HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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pela teoria da história de Hegel). Há, no entanto, muitas outras versões em que as 
visões e ideias de inovadores e empreendedores poderosos ou de líderes religiosos 
ou pensadores políticos utópicos (como algumas versões do maoismo) são colocadas 
no centro de tudo. Mudar as crenças e os valores é, diz\u2011se, o que realmente impor\u2011
ta. Alterem\u2011se os discursos, às vezes é dito, e o mundo também se altera.
A ala obreirista da tradição marxista, de modo distinto, trata o processo de 
trabalho como a única posição a partir da qual a mudança verdadeiramente revo\u2011
lucionária pode vir, pois o poder real do trabalho de mudar o mundo está exclu\u2011
sivamente no ato do labor. Desse ponto inicial, e apenas desse ponto, é possível, 
argumentou John Holloway em 2002, Mudar o mundo sem tomar o poder*. Em 
outro texto conhecido, Blessed Unrest [Agitação abençoada]** (2007), Paul Hawken 
faz parecer que a mudança social em nossos tempos pode apenas emanar, e já está 
emanando, do engajamento prático de milhões de pessoas que buscam transfor\u2011
mar sua vida diária, deixando de lado todas aquelas ideologias políticas e concep\u2011
ções mentais utópicas (do comunismo ao neoliberalismo) que no passado prova\u2011
ram ser desastrosas. A versão de esquerda disso percebe a política do dia a dia em 
locais particulares como um solo fértil fundamental para a ação política e a mu\u2011
dança radical. A criação de \u201ceconomias solidárias\u201d locais é a resposta exclusiva. De 
outro lado, há toda uma escola de historiadores e filósofos políticos, que, ao es\u2011
colher o título de \u201cinstitucionalistas\u201d, assinalam sua adesão a uma teoria da mu\u2011
dança social que privilegia o comando e a reforma de arranjos institucionais e 
administrativos como fundamentais. Capturar e esmagar o poder do Estado são 
a versão revolucionária leninista disso. Outra versão radical deriva do foco de 
Michel Foucault sobre as questões de \u201cgovernabilidade\u201d, que analisa as interes\u2011
santes interseções entre duas esferas \u2013 os sistemas institucionais e administrativos 
e a vida diária (en tendida como política do corpo). 
Cada posição nesse panteão de possibilidades tem algo de importante, embora 
unidimensional, a dizer sobre o dinamismo socioecológico do capitalismo e da po\u2011
tencialidade para construir alternativas. Os problemas surgem, entretanto, quando 
uma ou outra dessas perspectivas é vista exclusiva e dogmaticamente como a única 
fonte e, portanto, o principal ponto de pressão política para a mudança. Tem sido 
uma história infeliz dentro da teoria social o favorecimento de algumas esferas de 
atividade em relação às outras. Às vezes, isso reflete uma situação em que um ou 
outro dos domínios \u2013 como a luta de classes ou o dinamismo tecnológico \u2013 pare\u2011
ce estar na vanguarda das transformações que ocorrem em dado momento. Em tal 
situação seria grosseiro não reconhecer as forças que estão na vanguarda do desen\u2011
volvimento da mudança socioecológica nesse tempo e lugar. O argumento não é, 
* São Paulo, Boitempo, 2003. (N. E.)
** Nova York, Penguin, 2007. (N. E.)
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portanto, que se deve sempre atribuir o mesmo peso às sete esferas, mas que a ten\u2011
são dialética no seu desenvolvimento desigual deve sempre ser levada em conta. 
O que parece menor em uma época ou em um lugar pode se tornar importante 
na próxima. As lutas do trabalho não estão agora na vanguarda da dinâmica polí\u2011
tica, como foram nos anos 1960 e início dos anos 1970. Muito mais atenção está 
focada agora na relação com a natureza do que anteriormente. O interesse contem\u2011
porâneo em saber como a política do cotidiano se desenrola tem de ser bem rece\u2011
bido simplesmente porque não teve a atenção que deveria no passado. Agora é 
provável que precisemos de outra exposição sobre os impactos sociais das novas 
tecnologias e formas organizacionais, que no passado foram muitas vezes impensa\u2011
damente priorizadas.
Todo o relato de Marx sobre o surgimento do capitalismo a partir do feudalismo 
pode na verdade ser reconstruído e lido em termos de um movimento coevolucio\u2011
nário, através e entre as sete diferentes esferas de atividade aqui identificadas. O ca\u2011
pitalismo não suplantou o feudalismo por algum tipo de transformação revolucio\u2011
nária pura, repousando sobre as forças mobilizadas em apenas uma dessas esferas. 
Teve de crescer nos interstícios da velha sociedade e suplantá\u2011la pouco a pouco, às 
vezes com força, violência, depredação e apreensão de bens, mas em outros momen\u2011
tos com malícia e astúcia. E, muitas vezes, perdeu batalhas contra a velha ordem, ao 
mesmo tempo que ganhou a guerra. Na medida em que conquistou um pouco de 
poder, no entanto, uma classe capitalista emergente teve de construir sua forma 
social alternativa inicialmente com base em tecnologias, relações sociais, sistemas 
administrativos, concepções mentais, sistemas de produção, relações com a natureza 
e padrões de vida diária como estes tinham sido constituídos na ordem feudal ante\u2011
rior. Foram precisos uma coevolução e um desenvolvimento desigual nas diferentes 
esferas para o capitalismo encontrar não apenas sua base tecnológica própria e única, 
mas também seus sistemas de crença e concepções mentais, suas configurações das 
relações sociais instáveis, mas claramente de classe, seus ritmos espaço\u2011temporais 
curiosos e sua forma de vida cotidiana igualmente especial, para não falar de seus pro\u2011
cessos de produção e sua estrutura institucional e administrativa, sem os quais não 
era possível dizer que se tratava realmente de capitalismo.
Mesmo ao fazê\u2011lo, carregou dentro de si várias marcas das condições diferen\u2011
ciais nas quais a transformação do capitalismo foi forjada. Embora muito provavel\u2011
mente tenha se feito caso demais dos diferenciais entre as tradições protestantes, 
católicas e confucionistas em demarcar diferenças significativas na forma como o ca\u2011
pitalismo funciona em diferentes partes do mundo, seria temerário sugerir que es\u2011
sas influências são irrelevantes ou mesmo insignificantes. Além disso, a partir do 
momento em que o capitalismo se manteve firme, envolveu\u2011se em um movimento 
revolucionário perpétuo em todas as esferas para acomodar as inevitáveis tensões da 
acumulação do capital sem fim a uma taxa composta de crescimento. Os hábitos 
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diários e concepções mentais das classes trabalhadoras que surgiram na década de 
1990 (juntamente com uma redefinição do que constitui a relação social \u201cclasse 
trabalhadora\u201d, em primeiro lugar) tiveram pouco a ver com os hábitos e gostos da 
classe trabalhadora da Grã\u2011Bretanha da década de 1950 e 1960. O processo de 
coevolução que o capitalismo põe em movimento tem sido permanente. 
Talvez um dos maiores fracassos das tentativas anteriores de construir o socia\u2011
lismo tem sido a relutância em se envolver politicamente em todas essas esferas e 
deixar a dialética entre elas abrir possibilidades, em vez de fechá\u2011las. O comunis\u2011
mo revolucionário, particularmente o tipo soviético \u2013 em especial após o período 
de experimentação revolucionária da década de 1920 ser encerrado por Stalin \u2013 
muitas vezes reduziu a dialética das relações entre as esferas a um programa de via 
única em que as forças produtivas (tecnologias) foram colocadas na vanguarda da 
mudança. Essa abordagem inevitavelmente falhou. Isso levou à paralisia, a arranjos 
administrativos e institucionais estagnados, transformou a vida diária em mono\u2011
tonia e congelou a possibilidade de explorar novas relações sociais ou concepções 
mentais. Não prestou atenção à relação com a natureza, com consequências desas\u2011
trosas. Lenin, claro, não tinha opção, a não ser se esforçar para criar o comunismo 
com base na configuração dada pela ordem anterior (parte