HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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Mas 
tudo isso desapareceu. Muitos dos homens estão desempregados e recebem auxílio 
social, a habitação da classe trabalhadora se deteriorou (algumas casas estão vazias 
e vandalizadas), muitas lojas locais foram fechadas, a base tributável é fraca e as 
escolas e outros serviços estão degradados, além de as pensões, a assistência social e 
a saúde serem frágeis. As salas dos sindicatos que costumavam ser os centros de 
socialização foram abandonadas ou estão quase vazias, e apenas as igrejas ainda 
oferecem santuário para socialização e consolo. Os pequenos delitos crescem 
desenfreadamente. Há cada vez mais problemas de alcoolismo e abuso de drogas. 
As relações de gênero foram radicalmente transformadas e as rupturas familiares 
aumentaram na medida em que as mulheres se tornaram chefes de família e a tra\u2011
dicional classe trabalhadora masculina encontra\u2011se reduzida ao status de uma sub\u2011
classe descartável. Várias tentativas de reanimar a área estão em andamento, mas 
nada parece funcionar. Algumas mulheres armadas com conhecimentos rudimen\u2011
tares de informática criam um modo de troca informal e redes coletivas de apoio 
(um exemplo do que hoje é cha mado de \u201ceconomia solidária\u201d). Um empresário 
local tenta reunir os comerciantes locais, para apoiar um evento de arte que pode 
atrair visitantes, e os preços de imóveis mais baratos encontram um mercado com as 
populações decepcionadas de uma metrópole vizinha onde a vida se tornou cara 
demais, como Nova York. Mas essas populações são imigrantes, gays e boêmios, 
cujos valores são radicalmente diferentes da classe trabalhadora predominante 
branca que já morou aqui de forma segura. As tensões étnicas e sexuais se agravam. 
Trabalhadores imigrantes itinerantes ocupam algumas casas vazias e são recebidos 
com hostilidade pelos moradores locais. A violência anti\u2011imigrante se intensifica. 
O colapso da base de produção pôs em marcha uma reação em cadeia através de 
todas as outras esferas, forçando adaptações coevolutivas estressantes, duras e con\u2011
flituosas nas concepções mentais, relações sociais, padrões de vida diária e repro\u2011
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dução social, bem como nas tecnologias e sistemas de governança. A desarmonia 
entre as esferas é palpável, e como eles poderiam voltar a um equilíbrio é incerto.
Agora considere o que na Índia é legalmente definido como uma \u201cfavela\u201d. Mi\u2011
lhares de pessoas estão amontoadas em um assentamento, onde não existem títulos 
formais da terra ou casa. A governança é amplamente exercida por meio de estru\u2011
turas de poder informal que derivam tanto da riqueza econômica, acumulada 
legal ou ilegalmente, quanto do status. Figuras carismáticas religiosas ou políticas 
surgem como chefes locais. O poder do Estado formal é raramente exercido de 
forma direta e, quando isso acontece, é por meio de policiais violentos e inter\u2011
venções militares, imposições burocráticas e legalistas ou pela corrupção desenfrea\u2011
da em nome da proteção. Algumas atividades econômicas podem ser encontradas 
\u2013 pneus de borracha transformados em sandálias são comercializados nas ruas, e 
algumas redes de subcontratação para produtos de couro ou objetos artesanais 
que acabam em lojas de Manhattan podem ser encontrados no meio de estruturas 
densas e caóticas. Geralmente não há água corrente e esgoto, e odores fétidos estão 
por toda parte. A eletricidade é ocasionalmente pirateada. A expectativa de vida é 
baixa, e a mortalidade infantil, surpreendentemente alta.
As relações sociais são tão predatórias como solidárias, e a violência é utilizada 
com frequência como uma maneira para preservar o poder social, se não a própria 
vida. Novos migrantes do campo são tratados como inferiores dos inferiores, e as 
relações de gênero e as estruturas familiares são tão instáveis como efêmeras, mesmo 
que alguns grupos formem fortes laços de apoio mútuo. Tentativas rudimentares de 
ONGs para melhorar as condições existentes e um projeto piloto para levar pro\u2011
jetos de microfinanças à favela como uma solução para a pobreza têm dificuldades 
de deslanchar.
Existe algum projeto num escritório de planejamento distante para a moderni\u2011
zação do ambiente físico, mas a maioria dos locais vê tal projeto como um meio 
para expulsá\u2011los de suas terras, que potencialmente têm um alto valor. Não há 
cuidados de saúde (com exceção de medicamentos folclóricos locais e curas indíge\u2011
nas) e a educação ou é inexistente ou é casual. Há alguns fluxos de mão de obra 
para o resto da cidade (homens na construção ou jardinagem, e mulheres varrendo 
o chão para as famílias da classe média por quase nenhuma remuneração, mas pelo 
menos comem bem dos restos da mesa dos ricos). Os rádios estão em toda parte e, 
na ausência de telefones fixos, telefones celulares (muitas vezes roubados) são oni\u2011
presentes. Na verdade, a principal atividade de mercado se dá em bens roubados ou 
na troca dos produtos mais baratos. Nesse espaço, fortemente segregado por uma 
estrada e um rio, as sete esferas de atividade coexistem em uma única configuração. 
Por mais que seja radicalmente diferente do subúrbio dos EUA, ainda podemos 
descrever as relações internas dentro da totalidade do espaço e dissecar os proces\u2011
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sos muitas vezes tensos e contraditórios de coevolução que fazem dessa favela um 
espaço ecológico dinâmico.
Nesses três locais, as trajetórias coevolucionárias apontam aparentemente para 
direções diferentes. Aqui, os ventos econômicos, sociais e políticos sopram de um 
jeito, lá estão estagnados e acolá vão em uma direção completamente diferente. 
Mas em cada caso, somos capazes de compreender como as vidas são vividas e co\u2011
mo as circunstâncias estão mudando. Temos à nossa disposição, de fato, inúmeros 
estudos histórico\u2011geográficos, sociológicos e antropológicos que descrevem deta\u2011
lhadamente as interações e as mudanças que ocorrem nesse ou naquele lugar (muitas 
vezes invocando as relações entre diferentes esferas de atividade). A mídia fornece 
descrições de como as coisas estão indo \u2013 bem ou mal, dependendo do caso \u2013 nos 
\u201cbairros mais antigos dos EUA\u201d, no Casaquistão, no Cairo, em Wuppertal, em 
Mombassa, em Chenai ou em Canton, Ohio. O grande problema surge quando 
tentamos colocar todos esses relatos do mundo juntos de modo a destacar tanto a 
sua interdependência quanto sua inquestionável particularidade.
Se pudéssemos de alguma forma mapear a circulação do capital que ocorre em 
diferentes lugares ao redor do mundo, então o quadro seria algo parecido com as 
imagens de satélite tiradas do espaço que dão conta dos sistemas meteorológicos 
que rodam por cima dos oceanos, montanhas e planícies do planeta. Veríamos a 
ressurgência da atividade aqui, zonas de calmaria por lá, redemoinhos anticiclôni\u2011
cos em outro lugar e depressões ciclônica de várias profundidades e tamanhos em 
outros lugares. Aqui e ali, tornados rasgariam a terra e em certos momentos tufões 
e furacões correriam pelos oceanos, representando perigos iminentes para os que 
estiverem em seu caminho. Chuvas refrescantes esverdeariam as pastagens, enquan\u2011
to as secas em outros lugares deixariam uma terra marrom arrasada.
À primeira vista, todo esse movimento dentro dos sistemas de clima parece caó\u2011
tico e imprevisível. Mas a observação e análise cuidadosa revelam padrões no caos. 
Mudanças de longo prazo são detectáveis em sinais climáticos. Os climatologistas e 
meteorologistas podem compreender as forças dinâmicas fluidas, as bolsas de calor 
e outros fenômenos similares que impulsionam a maior parte do movimento, 
mesmo quando se voltam para a teoria do caos para enquadrar seu pensamento 
sobre os detalhes. Eles podem até ganhar algum poder, mas nunca completo, sobre 
a previsão de curto prazo dos padrões climáticos e a previsão de mudanças