HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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vez mais autoproduzida.
Os capitalistas não são, contudo, os únicos envolvidos na sua produção. Desde 
1700, a população mundial tem crescido a um índice composto que, curiosamente, 
segue em paralelo com a taxa da acumulação composta do capital. A população mun\u2011
dial superou 1 bilhão de pessoas em torno de 1810. Subiu para 1,6 bilhão em 1900, 
para 2,4 bilhões em 1950 e para mais de 6 bilhões em 2000. As estimativas agora 
colocam\u2011na em 6,8 bilhões. Projeções a colocam em 9 bilhões ou mais em 2050.
A natureza exata da relação entre a acumulação do capital e o crescimento da 
população é uma questão em aberto. Mas o que é quase certo é que o capitalismo 
não poderia ter sobrevivido e florescido na forma que tem hoje, se não fosse pela 
expansão perpétua das populações disponíveis tanto como produtores quanto co\u2011
mo consumidores. Isso tem ocorrido mesmo quando as populações não são orga\u2011
nizadas de acordo com as relações sociais, as tecnologias, as formas de produção e 
os arranjos institucionais capitalistas. As contribuições da escravidão, do ouro in\u2011
caico, do fornecimento de matérias\u2011primas extraídas das populações indígenas e 
dos mercados não capitalistas de produção e absorção de capital excedente foram 
fundamentais para sustentar o crescimento capitalista através dos séculos. A flores\u2011
cente indústria do algodão de Manchester em 1860 dependia do algodão cru pro\u2011
duzido nas fazendas dos Estados Unidos, a partir da mão de obra escrava transpor\u2011
tada da África, enquanto os produtos acabados eram vendidos nomeadamente 
para as vastas e crescentes populações não capitalistas, mas sob domínio imperialis\u2011
ta britânico, da Índia. Mas a proposição inversa também se aplica: sem o cresci\u2011
mento levado pela acumulação do capital, as populações poderiam ter morrido de 
fome, a menos que alguma outra forma de aprovisionamento fosse planejada.
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Atualmente, populações recém\u2011proletarizadas e, em muitos casos, ape nas de mo\u2011
do parcial, da China rural foram o fundamento para uma fase fenomenal de cresci\u2011
mento capitalista. Esse crescimento tem ajudado a manter um capitalismo cada vez 
mais volátil em uma trajetória composta de crescimento, mesmo que a ênfase tenha 
estado nas regiões que não poderiam competir com a indústria da China com baixos 
salários. Para dar outro exemplo, o movimento de massa da expansão das popula\u2011
ções nas áreas urbanas colocou grande pressão sobre os usos da terra e desempe\u2011
nhou, portanto, um papel fundamental no aumento do valor da terra e das rendas 
da terra que foram capturados por capitalistas fundiários e urbanistas.
A acomodação de mais e mais pessoas no planeta Terra implicou por si só 
grandes mudanças geográficas. Movimentos migratórios e pioneiros tomaram 
continentes pouco povoados, como a América do Norte em 1700, e transforma\u2011
ram\u2011nos em centros dinâmicos de crescimento para a acumulação de pessoas e, 
eventualmente, também de capital. Logo no início da história do capitalismo, 
colônias de povoamento e atividades pioneiras nas fronteiras desempenharam um 
papel fundamental na abertura de novos territórios para o desenvolvimento ca\u2011
pitalista. Ainda hoje, existem milhões de camponeses, pequenos agricultores e 
produtores, artesãos e pequenos mestres de ofício, além das pessoas com estilos 
de vida alternativos ou mais simplesmente que se deparam com a falta de oportu\u2011
nidades para a incorporação dentro do sistema capitalista, cujo vínculo com a acu\u2011
mulação do capital é frouxo ou tangencial. Seus envolvimentos são largamente or\u2011
questrados por seus contatos com o sistema de mercado e pela participação limitada 
na troca de mercadorias. A tributação pelo Estado, no entanto, serve como o meio 
duradouro pelo qual as populações desse tipo são trazidas para a órbita geral da acu\u2011
mulação do capital pela necessidade de vender algo para pagar o imposto de renda.
Esse imenso exército de pessoas proporciona uma reserva de mão de obra e um 
mer cado potenciais. Nos últimos anos, por exemplo, o que antes era chamado de 
\u201csetor informal\u201d no idioma oficial das instituições internacionais (e, portanto, de al\u2011
guma forma fora da lógica da acumulação do capital) foi redefinido como um 
mundo de \u201cmicroempresas\u201d. O destino dessas empresas é então ligado ao do capital 
pela ampliação do microcrédito e das microfinanças. Esses esquemas estendem pe\u2011
quenas quantidades de crédito (com taxas muito altas de juros) a coletivos (geral\u2011
mente um pequeno grupo de mulheres) dentre os 2 bilhões de pessoas que vivem 
com menos de 2 dólares por dia. O objetivo alegado é permitir à população sair 
da pobreza e participar do alegre, negócio da acumulação do capital. Alguns con\u2011
seguem, mas para o resto isso significa os grilhões da dívida.
Essas populações fazem sua própria geografia de inúmeras maneiras. Suas si\u2011
tua ções demográficas e econômicas variam muito, no entanto. No Leste e Sul 
Asiático, as populações continuam a aparecer até mesmo com a ampla drenagem 
de riqueza às quais foram submetidas \u2013 pelo menos até recentemente \u2013 a partir do 
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século XVII, por força da expansão colonial e das práticas imperialistas. Os mais 
avançados centros de acumulação do capital, como parte da Europa ocidental e o 
Japão, entraram numa linha de crescimento populacional negativo (com problemas 
decorrentes do envelhecimento das populações, que levam a todo tipo de proble\u2011
mas para a acumulação do capital sustentada), enquanto o resto da Ásia, a América 
Latina e a África continuam a ter aumentos. A China, com restrições draconianas 
sobre o tamanho da família, visa conter o crescimento de sua já enorme população 
de 1,2 bilhão de pessoas, enquanto os Estados Unidos têm sustentado seu cresci\u2011
mento demográfico por meio de uma maior abertura, porém cada vez mais desa\u2011
fiadora, à imigração (complementada por um grande afluxo de imigrantes ilegais 
que fornecem grande parte da mão de obra mal remunerada necessária para a cons\u2011
trução, o agronegócio e os serviços domésticos, em particular).
As pessoas ocupam espaços e têm de viver na terra em algum lugar e de alguma 
forma. Como elas moram, sustentam\u2011se e reproduzem a espécie varia muito de lu\u2011
gar para lugar, mas no processo criam lugares em que habitam, desde a cabana dos 
camponeses, a pequena vila, a favela e o cortiço urbano ao subúrbio, às casas de 
milhões de dólares nos Hamptons de Long Island, aos condomínios fechados na 
China ou em São Paulo, às coberturas de luxo da Cidade do México. A construção 
de espaços, bem como a criação de uma morada segura chamada casa e lar, tem um 
impacto tanto na terra quanto na acumulação do capital, e a produção de tais lu\u2011
gares se torna um grande veículo para a produção e absorção do excedente. A pro\u2011
dução do \u201curbano\u201d, onde a maioria da população mundial em crescimento agora 
vive, tornou\u2011se ao longo do tempo mais estreitamente ligada à acumulação do ca\u2011
pital, até o ponto em que é difícil distinguir uma da outra. Mesmo nas favelas da 
autoconstrução de moradias, o ferro ondulado, as caixas de embalagem e as lonas 
foram primeiro produzidos como mercadorias.
As populações excedentes não estão mais ancoradas em um lugar, assim como 
não está o capital. Elas fluem para todos os lugares em busca de oportunidades ou 
emprego, apesar das barreiras à migração por vezes colocadas pelos Estados\u2011nação. 
A força de trabalho cativa dos trabalhadores domésticos, grupos de trabalhadores 
migrantes na construção e trabalhadores rurais disputam com as populações e os 
indivíduos locais, que se deslocam em busca de melhores chances na vida. Mu lheres 
polonesas limpam os hotéis ao redor do aeroporto de Heathrow, em Londres, le\u2011
tões servem em pubs irlandeses, trabalhadores itinerantes do México e da Guate\u2011
mala constroem as torres dos