HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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últimos quarenta anos: 
As velhas indústrias nacionais foram destruídas ou continuam a ser destruídas diaria\u2011
mente. São suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão 
vital para todas as nações civilizadas \u2013 indústrias que já não empregam matérias\u2011
\u2011primas nacionais, mas sim matérias\u2011primas vindas das regiões mais distantes, e 
cujos produtos se consomem não somente o próprio país mas em todas as partes do 
mundo. Ao invés das antigas necessidades, satisfeitas pelos produtos nacionais, surgem 
novas demandas, que reclamam para sua satisfação os produtos das regiões mais lon\u2011
gínquas e de climas os mais diversos. No lugar do antigo isolamento de regiões e na\u2011
ções autossuficientes, desenvolvem\u2011se um intercâmbio universal e uma universal inter\u2011
dependência das nações.*
Aquilo que hoje chamamos \u201cglobalização\u201d esteve na mira da classe capitalista 
o tempo todo. 
Se o desejo de conquistar o espaço e a natureza é uma manifestação de algum 
anseio humano universal ou um produto específico das paixões da classe capitalista 
jamais saberemos. O que pode ser dito com certeza é que a conquista do espaço e 
do tempo, assim como a busca incessante para dominar a natureza, há muito tem\u2011
po tem um papel central na psique coletiva das sociedades capitalistas. Apesar de 
todos os tipos de críticas, acusações, repulsas e movimentos políticos de oposição, 
e apesar das consequências involuntárias maciças na relação com a natureza que são 
cada vez mais perceptíveis, ainda prevalece a crença de que a conquista do espaço e 
do tempo, bem como da natureza (incluindo até mesmo a natureza humana), 
está de algum modo a nosso alcance. O resultado tem sido uma tendência ine\u2011
* Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista, cit., p. 43. (N. T.)
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A geografia disso tudo / 131
xorável do mundo do capital de produzir o que chamo de \u201ccompressão do tempo\u2011
\u2011espaço\u201d \u2013 um mundo no qual o capital se move cada vez mais rápido e onde as 
distâncias de interação são compactadas. 
Existe uma forma mais prosaica de olhar para isso. As leis coercitivas da concor\u2011
rência (muitas vezes rebatidas) impelem as empresas e os Estados a buscar vantagens 
conferidas pelo comando superior do espaço e do tempo, bem como os avanços 
tecnológicos. A superioridade em qualquer um desses aspectos traz benefícios econô\u2011
micos, políticos e militares claros. A crença\u2011fetiche, em seguida, assume que existe 
uma correção tecnológica ou espaço\u2011temporal para todos os problemas com os quais 
o capital se depara. Dificuldades na absorção do excedente de capital? Ou: in vente 
uma nova tecnologia e linha de produtos. Ou: expanda geograficamente e encontre 
um mercado em outro lugar, por dominação colonial ou neocolonial, se necessário 
(é o que o capital britânico fez com a Índia depois de mais ou menos 1850). E se não 
houver mercados externos acessíveis? Então, exporte capital para criar um novo 
centro de produção no exterior, onde a aceleração da produção (como na China 
contemporânea) em vez da do \u201cconsumo individual\u201d (como nos Estados Unidos 
tomados por dívida) crie a demanda para enxugar o excedente de capital. 
Quando essas duas crenças\u2011fetiche nas soluções tecnológicas e espaço\u2011temporais 
colidem, alimentam\u2011se em frenesis de inovação tecnológica concebidos para con\u2011
tornar todos os limites temporais e espaciais da circulação de capital. Quantas das 
muitas inovações tecnológicas ao longo da história do capitalismo foram para re\u2011
duzir as fricções da distância ou acelerar a circulação de capital? A lista é intermi\u2011
nável. Onde estaríamos sem os canais, ferrovias, navios a vapor, automóveis, estra\u2011
das, transportes aéreos, telégrafos, rádios, telefones, comunicações eletrônicas, e 
assim por diante? A negociação informatizada em centros financeiros ligados por 
fluxos de informação quase instantâneos agora gira 600 trilhões de dólares em de\u2011
rivativos no mundo em milissegundos. Até os porcos têm duas vezes mais ninhadas 
do que estavam acostumados em um ano (não admira que contraiam a gripe). 
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
O segundo conjunto de princípios emerge do simples fato de a circulação do 
capital não ocorrer na cabeça de um alfinete. A produção implica uma concentração 
geográfica de dinheiro, meios de produção e força de trabalho (em grande parte 
contida em mercados de trabalho localizados). Esses elementos são reunidos em um 
lu gar específico, onde uma nova mercadoria é produzida. São então enviados para 
fora, para mercados nos quais serão vendidos e consumidos. A proximidade dos 
meios de produção (incluindo os recursos naturais), da força de trabalho e dos mer\u2011
cados de consumo reduz custos e aumenta o lucro em locais privilegiados. 
Mas onde a acumulação de capital poderia começar? A resposta: onde e quando 
alguém tiver algum dinheiro e decidir usá\u2011lo para ganhar mais dinheiro, exploran\u2011
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do o trabalho assalariado. Mas em que condições os indivíduos podem começar e, 
mais importante ainda, manter o ganho de dinheiro ao longo do tempo? Obviamen\u2011
te, uma economia monetária já tem de existir (junto com um mercado de troca), e 
o dinheiro já tem de ser uma forma importante de poder social. Além disso, o tra\u2011
balho assalariado já deve estar em vigor ou pelo menos acessível pela expulsão de 
pessoas de suas terras ou pela atração delas para o mercado de trabalho por algum 
outro meio. Para que isso aconteça, barreiras sociais e políticas para a acumulação de 
capital individual devem ser superadas. Quando o líder chinês Deng Xiaoping disse 
que ganhar dinheiro e ficar rico era bom, deixou o gênio capitalista sair da garrafa 
em todos os graus na China \u2013 com resultados surpreendentes. Mas um mero pro\u2011
nunciamento e o afrouxamento das limitações administrativas não garantem o su\u2011
cesso. O sucesso pode ser avaliado somente após as leis coercitivas da competição 
terem determinado que tal iniciativa foi bem\u2011sucedida em algum lugar. 
Esse ponto é crucial. As leis de acumulação do capital operam após o fato e não 
antes. Costuma\u2011se dizer que Marx considerou que tudo é economicamente deter\u2011
minado e economicamente racionalizado em antecipação. Não há, diz\u2011se que ele 
afirmou, espaço para a iniciativa e agência do indivíduo. Nada poderia estar mais 
longe da verdade. É precisamente o gênio do capitalismo que se baseia nos instin\u2011
tos, em preen dedorismo e, por vezes, ideias malucas (os \u201cespíritos animais\u201d invoca\u2011
dos tanto por Marx quanto por Keynes) dos empresários individuais que operam 
em lugares e momentos específicos. É só quando há um pouco de liberdade, tole\u2011
rada ou estimulada, que o capitalismo inerentemente especulativo pode se desen\u2011
volver e ir para a frente. O capitalismo está fundado, tanto em termos de ideologias 
dominantes quanto nas práticas necessárias, sobre as liberdades individuais e as li\u2011
berdades de participar de atividades especulativas para fazer dinheiro. Marx com\u2011
preendeu e deu conta disso muito bem. 
O aparente caos da diferenciação geográfica, podemos concluir, é uma condição 
necessária para a acumulação do capital começar. Foi, afinal, em pequenas aldeias 
e vilas, com nomes como Manchester e Birmingham, onde os controles sociais e 
políticos eram falhos, e não nos grandes centros urbanos, como Norwich e Bristol, 
onde os controles políticos corporativistas prevaleceram, que a revolução industrial 
começou na Inglaterra. E foi em pequenas feitorias, com nomes como Chicago, 
nos Estados Unidos, onde continuou. 
As chamadas leis da acumulação do capital operam após o fato e não antes. Foi, 
por exemplo, um determinado conjunto de circunstâncias que levou um homem 
chamado William Morris a começar a construir carros (em vez de consertar bicicle\u2011
tas) no improvável Leste de Oxford, na Inglaterra. O mesmo ocorreu com Henry 
Ford em Detroit.