HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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ao capital dos EUA à população excedente global (antes apenas eu\u2011
ropeus e caucasianos eram privilegiados). No fim dos anos 1960, o governo francês 
começou a subvencionar a importação de mão de obra da África do Norte, os ale \u2011
mães transportaram os turcos, os suecos trouxeram os iugoslavos, e os britânicos 
valeram\u2011se dos habitantes do seu antigo império. 
Outra forma foi buscar tecnologias que economizassem trabalho, como a robo\u2011
tização na indústria automobilística, o que criou desemprego. Um pouco disso acon\u2011
teceu, mas houve muita resistência por parte do trabalho, que insistia em acordos 
de produtividade. A consolidação do poder de monopólio das empresas também 
enfraqueceu a implementação de novas tecnologias, porque custos laborais mais 
elevados eram transferidos para o consumidor por meio de preços mais altos 
(resultando em inflação estável). As Três Grandes empresas automobilísticas em 
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Detroit geralmente faziam isso. Seu monopólio acabou finalmente quebrado 
quan do os japoneses e alemães invadiram o mercado de automóveis dos EUA na 
década de 1980. O retorno às condições de uma maior concorrência, que se tornou 
um objetivo político fundamental nos anos 1970, então forçou o uso de tecnolo\u2011
gias que economizassem trabalho. Mas isso entrou bem tarde em jogo.
Se tudo isso falhasse, havia pessoas como Ronald Reagan, Margaret Thatcher 
e o general Augusto Pinochet à espera, armados com a doutrina neoliberal, prepa\u2011
rados para usar o poder do Estado para acabar com o trabalho organizado. Pinochet 
e os generais brasileiros e argentinos o fizeram com poderio militar, enquanto Reagan e 
Thatcher orquestraram confrontos com o grande trabalho, quer diretamente no 
caso do confronto de Reagan com os controladores de tráfego aéreo e a luta feroz 
de Thatcher com os mineiros e os sindicatos de impressão, quer indiretamente 
pela criação de desemprego. Alan Budd, conselheiro\u2011chefe econômico de Thatcher, 
mais tarde admitiu que \u201cas políticas dos anos 1980 de ataque à inflação com o 
arrocho da economia e gastos públicos foram um disfarce para esmagar os traba\u2011
lhadores\u201d, e assim criar um \u201cexército industrial de reserva\u201d, que minaria o poder 
do trabalho e permitiria aos capitalistas obter lucros fáceis para sempre. Nos EUA, 
o desemprego subiu, em nome do controle da inflação, para mais de 10% em 
1982. Resultado: os salários estagnaram. Isso foi acompanhado nos EUA por uma 
política de criminalização e encarceramento dos pobres, que colocou mais de 2 
milhões atrás das grades até 2000.
O capital também teve a opção de ir para onde o trabalho excedente estava. As 
mulheres rurais do Sul global foram incorporadas à força de trabalho em todos os 
lugares, de Barbados a Bangladesh, de Ciudad Juarez a Dongguan. O resultado foi 
uma crescente feminização da proletariado, a destruição dos sistemas campone\u2011
ses \u201ctradicionais\u201d de produção autossuficiente e a feminização da pobreza no mun\u2011
do. O tráfico internacional de mulheres para a escravidão doméstica e prostituição 
surgiu, na medida em que mais de 2 bilhões de pessoas, cada vez mais amontoadas 
em cortiços, favelas e guetos de cidades insalubres, tentava sobreviver com menos 
de dois dólares por dia.
Inundadas com capital excedente, as empresas norte\u2011americanas começaram a 
expatriar a produção em meados da década de 1960, mas esse movimento ape\u2011
nas se acelerou uma década depois. Posteriormente, peças feitas quase em qualquer 
lugar do mundo \u2013 de preferência onde o trabalho e as matérias\u2011primas fossem mais 
baratos \u2013 poderiam ser levadas para os EUA e montadas para a venda final no mer\u2011
cado. O \u201ccarro mundial\u201d e a \u201ctelevisão global\u201d tornaram\u2011se um item padrão na 
década de 1980. O capital já tinha acesso ao trabalho de baixo custo no mundo 
inteiro. Para completar, o colapso do comunismo, drástico no ex\u2011bloco soviético e 
gradual na China, acrescentou cerca de 2 bilhões de pessoas para a força de traba\u2011
lho assalariado global.
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\u201cGlobalizar\u2011se\u201d foi facilitado por uma reorganização radical dos sistemas de 
transporte, que reduziu os custos de circulação. A conteinerização \u2013 uma inovação 
fundamental \u2013 permitiu que peças feitas no Brasil pudessem ser utilizadas para 
montar carros em Detroit. Os novos sistemas de comunicações permitiram a orga\u2011
nização rigorosa da cadeia produtiva de mercadorias no espaço global (lançamen\u2011
tos da moda de Paris puderam ser quase imediatamente enviados a Manhattan por 
meio das maquiladoras de Hong Kong). Barreiras artificiais do comércio, como 
tarifas e cotas, foram reduzidas. Acima de tudo, uma nova arquitetura financeira 
global foi criada para facilitar a circulação do fluxo internacional de capital\u2011di\u2011
nheiro líquido para onde fosse usado de modo mais rentável. A desregulamentação 
das finanças, que começou no fim dos anos 1970, acelerou\u2011se depois de 1986 e 
tornou\u2011se irrefreável na década de 1990.
A disponibilidade do trabalho não é mais um problema para o capital, e não 
tem sido pelos últimos 25 anos. Mas o trabalho desempoderado significa baixos 
salários, e os trabalhadores pobres não constituem um mercado vibrante. A persis\u2011
tente repressão salarial, portanto, coloca o problema da falta de demanda para a 
expansão da produção das corporações capitalistas. Um obstáculo para a acumula\u2011
ção de capital \u2013 a questão do trabalho \u2013 é superado em detrimento da criação de 
outro \u2013 a falta de mercado. Então, como contornar essa segunda barreira?
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A lacuna entre o que o trabalho estava ganhando e o que ele poderia gastar foi 
preenchida pelo crescimento da indústria de cartões de crédito e aumento do endi\u2011
vidamento. Nos EUA, em 1980 a dívida agregada familiar média era em torno de 
40 mil dólares (em dólares constantes), mas agora é cerca de 130 mil dólares para 
cada família, incluindo hipotecas. As dívidas familiares dispararam, o que deman\u2011
dou o apoio e a promoção de instituições financeiras às dívidas de trabalhadores, 
cujos rendimentos não estavam aumentando. Isso começou com a população cons\u2011
tantemente empregada, mas no fim da década de 1990 tinha de ir mais longe, pois 
esse mercado havia se esgotado. O mercado teve de ser estendido para aqueles com 
rendimentos mais baixos. Instituições financeiras como Fannie Mae e Freddie Mac 
foram pressionadas politicamente para afrouxar os requerimentos de crédito para 
todos. As ins tituições financeiras, inundadas com crédito, começaram a financiar a 
dívida de pessoas que não tinham renda constante. Se isso não tivesse acontecido, 
então quem teria comprado todas as novas casas e condomínios que os promotores 
de imóveis com financiamento estavam construindo? O problema da demanda foi 
temporariamente superado, no que diz respeito à habitação, pelo financiamento da 
dívida dos empreendedores, assim como dos compradores. As instituições finan\u2011
ceiras controlavam coletivamente tanto a oferta quanto a demanda por habitação!
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Razão das prestações da dívida ao consumidor
Fonte: Conselho dos Governadores, Conselho do Federal Reserve, razões das prestações da dívida residencial e obrigações \ufffdnanceiras
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