HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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1992 2000 2006
1988198019721964195619481940193219241916 1996 2004
A grande bolha da dívida estadunidense
Fonte: Barron\u2019s, 21 de fevereiro, atualizado em 2006
335%, 2006
304%, 2004
176%, topo do mercado de ações em 1929
269%, topo do mercado de ações em 2000
287%, Roosevelt desvaloriza o dólar em 40%, em 1933
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A mesma história ocorreu com todas as formas de crédito ao consumo para todos 
os produtos, desde automóveis e cortadores de grama até fácil acesso a cartões de pre\u2011
sente de Natal na Toys \u2018R\u2019 Us e Wal\u2011Mart. Todo esse endividamento era obviamente 
arriscado, mas isso era para ser controlado por maravilhosas inovações financeiras de 
securitização que, supostamente, partilhariam o risco, criando a ilusão de que este tinha 
desaparecido. O capital financeiro fictício assumiu o controle e ninguém queria pará\u2011lo 
porque todo mundo que importava parecia estar fazendo muito dinheiro. Nos EUA, 
as contribuições políticas de Wall Street subiram. Você se lembra da famosa pergunta 
retórica de Bill Clinton quando ele assumiu o cargo? \u201cVocê quer me dizer que o suces\u2011
so do programa econômico e minha reeleição dependeram da Federal Reserve e de 
um monte de negociantes de títulos?\u201d Clinton não era mais que um aprendiz astuto.
Mas havia outra maneira de resolver o problema da demanda: a exportação do 
capital e o cultivo de novos mercados ao redor do mundo. Essa solução, tão antiga 
quanto o próprio capitalismo, foi perseguida com mais determinação a partir dos 
anos 1970. Os bancos de investimento de Nova York, então lotados de excedentes 
de petrodólares dos Estados do Golfo e desesperados por novas oportunidades de 
investimento num momento em que o potencial de rentabilidade de investimento 
dentro dos Estados Unidos estava exausto, fizeram empréstimos maciços para países 
em desenvolvimento como México, Brasil, Chile e até mesmo Polônia. Isso aconte\u2011
ceu porque, como Walter Wriston, chefe do Citibank, colocou, países não podem 
desaparecer \u2013 você sempre sabe onde encontrá\u2011los em caso de dificuldades.
As dificuldades logo surgiram com a crise da dívida dos países em desenvolvi\u2011
mento da década de 1980. Mais de quarenta países, principalmente na América 
Latina e África, tiveram dificuldade em pagar suas dívidas quando as taxas de juros 
de repente subiram após 1979. O México ameaçou ir à falência em 1982. Os Es\u2011
tados Unidos prontamente revigoraram o Fundo Monetário Internacional (FMI) 
(que a gestão Reagan tinha procurado enfraquecer em 1981, em conformidade 
com o princípio neoliberal estrito) como um disciplinador global, para assegurar 
aos bancos que teriam seu dinheiro de volta e que as pessoas seriam obrigadas a pa\u2011
gar. Os \u201cprogramas de ajuste estrutural\u201d do FMI, que impuseram austeridade a fim 
de pagar aos bancos, proliferaram em todo o mundo. O resultado foi uma cres\u2011
cente onda de \u201crisco moral\u201d nas práticas de empréstimo dos bancos internacionais. 
Por um tempo, essa prática foi um enorme sucesso. No vigésimo aniversário do 
socorro financeiro mexicano, o economista\u2011chefe da Morgan Stanley saudou tal so\u2011
corro como \u201cum fator que preparou o espaço para aumentar a confiança dos inves\u2011
tidores em todo o mundo e ajudou a inflamar o mercado de crescimento do fim 
dos anos 1990, junto com uma forte expansão econômica dos EUA\u201d. Salvar os 
bancos e arre bentar com o povo funcionou às mil maravilhas \u2013 para os banqueiros.
Mas para que tudo isso fosse realmente eficaz, era preciso construir um sistema 
globalmente interligado de mercados financeiros. Dentro dos Estados Unidos, as 
restrições geográficas sobre o setor bancário foram retiradas passo a passo a partir do 
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fim dos anos 1970. Até então, todos os bancos, exceto os de investimento \u2013 que 
foram separados judicialmente de instituições de conta corrente \u2013, tinham sido con\u2011
finados a operar dentro de um Estado, enquanto as empresas de poupança e emprés\u2011
timos financiavam hipotecas, que eram separadas dos bancos de conta corrente. Mas 
a integração dos mercados financeiros global e nacional também foi vista como 
vital e isso levou, em 1986, à articulação de ações globais e mercados de negocia\u2011
ção financeira. O \u201cBig Bang\u201d, como foi chamado na época, conectava Londres e 
Nova York e imediatamente a seguir todos os mais importantes mercados financei\u2011
ros mundiais (e em última instância, locais) em um único sistema de negociação. 
Nesse sentido, os bancos puderam operar livremente sem levar em consideração 
fronteiras (em 2000 a maioria dos bancos do México era estrangeira, e o HSBC es\u2011
tava em toda parte, referindo\u2011se a si mesmo carinhosamente como \u201co banco do 
povo local global\u201d). Isso não significa que não havia barreiras aos fluxos de capitais 
internacionais, mas barreiras técnicas e logísticas ao fluxo de capital global certa\u2011
mente foram muito diminuídas. O capital\u2011dinheiro líquido podia vaguear mais fa\u2011
cilmente pelo mundo à procura de locais onde a taxa de retorno fosse maior. A 
suspensão da distinção entre bancos de investimento e conta corrente nos Estados 
Unidos em 1999, que já estava em vigor desde a Lei Glass\u2011Steagall de 1933, inte\u2011
grou ainda mais o sistema bancário em uma rede gigante do poder financeiro.
Mas na medida em que o sistema financeiro se globalizou, a competição entre 
os centros financeiros \u2013 principalmente Londres e Nova York \u2013 cobrou seu pedágio 
coercivo. As sucursais de bancos internacionais, como Goldman Sachs, Deutsche 
Bank, UBS, RBS e HSBC, internalizaram a concorrência. Se o regime regulador 
em Londres era menos rigoroso do que nos EUA, então as filiais na cidade de Lon\u2011
dres começaram o negócio, em vez de Wall Street. Como o negócio lucrativo fluía 
naturalmente para onde o regime regulatório fosse mais relaxado, a pressão política 
sobre os reguladores para olhar para outras questões crescia. Michael Bloomberg, 
o prefeito de Nova York, encomendou um relatório em 2005 que concluiu que 
regulamentação excessiva nos EUA ameaçava as futuras companhias financeiras de 
sua cidade. Toda a gente em Wall Street, juntamente com o \u201cPartido de Wall Street\u201d 
no Congresso, ecoou essas conclusões.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
O sucesso da política de repressão salarial depois de 1980 permitiu que os ricos 
ficassem muito ricos. Dizem\u2011nos que isso é bom porque os ricos vão investir em 
novas atividades (depois de satisfazer sua necessidade competitiva de se deleitar com 
o consumo conspícuo, é claro). Bem, sim, eles investem, mas não necessariamente 
direto na produção. A maioria deles prefere investir em ações. Por exemplo, eles 
colocam dinheiro no mercado de ações e o valor das ações sobe, então colocam 
ainda mais dinheiro, independentemente de quão bem as empresas em que inves\u2011
tem estão de fato. (Você se lembra das previsões do fim dos anos 1990 da Dow em 
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35 mil?) O mercado de ações tem um caráter Ponzi, mesmo sem os Bernies Madoffs 
deste mundo precisarem organizá\u2011lo explicitamente assim. Os ricos apostaram alto 
em todo tipo de ativos, incluindo ações, propriedades, recursos, petróleo e outras 
mercadorias futuras, bem como o mercado de arte. Eles também investiram no ca\u2011
pital cultural com o patrocínio de museus e todo o tipo de atividades culturais 
(tornando assim a chamada \u201cindústria cultural\u201d uma estratégia preferida para o de\u2011
senvolvimento econômico urbano). Quando o Lehman Brothers quebrou, o Museu 
de Arte Moderna de Nova York perdeu um terço de sua receita de patrocínio.
Novos mercados estranhos surgiram, liderados pelo que se tornou conhecido 
como \u201csistema de banco às escuras\u201d, permitindo o investimento em trocas de cré\u2011
dito, derivativos de moeda e assim por diante. O mercado de futuros abarcou tudo 
desde o comércio de direitos de poluição