HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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Mas em ambos os casos as circunstâncias iniciais \u2013 o acesso a 
matérias\u2011primas, os salários para os trabalhadores, os mercados \u2013 foram bons o 
suficiente para terem sucesso. O sucesso inicial levou à construção de mais infraes\u2011
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truturas locais de apoio (sociais e físicas) que fizeram os locais escolhidos ainda 
mais adequados para a produção de automóveis. As empresas bem\u2011sucedidas mui\u2011
tas vezes desenvolvem um cinturão de infraestrutura ao seu redor (incluindo ou\u2011
tras empresas) que as torna ainda mais rentáveis. Somente agora, após quase um 
século, vemos a racionalização da concorrência e das crises empurrar a produção 
de carros nesses locais, até agora bem\u2011sucedida, quer para a beira de eliminação, 
quer para uma fase de reestruturação radical.
É pelas leis coercitivas da competição e pelas crises que a racionalização \u201cdepois 
do fato\u201d e a reestruturação geográfica da acumulação de capital ocorrem. É por isso 
que a concorrência e as crises são tão fundamentais para a trajetória evolutiva do 
capitalismo. Mas isso também explica porque o capitalismo floresce melhor em um 
mundo geográfico de imensa diversidade de atributos físicos e condições sociais e 
culturais. Uma vez que não se pode nunca saber antecipadamente se uma empresa 
com fins lucrativos pode ter sucesso aqui e não lá, então sondar as possibilidades 
em todos os lugares e descobrir o que funciona se torna fundamental para a repro\u2011
dução do capitalismo. Os fracassos, dos quais raramente ouvimos falar na linha 
triunfalista da geografia econômica histórica à qual temos acesso, são muito mais 
numerosos do que as histórias de sucesso. Quem teria sabido que as atividades de 
tecnologia da informação se tornariam um sucesso em Bangalore, na Índia? Por que 
a tentativa de Henry Ford de construir uma nova comunidade de plantação de bor\u2011
racha na Amazônia nos anos entre\u2011guerras fracassou tão miseravelmente? A diver\u2011
sidade geográfica é uma condição necessária, e não uma barreira, para a reprodução 
do capital. Se a diversidade geográfica não existe, então tem de ser criada. 
A necessidade de assegurar a continuidade dos fluxos geográficos do dinheiro, 
bens e pessoas exige que toda essa diversidade esteja entrelaçada por meio de trans\u2011
portes eficientes e sistemas de comunicação. A geografia resultante da produção e 
do consumo é profundamente sensível ao tempo e custo de atravessar o espaço. 
Esses tempos e custos foram muito reduzidos pelas inovações tecnológicas e organi\u2011
zacionais, além da queda nos custos de energia. Os problemas de distância têm um 
papel cada vez menor na limitação da mobilidade geográfica do capitalismo. Isso 
não significa, porém, que as diferenças geográficas não importam mais. Precisa\u2011
mente o contrário: o capital altamente móvel presta muita atenção até mesmo nas 
pequenas diferenças nos custos locais porque geram lucros mais elevados. 
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
O fato de os capitalistas serem atraídos e sobreviverem melhor em locais de lu\u2011
cro máximo muitas vezes leva à concentração de muitas atividades em lugares par\u2011
ticulares. A fábrica de algodão de fiação se beneficia em ter a oficina de máquinas 
e ferramentas, o produtor da tintura química e o fabricante de camisas nas proxi\u2011
midades. \u201cEconomias externas\u201d (benefícios econômicos que um capitalista recebe 
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ao estar perto de outro) produzem aglomerações geográficas das atividades capita\u2011
listas. O notável economista do século XIX Alfred Marshall chamou o conglome\u2011
rado de muitas empresas de \u201cdistritos de produção industrial\u201d. Trata\u2011se de uma 
característica familiar no mundo geográfico que o capitalismo constrói. Serviços 
legais, financeiros, de transporte, de infraestruturas e de comunicações coletivos, 
juntamente com o acesso a um conjunto de trabalhadores comum e o apoio da 
administração civil, podem também fornecer custos mais baixos para todos os ca\u2011
pitalistas em uma dada localidade, até o ponto em que os custos de congestiona\u2011
mento se elevam e superam os benefícios. Nos estágios iniciais do capitalismo, a 
ascensão da cidade industrial simbolizou tais economias de aglomeração em ação. 
Recentemente muito tem sido feito da ascensão dos distritos industriais de produ\u2011
ção \u201cmarshallianos\u201d, como o Vale do Silício ou a \u201cTerceira Itália\u201d, centrada em 
torno de Bolonha, onde muitas pequenas empresas se juntaram para partilhar 
economias de produção e comercialização. No mundo financeiro de hoje, o perfil 
típico dos grandes centros como a City de Londres e a Wall Street reúne serviços 
de direito, contabilidade, consultoria fiscal, informações, mídia e outras atividades 
ao lado das principais funções financeiras. 
Muito cedo, as empresas capitalistas também se fundamentaram em uma vasta 
rede de ligações de mercado espacialmente distintas. Mercadorias como a lã, o algo\u2011
dão, as especiarias exóticas, a madeira e o couro, muitas vezes vinham de longe e, 
enquanto a maioria dos bens de sobrevivência que sustentava a vida cotidiana dos 
trabalhadores veio de perto no passado, o sal, os temperos, o açúcar, o chá, o ca fé, o 
cacau, o vinho, as resinas, o bacalhau seco, bem como o trigo, o arroz, o centeio e a 
cevada eram frequentemente negociados por longas distâncias graças às atividades 
dos comerciantes. Em alguns casos, as redes comerciais foram formalizadas, como 
aconteceu cedo, com a Liga Hanseática. Casas de negócios e comerciantes de várias 
cidades formaram uma rede solidária que ia do Báltico à Península Ibérica a partir do 
século XIII. Paralelamente, cresceram redes internacionais de casas de financiamen\u2011
to, os banqueiros de Augsburg e Nuremberg no século XVI ou, mais tarde, no sécu\u2011
lo XIX, as grandes casas, como os Rothschilds, com seus diferentes ramos familiares, 
em Viena, Paris, Madri, Londres e Berlim. Hoje, a Goldman Sachs e o HSBC (\u201co 
banco local do mundo\u201d) têm escritórios em todo o globo. Em outros casos, as redes 
comerciais foram desenvolvidas, como nos primórdios da China, a partir de uma 
estrutura de mercados periódicos cuidadosamente monitorada por fiscais e outros 
agentes do poder imperial. As mercadorias sempre viajaram imensas distâncias (em\u2011
bora lentamente), por exemplo ao longo da lendária \u201cestrada da seda\u201d da China para 
o Ocidente. As diásporas étnicas de empresas continuam a fazer o mesmo. (Basta ir 
a uma Chinatown em qualquer cidade do mundo para entender esse fenômeno.) 
Os tentáculos das redes comerciais se interligaram e esticaram para dentro e 
para fora, e se infiltraram em todos os lugares. A lã de regiões remotas do Tibete 
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encontra seu caminho no mercado indiano do mesmo modo que as ervas medici\u2011
nais e as partes de animais que vêm da Mongólia e da China ocidental são reunidas 
em Hong Kong antes de serem distribuídas por todo o mercado do Sudeste da 
Ásia. Comerciantes de rua no Norte da África ou em Kerala tornam\u2011se canais para 
os fluxos de remessas que provêm dos Estados do Golfo. A criação dessas redes, o 
conhecimento das rotas, passagens e caminhos, seu mapeamento compulsivo e o 
conhecimento dos tipos de mercadorias que poderiam ser negociados se tornaram 
uma das principais contribuições do capital mercantil e comercial. Sem isso, o ca\u2011
pitalismo tal qual o conhecemos hoje não poderia ter surgido. E até hoje isso é 
o que os mercadores e comerciantes fazem com cada vez mais sofisticação. Eles se 
esforçam e descobrem os caminhos para os mercados nos quais se dá a absorção do 
excedente de capital que, sem eles, poderiam permanecer ocultos. 
A competição força os capitalistas individuais e as corporações a buscarem luga\u2011
res melhores para produzir, assim como os força a buscar tecnologias superiores. Na 
medida em que novos