HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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feudal e parte capitalis\u2011
ta), e desse ponto de vista sua aceitação da fábrica, tecnologias e formas de organi\u2011
zação fordista como um passo necessário na transição para o comunismo é com\u2011
preen sível. Ele argumentou de modo plausível que, se a transição para o socialismo 
e em seguida para o comunismo tinha de dar certo, tinha de ser, inicialmente, com 
base nas tecnologias e formas de organização mais avançadas que o capitalismo ti\u2011
nha produzido. Mas não houve nenhuma tentativa consciente, em particular 
após Stalin assumir, de avançar para a construção de tecnologias e formas de orga\u2011
nização verdadeiramente socialistas, muito menos comunistas (embora tenha feito 
grandes avanços na robotização e no planejamento matemático da produção otimi\u2011
zada e dos sistemas de agendamento, que poderiam ter aliviado a carga de trabalho 
e aumentado a eficiência se tivessem sido aplicados corretamente).
O imenso sentido dialético de Mao de como as contradições funcionam, bem 
como seu reconhecimento, em princípio pelo menos, de que uma revolução tem de 
ser permanente ou nada, levou\u2011o conscientemente a priorizar a transformação re\u2011
volucionária em esferas de atividade diferentes em variadas fases históricas. O 
\u201cGrande Salto Adiante\u201d enfatizou a produção e a mudança tecnológica e organiza\u2011
cional. Ele falhou em seus objetivos imediatos e produziu uma fome descomunal, 
mas certamente teve um impacto enorme nas concepções mentais. A Revolução 
Cultural procurou reconfigurar de forma radical e direta as relações sociais e as 
concepções mentais do mundo. Embora seja hoje sabido que Mao falhou misera\u2011
velmente nos dois empreendimentos, há em muitos aspectos a suspeita de que o 
surpreendente desempenho econômico e a transformação revolucionária que têm 
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caracterizado a China desde as reformas institucionais e administrativas iniciadas 
no fim dos anos 1970 repousam solidamente sobre os resultados reais do período 
maoista (em particular a ruptura com muitas concepções mentais e relações sociais 
\u201ctradicionais\u201d nas massas na medida em que o Partido aprofundou seu controle 
sobre a vida diária). Mao reorganizou completamente a saúde na década de 1960, 
por exemplo, com o envio de um exército de \u201cmédicos descalços\u201d a regiões rurais 
até então negligenciadas e empobrecidas para ensinar a base da medicina preven\u2011
tiva, medidas de saúde pública e cuidados pré\u2011natais. A redução dramática da 
mortalidade infantil e o au mento da expectativa de vida que resultaram disso permiti\u2011
ram produzir mão de obra excedente que alimentou o surto de crescimento da China 
depois de 1980. Também levou às limitações draconianas sobre a atividade reproduti\u2011
va, com a aplicação da política de uma criança por família. O fato de tudo isso abrir o 
caminho para certo tipo de desenvolvimento capitalista é uma consequência ines\u2011
perada de enorme importância.
Como então interpretar as estratégias revolucionárias à luz da teoria coevolucio\u2011
nária de mudança social? Esta fornece um quadro para a investigação, que pode ter 
implicações práticas para pensar em tudo desde as grandiosas estratégias revolucio\u2011
nárias ao redesenho da urbanização e da vida na cidade. Ao mesmo tempo, sinaliza 
que sempre enfrentamos contingências, contradições e possibilidades autôno\u2011
mas, além de uma série de consequências inesperadas. Como na transição do 
feudalismo para o capitalismo, há uma abundância de espaços intersticiais pa ra 
começar movimentos sociais alternativos anticapitalistas. Mas existem também 
inúmeras possibilidades de movimentos bem\u2011intencionados serem cooptados ou 
falharem catastroficamente. Em contraste, desenvolvimentos aparentemente ne\u2011
gativos (como o Grande Salto Adiante de Mao ou a Segunda Guerra Mundial, que 
prepararam o espaço para um rápido crescimento econômico após 1945) podem 
ter consequências surpreendentemente boas. Isso deve deter\u2011nos? Na medida em 
que a evolução em geral e nas sociedades humanas, em particular (com ou sem o 
imperativo capitalista), não pode ser interrompida, então não temos outra opção a 
não ser participar da peça. Nossa única escolha é ser ou não consciente de como 
nossas intervenções atuam e estar pronto a mudar de rumo rapidamente quan do 
as condições se colocarem ou quando as consequências não intencionais se torna\u2011
rem mais aparentes. A adaptabilidade e a flexibilidade evidentes do capitalismo 
servem aqui de modelo. 
Então, onde devemos começar nosso movimento revolucionário anticapitalista? 
Nas concepções mentais? Na relação com a natureza? No cotidiano e nas práticas 
reprodutivas? Nas relações sociais? Nas tecnologias e formas organizacionais? Nos 
processos de trabalho? Na tomada e transformação revolucionária das instituições?
Uma sondagem do pensamento alternativo e dos movimentos sociais oposicio\u2011
nistas mostraria diferentes correntes de pensamento (com frequência defendidas 
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como mutuamente exclusivas, infelizmente) sobre onde começar. Mas as implica\u2011
ções da teoria coevolucionária aqui é que podemos começar ali ou acolá contan\u2011
to que não fiquemos no lugar de onde partimos! A revolução tem de ser um mo-
vimento em todos os sentidos da palavra. Se não puder se mover dentro, além e 
através das diferentes esferas, acabará não indo a lugar algum. Reconhecendo isso, 
torna\u2011se imperativo vislumbrar alianças entre um conjunto de forças sociais orga\u2011
nizadas em torno das diferentes esferas. Aquelas com um conhecimento profundo 
de como a relação com a natureza funciona precisam se aliar àquelas profunda\u2011
mente familiarizadas com como os arranjos institucionais e administrativos fun\u2011
cionam, como a ciência e a tecnologia podem ser mobilizadas, como a vida diária e 
as relações sociais podem ser mais facilmente reorganizadas, como as concepções 
mentais podem ser mudadas e como a produção e o processo de trabalho podem 
ser reconfigurados. 
Mas em que espaço surge um movimento revolucionário e como se alastra? 
Essa é a questão geográfica que agora temos de considerar.
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A geografia disso tudo
A crise, que começou localizada em particular no mercado imobiliário nos Es\u2011
tados Unidos em 2007, rapidamente se espalhou ao redor do mundo por uma rede 
financeira e comercial coesa que supostamente dividiria o risco, em vez de estimu\u2011
lar o caos financeiro. Na medida em que os efeitos da crise de crédito se difundi\u2011
ram, houve impactos diferenciados de um lugar para outro. Tudo dependeu do 
grau com que os bancos locais e outras instituições como fundos de pensão inves\u2011
tiram em ativos tóxicos distribuídos pelos Estados Unidos; do grau com que os 
bancos em outros lugares copiaram as práticas dos EUA e foram atrás de investi\u2011
mentos de alto risco; da sujeição das empresas locais e instituições estatais (como 
os governos municipais) à abertura de linhas de crédito para rolar suas dívidas; do 
impacto da rápida queda do consumo nos EUA e em outros lugares com econo\u2011
mias baseadas em exportações; dos altos e baixos da demanda e preços das maté\u2011
rias\u2011primas (o petróleo, em particular); e das diferentes estruturas de emprego e de 
apoio social (incluindo os fluxos de remessas) e a provisão social prevalecente em 
um lugar e não em outro. Quando, como e por que essa crise atingiu um determina\u2011
do país, região ou bairro? Por que o desemprego na União Europeia (numa média 
de 8,9% em abril de 2009) varia de 2% nos Países Baixos para 17,5% na Espanha? 
Por que importa as famílias dos EUA não terem poupado quase nada nos últimos 
anos, os britânicos, em torno de 2% e os alemães, 11% de seu rendimento? Por que 
o Líbano, com toda a sua tumultuosa história recente, quase não sentiu os efeitos 
da crise, até pelo menos o verão de 2009? (Resposta parcial: por causa