HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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locais com menores custos tornam\u2011se disponíveis, os capi\u2011
talistas sob a mira da concorrência têm de responder mudando\u2011se, se puderem. Os 
produtores de Ohio se movem para o delta do Rio das Pérolas, os da Califórnia, para 
as fábricas maquiladoras de Tijuana, os de Lancashire, para a Turquia, por exemplo. 
Mas a concorrência por lugares superiores é um tipo peculiar de competição. As 
empresas podem adotar tecnologias idênticas, mas não podem ocupar lugares idên\u2011
ticos. A competição espacial entre as empresas, como Adam Smith observou há mui\u2011
to tempo, é uma forma de concorrência monopolística. Seria ridículo se houvesse 
doze ferrovias concorrentes de Londres para Glasgow. Pelo mesmo raciocínio, a pre\u2011
sença de doze supermercados na mesma rua não faz sentido economicamente. Uma 
linha de trem de Londres para Glasgow e supermercados espalhados ao longo de 
uma metrópole fazem sentido. Por outro lado, colocar todos os comerciantes de dia\u2011
mantes ou antiquários juntos no mesmo quarteirão (ou na mesma rua, como em 
Nova York) faz sentido por cau sa das economias mútuas de aglomeração: em busca de 
um velho relógio de ouro, é bom ter várias lojas próximas para poder vasculhar bem.
O elemento de monopólio na competição espacial tem consequências de gran\u2011
de alcance numa economia baseada no mercado. Quando os custos de transporte 
são altos, por exemplo, muitos produtores nos mercados locais são protegidos da 
concorrência externa. Eles se tornam, na verdade, monopólios locais. Quando os 
custos de transporte caem, esse monopólio localizado pode se enfraquecer. A cer\u2011
veja que costumava ser fabricada e vendida apenas em mercados locais tornou\u2011se 
um item importante no comércio internacional após os custos de transporte caí\u2011
rem drasticamente a partir de meados dos anos 1960. Mesmo a água engarrafada 
agora viaja de Fiji e Evian, França, a Nova York! Isso teria parecido uma ideia ridí\u2011
cula há cinquenta anos (e em muitos aspectos ainda é ridícula, quando você pensa 
nisso. Em Nova York a água da torneira é tão boa quanto a de fora).
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Mas há outras maneiras de proteger o poder de monopólio espacial, alegando 
que não há lugar mais apropriado para a produção de determinado produto. O vi\u2011
nho dessa região, ou desse pedaço de terra \u2013 \u201cterroir\u201d, como dizem os franceses \u2013, é 
supostamente especial em virtude das circunstâncias únicas em que as uvas são cul\u2011
tivadas. Há alegações das vantagens da água de Evian ou de Fiji, por mais que ne\u2011
nhuma análise química ou teste de sabor possa realmente identificar algo de especial. 
O monopólio dado pela singularidade da localização é tão poderoso como qualquer 
outro tipo de marca no mercado, e os produtores vão se mobilizar para protegê\u2011lo. 
(Tente produzir queijo Roquefort em Wisconsin e veja o que acontece; a União 
Europeia diz que não se pode usar a palavra champagne para outra coisa a não ser o 
vinho espumante produzido em uma região particular da França.) O comércio de 
cerveja pode ser internacional, mas cervejas locais são especiais em todos os lugares. 
A concorrência pelo poder de monopólio dado pela localização privilegiada sempre 
foi e continua a ser um aspecto importante da dinâmica do capitalismo. 
A paisagem geográfica é igualmente moldada por uma perpétua tensão entre as 
economias de centralização, de um lado, e os lucros potencialmente maiores que 
vêm da descentralização e da dispersão, por outro lado. O modo de funcionamen\u2011
to dessa tensão depende das barreiras impostas à circulação espacial, à intensidade 
das economias de aglomeração e das divisões do trabalho. As instituições financei\u2011
ras podem ter sua sede em Wall Street, seus escritórios de segundo nível em Nova 
Jersey ou Connecticut e algumas funções de rotina em Bangalore. Com a diminui\u2011
ção dos custos dos transportes e das comunicações, locais anteriormente ideais se 
tornam inferiores. Fábricas outrora vibrantes e lucrativas, as siderúrgicas, as pada\u2011
rias e as cervejarias fecham as portas. O capital fixo embutido nelas se desvaloriza, 
e crises localizadas turvam a vida de todos que habitam tais locais, agora órfãos. 
Sheffield perdeu cerca de 60 mil postos de trabalho na siderurgia em cerca de 
quatro anos na década de 1980. A enorme siderúrgica Bethlehem, na Pensilvânia, 
é agora uma concha vazia e silenciosa na cidade que antes dominava, e pouco a 
pouco está sendo convertida em um cassino estridente. Enquanto isso, fábricas, 
moinhos, padarias e cervejarias abrem as portas em outro lugar. Todo o padrão 
geográfico de produção, emprego e consumo está em movimento perpétuo. 
Crises geograficamente localizadas têm sido endêmicas na história do capitalis\u2011
mo. Esgota\u2011se o minério, a mina fecha e uma cidade fantasma é deixada para trás. 
A fábrica local vai à falência por alguma razão e quase todos ficam desempregados. 
Tais crises localizadas podem desencadear uma espiral fora de controle e criar crises 
globais da ordem geográfica e econômica? Sim, podem. É exatamente o que acon\u2011
teceu quando uma série de crises imobiliárias altamente localizadas em 2006, espe\u2011
cialmente na Flórida e no Sudoeste dos EUA, tornou\u2011se global de 2007 a 2009. 
Para aqueles que continuam a viver em locais desvalorizados, os custos sociais são 
muitas vezes incalculáveis e a miséria é extrema.
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Considere\u2011se, então, um exemplo mais amplo de como tudo isso funciona. A 
pro dução do espaço em geral e da urbanização em particular tornou\u2011se um grande 
negócio no capitalismo. É um dos principais meios de absorver o excesso de ca\u2011
pital. Uma proporção significativa da força de trabalho total global é empregada 
na construção e manutenção do ambiente edificado. Grandes quantidades de capi\u2011
tais as sociados, geralmente mobilizados sob a forma de empréstimos a longo 
prazo, são postos em movimento no processo de desenvolvimento urbano. Esses in\u2011
vestimentos, muitas vezes alimentados pelo endividamento, tornaram\u2011se o epicen\u2011
tro de formação de crises. As conexões entre a urbanização, a acumulação do capital 
e a formação de crises merecem análise cuidadosa. 
Desde seus primórdios as cidades dependeram da disponibilidade de alimentos 
e trabalho excedentes. Tais excedentes foram mobilizados e extraídos de algum lu\u2011
gar e de alguém (geralmente de uma população rural explorada ou de servos e 
escravos). O controle sobre o uso e a distribuição do excedente normalmente era 
mantido em poucas mãos (uma oligarquia religiosa ou um líder militar carismá\u2011
tico). Urbanização e formação de classe, portanto, sempre andaram juntas. A rela\u2011
ção ge ral persiste no capitalismo, mas há uma dinâmica diferente. O capitalismo é 
uma sociedade de classe que se destina à produção perpétua de excedentes. Isso 
significa que está sempre produzindo as condições necessárias para a urbanização 
ocorrer. Na medida em que a absorção dos excedentes de capital e o crescimento 
das populações são um problema, a urbanização oferece uma maneira crucial para 
absorver as duas coisas. Daí surge uma conexão interna entre a produção de ex\u2011
cedente, o crescimento populacional e a urbanização. 
A história específica disso, no capitalismo, é interessante. Considere\u2011se, em pri\u2011
meiro lugar, o que aconteceu em Paris, durante o chamado Segundo Império, que 
durou de 1852 a 1870. A ampla crise econômica europeia de 1848 foi uma das 
primeiras crises claras da existência lado a lado de excedente de capital inutilizado 
e mão de obra excedente, sem aparentemente nenhuma maneira de colocá\u2011los jun\u2011
tos novamente. Atingiu principalmente Paris e o resultado foi uma revolução 
abortada por parte dos trabalhadores desempregados e dos burgueses utópicos que 
viam nu ma república social o antídoto para a ganância capitalista e a desigualdade 
que prevaleceram nos anos 1830