HARVEY, David. O Enigma do Capital
235 pág.

HARVEY, David. O Enigma do Capital


DisciplinaPolítica Social516 materiais1.941 seguidores
Pré-visualização50 páginas
do enorme 
estímulo econômico já em andamento na reconstrução do país a partir das ruínas 
do bombardeio israelense de 2006.)
Na China e na maior parte do resto da Ásia, o problema foi quase totalmente 
expresso pelo colapso dos mercados de exportação, enquanto na Islândia foi quase 
inteiramente devido à exposição dos bancos nacionais a ativos tóxicos. Os bancos 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 117 11/18/11 4:35 PM
118 / O enigma do capital
canadenses fortemente regulados, não relataram dificuldades até agora, mas as in\u2011
dústrias dependentes do comércio com os EUA foram seriamente atingidas. A Grã\u2011
\u2011Bretanha foi atingida de forma grave porque seguiu o modelo dos EUA em quase 
todos os aspectos, e a Alemanha teve de enfrentar principalmente a queda das ex\u2011
portações, mesmo com rumores de que havia muitos ativos tóxicos escondidos 
dentro de seu sistema bancário. A China, com enormes reservas de divisas estran\u2011
geiras, teve abundantes recursos financeiros para enfrentar as dificuldades, enquan\u2011
to a Islândia não tinha nenhum.
As respostas das populações e das autoridades do Estado variaram bastante de 
um país para outro de acordo com a profundidade e a natureza do problema local, 
as predileções ideológicas, as interpretações dominantes sobre as causas primárias, 
os arranjos institucionais (o sistema de previdência social é muito mais forte nos 
países europeus, por exemplo, em comparação com os Estados Unidos, onde as 
políticas de bem\u2011estar são parcimoniosas ao extremo), os costumes (com relação 
à poupança pessoal, por exemplo) e a disponibilidade de recursos locais (excedentes 
orçamentais, em particular) para lidar com os impactos locais. A Alemanha, com 
as lembranças terríveis do impacto da inflação de Weimar que levou Hitler ao po\u2011
der, temeu que o financiamento excessivo da dívida pudesse provocar uma inflação 
e se manteve rigidamente presa à ortodoxia neoliberal, enquanto os EUA subscre\u2011
veram com satisfação (para o embaraço dos conservadores fiscais no Partido Repu\u2011
blicano) à doutrina Reagan segundo a qual \u201cos déficits não importam\u201d. Se as res\u2011
postas e os impactos são tão diversos, então se questiona se podem vir a ocorrer a 
recuperação ou alguma reviravolta inovadora para uma política econômica alter\u2011
nativa. Sabemos a resposta para a crise do Leste e Sudeste Asiático de 1997 e 1998: 
mercados consumidores nos EUA em crescimento, mas alimentados por dívidas, 
permitiram que as economias da região pudessem exportar de tal modo a alcançar 
um caminho de volta à saúde econômica. Então, como será dessa vez? Os mercados 
emergentes no Brasil, Índia e China, que ainda estão mostrando sinais de cresci\u2011
mento? Nós simplesmente não podemos dizer desta vez, embora haja muitos si\u2011
nais que apontem para a Ásia oriental como o epicentro da recuperação. Ambos os 
efeitos da crise e, temos de antecipar, os caminhos geográficos pelos quais os cha\u2011
mados \u201cbrotos verdes\u201d da recuperação econômica podem se espalhar são quase im\u2011
possíveis de prever.
Para ilustrar os caminhos estranhos pelos quais o contágio financeiro pode se 
espalhar, considere o seguinte exemplo.
Como muitos outros municípios em todo o mundo, Berlim teve problemas de 
financiamento do sistema de transporte público durante a década de 1990. O go\u2011
verno central cada vez mais neoliberal estava relutante em ajudar. Consultores fi\u2011
nanceiros chegaram a uma maneira esperta de ajudar: alugar os equipamentos de 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 118 11/18/11 4:35 PM
A geografia disso tudo / 119
transporte a longo prazo para investidores nos Estados Unidos e, em seguida, alu\u2011
gá\u2011los de volta. Os investidores nos Estados Unidos, que receberam créditos de im\u2011
posto sobre a depreciação do investimento estrangeiro, compartilharam sua re\u2011
dução de impostos com a autoridade de trânsito de Berlim (que recebeu cerca de 
90 milhões de dólares no fim dos anos 1990). De fato, os contribuintes dos EUA 
subsidiaram os governos municipais alemães, muitos dos quais fecharam acordos 
semelhantes em todas as áreas, desde o abastecimento de água e esgoto a centros de 
convenções. Quando as autoridades fiscais dos EUA se deram conta do embuste, 
moveram\u2011se para fechar a brecha depois de 2004. Mas os contratos, complicados 
e escritos em inglês, permaneceram em vigor. O contrato especificava que o valor 
dos bens arrendados tinha de ser reconhecido por uma seguradora altamente cotada. 
Berlim acabou sendo convencida pelo banco de investimentos nos EUA JP Mor\u2011
gan a colocar como garantia uma obrigação de dívida colateralizada (ODC), apoia\u2011
da por muitas instituições financeiras de crédito consideradas altamente dignas, 
incluindo Lehman Brothers, AIG e bancos islandeses. Quando todas essas institui\u2011
ções colapsaram em setembro 2008 e a ODC se tornou tóxica, Berlim teve de ou 
encontrar outra seguradora altamente cotada (então impossível) ou depositar seu 
próprio dinheiro como garantia. Era responsável por 200 milhões de dólares ou mais. 
Muitos outros municípios alemães se encontraram na mesma situação (Leipzig es\u2011
tava particularmente em crise porque tinha alugado quase tudo o que tinha). Mas 
foi muito difícil, como um funcionário municipal alemão constatou, não ser atraído 
por esse tipo de esquema, na medida em que tantos outros municípios se regozija\u2011
vam de sua sorte na década de 1990.
O fiasco dos empréstimos financeiros transfronteiriços na Alemanha estimulou 
uma interpretação europeia plausível, mas errada, articulada tanto pelos líderes 
alemães quanto franceses, de que a crise era uma produção marcadamente anglo\u2011
\u2011estadunidense, e não um fracasso sistêmico do capitalismo. As respostas à crise, 
nacionalistas em geral (e, em alguns casos, perigosamente de direita) \u2013 como evi\u2011
denciado nas eleições europeias de junho de 2009, quando os partidos de direita 
aumentaram substancialmente sua votação \u2013, são fáceis de entender. Mas a ideia 
de que as indústrias de exportação da Alemanha prosperaram por conta própria, 
como se o boom de consumo endividado do outro lado do Atlântico não tivesse 
nada a ver com isso, é um grande exemplo de como as percepções nacionais limi\u2011
tadas distorcem as realidades sobre o que é o capitalismo globalizado.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
Então, o que orienta a trajetória geográfica dos desdobramentos das crises e 
como os impactos locais e as respostas políticas locais se relacionam com as di\u2011
nâmicas globais? Existe, em suma, uma teoria do desenvolvimento geográfico de\u2011
sigual do capitalismo para a qual podemos apelar para nos ajudar a compreender 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 119 11/18/11 4:35 PM
120 / O enigma do capital
a complexa dinâmica geográfica da acumulação do capital e assim contextualizar 
como essa crise se desenrolou em particular?
Os processos de acumulação do capital não existem, obviamente, fora dos res\u2011
pectivos contextos geográficos e essas configurações são por natureza bastante di\u2011
versificadas. Mas os capitalistas e seus agentes também têm um papel ativo e fun\u2011
damental na alteração dessas configurações. Novos espaços e relações espaciais 
estão sendo produzidos constantemente. Fazem\u2011se redes de transporte e comuni\u2011
cação totalmente novas, cidades que se esparramam e uma paisagem agrária mui\u2011
to produtiva. Grande parte das terras foi desmatada, os recursos foram extraí dos das 
entranhas da terra; habitats e condições atmosféricas (tanto local como globalmen\u2011
te) foram modificados. Os oceanos têm sido vasculhados em busca de alimentos, e 
todos os tipos de resíduos (alguns tóxicos para todas as formas de vida) foram es\u2011
palhados pela terra. As mudanças ambientais de longo prazo, provocadas pela ação 
humana ao longo de toda a nossa história, têm sido enormes. As transformações 
provocadas pelo capitalismo têm sido ainda maiores. O que nos foi dado pe la 
natureza há muito tempo foi substituído pelo que foi construído pelo homem. A 
geografia do capitalismo é cada