HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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condomínios em Nova York ou colhem morangos 
nos campos da Califórnia, os palestinos, indianos e sudaneses trabalham nos 
Estados do Golfo e assim por diante. Remessas dos Estados do Golfo para a Índia, 
para o Sudeste Asiático ou para os campos de refugiados palestinos se dão em pa\u2011
ralelo com os fluxos de remessas dos Estados Unidos para o México, Haiti, Filipi\u2011
nas, Equador e muitos outros países menos desenvolvidos. As diásporas de todos os 
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tipos (de empresários e trabalhadores) formam redes que criam tramas intrincadas 
na dinâmica espacial da acumulação do capital. E é exatamente por meio dessas re\u2011
des que agora assistimos aos efeitos do crash financeiro se espalhando em quase 
cada canto e recanto da África rural ou da Índia camponesa. A desnutrição e a 
fome devastam o Haiti na medida em que as remessas dos EUA secam porque as 
trabalhadoras domésticas em Nova York e na Flórida estão perdendo o emprego.
Paisagens humanas com diferenças geográficas são assim criadas nas quais as 
relações sociais e os sistemas de produção, os estilos de vida diária, as tecnologias e 
as formas organizacionais, as distintas relações com a natureza se reúnem com ar\u2011
ranjos institucionais para a produção de locais com diferentes qualidades. Tais lu\u2011
gares são, por sua vez, marcados por distintas políticas e maneiras de viver. Conside\u2011
re, por um momento, as várias maneiras em que todos esses elementos se articulam 
no lugar onde você mora. Essa intrincada geografia física e social tem a marca dos 
processos sociais e políticos, bem como das lutas ativas que a produziram.
O desenvolvimento geográfico desigual que resulta é tão infinitamente variado 
quanto volátil: uma cidade desindustrializada no Norte da China; uma cidade en\u2011
colhendo no que um dia foi a Alemanha Oriental; a expansão industrial das cida\u2011
des do delta do Rio das Pérolas; uma concentração de tecnologias da informação 
em Bangalore; uma zona econômica especial na Índia, onde camponeses despossuídos 
se revoltam; populações indígenas em conflitos na Amazônia ou na Nova Guiné; 
os bairros ricos, em Greenwich, Connecticut (até recentemente, pelo menos, a ca\u2011
pital dos fundos de cobertura do mundo); os campos de petróleo na região de Ogo\u2011
ni, na Nigéria, onde há conflitos constantes; as zonas autônomas mantidas por um 
movimento militante, como os zapatistas em Chiapas, no México; a ampla produ\u2011
ção de soja no Brasil, Paraguai e Argentina; as regiões rurais de Darfur ou do Congo, 
onde as guerras civis são implacáveis; os subúrbios da classe média de Londres, Los 
Angeles e Munique; as favelas da África do Sul; as fábricas de vestuário do Sri Lanka 
ou os centros de atendimento de Barbados e Bangalore \u201chabitados\u201d inteiramente 
por mulheres; as novas megacidades nos Estados do Golfo, com seus edifícios pro\u2011
jetados por arquitetos\u2011estrela \u2013 tudo isso (e, claro, muito mais), quando tomado em 
conjunto, constitui um mundo de diferença geográfica feito pela ação humana.
À primeira vista, esse mundo parece ser tão geograficamente diverso que escapa 
à compreensão, o que dizer então de controlá\u2011lo. Como é possível que todos se 
relacionem? Que há interconexões e inter\u2011relações é óbvio. As guerras civis na Áfri\u2011
ca, o triste legado das práticas coloniais europeias, refletem a longa história de con\u2011
flitos entre corporações e Estados que se esforçam em controlar os preciosos recur\u2011
sos da África, e a China tem um papel cada vez mais importante nos dias de hoje. 
A fábrica no Norte da China ou em Ohio fecha em parte porque se abrem as fábri\u2011
cas localizadas no delta do Rio das Pérolas. O teleatendimento em Barbados ou o 
atendimento ao consumidor de Bangalore, em Ohio e em Londres e as camisas ou 
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saias usadas em Paris têm etiquetas de Sri Lanka ou Bangladesh, assim como os sa\u2011
patos que antes eram feitos na Itália agora são do Vietnã. Os Estados do Gol fo 
constroem edifícios espetaculares sobre um comércio de petróleo que depende, em 
parte, do uso excessivo de energia a serviço de um estilo de vida predominantemen\u2011
te suburbano nos Estados Unidos.
Como é produzida toda essa diferença geográfica? Como sua variedade aparen\u2011
temente infinita e incontrolável se costura e tece internamente para formar a geo\u2011
grafia dinâmica na qual estamos?
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
Em que espaço o processo coevolutivo descrito anteriormente ocorre? Consi\u2011
dere\u2011se, em primeiro lugar, um subúrbio típico dos EUA numa grande área me\u2011
tropolitana, como Washington, em 2005, antes de a crise financeira começar. A 
população é relativamente homogênea (em sua maioria branca, mas com alguns 
afro\u2011americanos educados e imigrantes recentes, igualmente educados, de países 
tão diversos como Índia, Taiwan, Coreia do Sul e Rússia) e razoavelmente rica. A 
habitação suburbana é ordenada, e as escolas, supermercados, centros comer\u2011
ciais (com funções de entretenimento), instalações médicas, instituições financei\u2011
ras, postos de gasolina, concessionárias, instalações esportivas e espaços abertos 
são de fácil acesso de carro. O trabalho local está fortemente envolvido nos servi\u2011
ços (em particular, finanças, produção de software, seguros e imóveis, além de 
pesquisa médica) e toda produção que há é ou orientada para apoiar o estilo de vida 
da classe média suburbana (conserto de automóveis, jardinagem, cerâmica, car\u2011
pintaria, equipamento médico) ou está envolvida na reprodução ou produção 
adicional do ambiente construído (todas as facetas da indústria da construção e 
seus fornecedores, como encanadores, carpinteiros e pedreiros). A apropriação de 
impostos é estável e adequada, e a administração local, além de participar das prá\u2011
ticas usuais suburbanas de bajular os interesses da construção e os desenvolvedo\u2011
res, é razoavelmente eficiente. O tempo de deslocamento é comprido, mas supor\u2011
tável, principalmente com a ajuda de todos os equipamentos eletrônicos que 
transformam o interior de um carro em um centro de entretenimento. A vida 
cotidiana é razoavelmente bem ordenada, apesar de algumas rupturas familiares 
escandalosas e crimes hediondos; as relações sociais são individualistas, mas frou\u2011
xamente integradas por formas sociais, em particular igrejas, escolas e clubes de 
golfe locais. A propriedade da casa (baseada em hipotecas e subsídios fiscais) é 
generalizada, o que garante a defesa do valor das habitações individuais como 
uma norma coletiva, estimulada pelas associações de proprietários de imóveis, 
apesar da abundância do individualismo isolado. As casas são todas cheias de dife\u2011
rentes tipos de produtos eletrônicos e, é claro, todos têm iPods e celulares, que 
estão em uso contínuo.
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Nesse mundo, as relações entre as sete esferas de atividade estão aproximada\u2011
mente harmonizadas e a maioria das pessoas as aceita como seguras e tranquili\u2011
zadoras, embora um pouco tediosas. Os conflitos são menores (na maior parte 
apenas do estilo \u201cnão mexe comigo\u201d) e até mesmo os dois partidos políticos dis\u2011
putam cargos com candidatos moderados. Os fluxos de capital para dentro, atra\u2011
vés e para fora desse lugar são constantes, e a configuração particular das relações 
entre as diferentes esferas de atividade facilita o sucesso da continuação rentável 
dos fluxos.
Compare isso com uma segunda área não muito longe (na Pensilvânia, diga\u2011
mos) que no passado foi uma cidade metalúrgica, que sofreu recentemente com o 
fechamento de fábricas e a desindustrialização. A população já foi bastante ho\u2011
mogênea, construída em torno de empregos aparentemente seguros e com o perfil 
sindicalista de operário homem, com estruturas familiares baseadas nessa fonte 
de renda e emprego feminino casual, de meio período e com salário baixo.