HARVEY, David. O Enigma do Capital
235 pág.

HARVEY, David. O Enigma do Capital


DisciplinaPolítica Social518 materiais1.942 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de mais 
longo prazo, como o aquecimento global. Certamente chegaram a um pon to em 
que o entendimento retrospectivo do que aconteceu é muito convincente.
O geógrafo econômico se depara com problemas análogos de encontrar alguns 
padrões distintivos e sinais de longo prazo da mudança dentro do caos aparente da 
atividade social, econômica e política observável. Um mapa sinóptico da atividade 
econômica da década de 1980, por exemplo, representaria uma sé rie de elevações 
de construção e agitação em torno da borda do Pacífico de grande parte do Leste e 
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 127 11/18/11 4:35 PM
128 / O enigma do capital
Sudeste Asiático (entre Japão e Hong Kong), bem como ao longo da costa Oeste dos 
EUA e em toda a Baviera e Toscana. Teria representado a maior parte da América 
Latina como estagnada, mas propensa a levantes políticos violentos e crises econô\u2011
micas, além de uma série de profundas depressões atravessando o vale de Ohio e a 
Pensilvânia, o coração industrial britânico e todo o vale do Ruhr, na Alemanha. A 
grande diferença com o estudo do tempo e clima, no entanto, é que, enquanto se 
pode presumir que as leis da dinâmica dos fluidos permanecem constantes ao longo 
do tempo, as leis da acumulação do capital estão em constante evolução na medida 
em que o ser humano adapta seus comportamentos às novas circunstâncias.
A arte e a ciência da análise e previsão geográfica continuam lamentavelmente 
subdesenvolvidas em relação ao, digamos, esforço de compreender o tempo e o clima. 
As ciências sociais, também, dão muitas vezes as costas coletivamente para o pro\u2011
blema da geografia. De modo geral (e há sempre, claro, exceções maravilhosas), os 
antropólogos preferem ver a confusão do global como algo intratável para justificar 
um foco exclusivo nas etnografias locais; os sociólogos se concentram em algo cha\u2011
mado comunidade ou, até recentemente, limitavam seus estudos às fronteiras do 
Estado; e os economistas colocam toda a atividade econômica na cabeça de um al\u2011
finete. A complexa geografia do todo, do local ao global, é ignorada ou reduzida a 
uma versão banal do determinismo geográfico físico do tipo recentemente proposto 
por Jared Diamond em Armas, germes e aço, ou pelo economista Jeffrey Sachs, em 
O fim da pobreza*, ou, ainda pior, revive em perigosas (porque às vezes se autossa\u2011
tisfazem) teorias darwinianas de luta entre os estados por dominação geopolítica.
O resultado é uma lacuna duplamente grave. Não entendemos muito bem em 
que medida, quando, por que e como eventos em determinado lugar afetam as 
condições em outros lugares. Também não podemos avaliar quão dependente é a 
reprodução do capitalismo sobre as formas aparentemente caóticas do desenvolvi\u2011
mento geográfico desigual. Como resultado, temos uma ideia ainda menor do 
que fazer em relação a tudo isso numa crise, apesar de estarmos coletivamente em 
uma posição que nos permite mudar as leis da reprodução social e da acumulação 
do capital (esperemos que para melhor) por meio da ação consciente. 
Há, então, princípios geográficos aos quais talvez possamos recorrer para enten\u2011
der todo esse caos aparente e seu impacto na reprodução do capitalismo? No que 
segue exponho algumas ideias de maneira geral. 
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
O princípio número um é que todos os limites geográficos da acumulação do 
capital têm de ser ultrapassados. O capital, Marx escreveu nos Grundrisse, \u201ctem de se 
empenhar para derrubar toda barreira local do intercâmbio, i.e., da troca, para con\u2011
* São Paulo, Companhia das Letras, 2005. (N. T.)
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 128 11/18/11 4:35 PM
A geografia disso tudo / 129
quistar toda a Terra como seu mercado\u201d. Deve também se esforçar perpetuamente 
para \u201cdestruir o espaço por meio do tempo\u201d*. O que isso significa e por que é assim?
Nos primórdios, os comerciantes e vendedores urbanos aprenderam que sua 
capacidade de sobreviver dentro do poder feudal ou imperial baseado na terra de\u2011
pendia do cultivo de uma forma superior de agir no espaço. O capital mercantil e 
comercial (junto com o capital bancário nascente) contornou e, finalmente, sub\u2011
verteu a ordem feudal, em grande parte por estratégias espaciais, protegendo cer\u2011
tos lugares \u2013 as primeiras cidades de negócios \u2013 como ilhas de liberdade em rede 
em um mundo de restrições feudais. Até hoje, a classe capitalista e seus agentes 
(incluindo uma variedade de diásporas mercantis étnicas) mantêm grande parte de 
seu poder de dominação por força do comando superior sobre a mobilidade no 
espaço. Esses mesmos poderes são também fundamentais, como todo general sabe, 
para a manutenção da superioridade militar. A chamada \u201ccorrida do espaço\u201d dos 
anos 1960 e 1970 entre os EUA e a União Soviética foi talvez a versão mais dramá\u2011
tica dessa ambição onipresente nos últimos tempos. Surge assim um imperativo 
comum no nexo Estado\u2011corporações constituído dentro do capitalismo para finan\u2011
ciar as tecnologias e as formas de organização que garantam a contínua predomi\u2011
nância no espaço e no movimento espacial para o Estado e o capital. Isso explica, 
no século XVIII, a competição promovida pela British Royal Society para a cons\u2011
trução de um cronômetro que pudesse trabalhar em alto mar e assim identificar 
locais com precisão. Nos primeiros anos, os mapas eram guardados como segredos 
de Estado e mantidos sob sete chaves. Agora, é claro, temos satélites, sistemas de 
GPS e o Google Earth para nos guiar, embora isso não impeça os EUA de comprar 
todas as imagens de satélite do Afeganistão para proteger seus interesses militares. 
Naves que sobrevoam o Afeganistão disparam mísseis de uma base no Colorado. 
As ordens informatizadas de Wall Street são executadas em Londres e recebidas ins\u2011
tantaneamente em Zurique e Singapura. 
A propensão para a dominação do espaço é muito mais profunda do que a me\u2011
ra racionalidade econômica. A psicologia disso tudo claramente importa. A crença\u2011
\u2011fetiche na capacidade humana de transcender as correntes que nos mantêm amar\u2011
rados ao planeta Terra há muito tempo surgiu como uma linha central do desejo 
utópico burguês. \u201cÓ deuses! Aniquilem o espaço e o tempo / E façam dois amantes 
felizes\u201d, dizia o dístico do século XVIII, do poeta Alexander Pope. O grande filóso\u2011
fo racionalista René Descartes fundamentou sua pesquisa do mundo na crença de 
que a natureza poderia ser dominada pelo homem. O Fausto**, de Johann Goethe, 
fez um pacto com o diabo para ganhar onipotência sobre o planeta Terra. O ro\u2011
mancista Honoré de Balzac \u2013 sempre uma fonte reveladora no que se refere aos 
* Karl Marx, Grundrisse, cit., p. 445. (N. E.)
** São Paulo, Editora 34, 2004. (N. E.)
O ENIGMA DO CAPITAL_miolo.indd 129 11/18/11 4:35 PM
130 / O enigma do capital
desejos\u2011fetiche das classes altas \u2013 imaginava\u2011se \u201candando por todo o mundo, toman\u2011
do dele tudo o que quisesse [...]. Possuo o mundo sem esforço, e o mundo não tem 
a mínima influência sobre mim. [...] Estou aqui e tenho o poder de estar em outro 
lugar! Não sou dependente nem do tempo nem do espaço nem da distância. O 
mundo é meu servo\u201d.
A conquista do espaço e do tempo e o domínio do mundo (tanto da \u201cmãe terra\u201d 
quanto do mercado mundial) aparecem em muitas fantasias capitalistas como exa\u2011
geradas, mas sublimes expressões masculinas do desejo sexual e da crença carismá\u2011
tica milenar. É essa convicção\u2011fetiche que impele os sempre crescentes \u201cespíritos 
animais\u201d dos financistas? É por isso que muitos financistas e magos dos fundos de 
cobertura são homens? É assim que as pessoas sentem quando detonam toda a 
moeda da Nova Zelândia de uma só vez? Que incrível o poder de andar sobre o 
mundo e fazê\u2011lo curvar\u2011se à sua vontade! 
Marx e Engels definiram as consequências seculares disso em seu Manifesto Co-
munista de 1848, de modo a ser prontamente entendido por cada trabalhador que 
tenha experimentado a desindustrialização ao longo dos