residencial
(parte do PIB), 1998-2008
Salário
Fonte: Escritório Nacional de Estatística
Um dos principais obstáculos para o contínuo acúmulo de capital e a consoli\u2011
dação do poder de classe capitalista na década de 1960 foi o trabalho. Havia escas\u2011
sez de mão de obra, tanto na Europa quanto nos EUA. O trabalho era bem orga\u2011
nizado, razoavelmente bem pago e tinha influência política. No entanto, o capital 
precisava de acesso a fontes de trabalho mais baratas e mais dóceis. Houve uma 
sé rie de maneiras para fazer isso. Uma delas foi estimular a imigração. O Ato de 
Imi gração e Nacionalidade de 1965, que aboliu as cotas de origem nacional, per\u2011
mitiu o acesso