HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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Como valores de ativos foram pressionados para cima, isso afetou o conjunto 
da economia. As ações eram uma coisa, mas a propriedade era outra. Tornou\u2011se 
quase impossível comprar ou até mesmo morar em Manhattan, a menos que você 
se endividasse incrivelmente. Todo mundo foi pego nessa inflação de ativos, in\u2011
* Termo pelo qual o dólar neozelandês é informalmente conhecido e que se refere ao pássaro kiwi, 
símbolo nacional da Nova Zelândia que estampa a moeda de um dólar. (N. E.)
** Nova York, Times Books, 2003. (N. E.)
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cluindo as classes trabalhadoras cujos rendimentos não aumentavam. Se os super\u2011
\u2011ricos podiam fazê\u2011lo, porque não um trabalhador que pode comprar uma casa 
em condições de crédito fácil e tratá\u2011la como uma máquina de sacar dinheiro em 
processo de valorização para cobrir emergências de saúde, enviar os filhos para a 
faculdade ou fazer um cruzeiro pelo Caribe?
Mas a inflação dos ativos não pode continuar para sempre. Agora é a vez dos 
Estados Unidos de experimentar a dor dos ativos em queda, mesmo que os políti\u2011
cos do país façam seu melhor para exportar sua versão perversa de capitalismo para 
o resto do mundo.
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
A relação entre representação e realidade no capitalismo sempre foi proble\u2011
mática. Dívida refere\u2011se ao valor futuro de bens e serviços. Isso sempre envolve um 
palpite, que é definido pela taxa de juros, descontando no futuro. O crescimento 
da dívida desde os anos 1970 se refere a um problema fundamental subjacente, que 
eu chamo de \u201cproblema da absorção do excedente de capital\u201d. Os capitalistas estão 
sempre produzindo excedentes na forma de lucro. Eles são forçados pela concor\u2011
rência a recapitalizar e investir uma parte desse excedente em expansão. Isso exi ge 
que novas saídas lucrativas sejam encontradas.
O eminente economista britânico Angus Maddison passou a vida tentando re\u2011
colher dados sobre a história da acumulação de capital. Em 1820, ele calculou, a 
produção total de bens e serviços na economia capitalista mundial valia 694 bilhões 
de dólares (em dólares constantes de 1990). Por volta de 1913 tinha subido para 2,7 
trilhões de dólares; em 1950, para 5,3 trilhões de dólares; em 1973, para 16 trilhões 
de dólares e até 2003 estava em quase 41 trilhões de dólares. O mais recente Relató\u2011
rio de Desenvolvimento do Banco Mundial de 2009 a coloca (em dólares correntes) 
em 56,2 trilhões dólares, dos quais os EUA respondem por quase 13,9 trilhões de 
dólares. Ao longo da história do capitalismo, a taxa composta de crescimento real foi 
de cerca de 2,25%/ ao ano (negativa em 1930 e muito maior \u2013 cerca de 5% \u2013 no 
período de 1945 a 1973). O consenso atual entre os economistas e na imprensa fi\u2011
nanceira é que uma economia \u201csaudável\u201d do capitalismo, em que a maioria dos ca\u2011
pitalistas obtém um lucro razoável, expande\u2011se em 3% ao ano. Quan do se cresce 
menos do que isso, a economia é considerada lenta. Quando se obtém abaixo de 
1%, a linguagem de recessão e a crise estouram (muitos capitalistas não têm lucro).
O primeiro\u2011ministro britânico Gordon Brown, num ataque de otimismo injus\u2011
tificado, defendeu no fim do outono de 2009 que era possível antever a economia 
mundial dobrando nos próximos vinte anos. Obama também acredita que estare\u2011
mos de volta a 3% de crescimento \u201cnormal\u201d em 2011. Se assim for, haverá mais de 
100 trilhões de dólares na economia global até 2030. Saídas lucrativas teriam então 
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de ser encontradas a um valor extra de 3 trilhões de dólares de investimento. Essa 
é uma cifra muito alta.
Pense nisso desta maneira. Quando o capitalismo era composto de atividades den\u2011
tro um raio de cem quilômetros em torno de Manchester e Birmingham, na Inglater\u2011
ra, e alguns outros pontos centrais em 1750, a acumulação de capital a uma taxa 
composta de 3% a um nível aparentemente infinito não representava um grande pro\u2011
blema. Mas agora pense no crescimento composto infinito não só em relação a tudo o 
que está acontecendo na América do Norte, Oceania e Europa, mas também no Leste 
e Sudeste da Ásia, assim como em grande parte da Índia e do Oriente Médio, América 
Latina e áreas significantes da África. A tarefa de manter o capitalismo crescendo a 
esse ritmo composto é assustadora. Mas por que 3% de crescimento pressupõem 3% 
de reinvestimento? Isso é um dilema que precisa ser abordado. (Fique antenado!)
Há um grave problema subjacente, particularmente desde a crise de 1973 a 
1982, sobre como absorver montantes de capital excedente na produção de bens e 
serviços cada vez maiores. Durante os últimos anos, as autoridades monetárias 
como o Fundo Monetário Internacional têm comentado que \u201co mundo está inun\u2011
dado com excesso de liquidez\u201d, isto é, há uma massa crescente de dinheiro à pro\u2011
cura de algo rentável para colocar\u2011se. Na crise dos anos 1970, grandes excedentes 
de dólares ficaram empilhados nos Estados do Golfo como resultado do aumento 
dos preços do petróleo. Foram então reciclados na economia mundial pelos ban\u2011
cos de investimento de Nova York, que emprestaram imensamente para os países 
Crescimento do PIB: o mundo e as principais regiões, 1950-2030
Níveis em bilhões de dólares (1990) Taxa anual média
da mudança
1950 1973 1990 2003 2030 1990-2003 2003-30
Europa ocidental 1.396 4.097 6.033 7.857 12.556 2,05 1,75
EUA 1.456 3.537 5.803 8.431 16.662 2,91 2,56
Austrália, Canadá, Nova Zelândia 180 522 862 1.277 2.414 3,07 2,39
Japão 161 1.243 2.321 2.699 3.488 1,17 0,95
\u201cRICOS\u201d 3.193 9.399 15.019 20.264 35.120 2,33 2,06
Europa Oriental 185 551 663 786 1.269 1,33 1,79
Rússia 315 872 1.151 914 2.017 -1,76 2,98
Outros países da antiga URSS 199 641 837 638 1.222 -2,17 2,43
América Latina 416 1.389 2.240 3.132 6.074 2,61 2,48
China 245 739 2.124 6.188 22.983 8,56 4,98
Índia 222 495 1.098 2.267 10.074 5,73 5,68
Outros países da Ásia 363 1.387 3.099 5.401 14.884 4,36 3,83
África 203 550 905 1.322 2.937 2,96 3,00
\u201cRESTO\u201d 2.148 6.624 12.117 20.648 61.460 4,19 4,12
MUNDO 5.341 16.022 27.136 40.913 96.580 3,21 3,23
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em desenvolvimento, preparando o cenário para a eclosão da crise mundial da 
dívida da década de 1980.
Cada vez menos capital excedente tem sido absorvido na produção (apesar de 
tudo o que aconteceu na China) porque as margens de lucro global começaram a 
cair depois de um breve ressurgimento na década de 1980. Numa tentativa desespe\u2011
rada de encontrar mais locais para colocar o excedente de capital, uma vasta onda de 
privatização varreu o mundo, tendo sido realizada sob a alegação dogmática de que 
empresas estatais são ineficientes e desengajadas por definição, e a única maneira de 
melhorar seu desempenho é passá\u2011las ao setor privado. O dogma não resiste a qualquer 
análise pormenorizada. Algumas empresas estatais são de fato ineficientes, mas ou\u2011
tras não são. Basta viajar pela rede ferroviária francesa e compará\u2011la aos sistemas 
pateticamente privatizados nos EUA e Inglaterra. E nada poderia ser mais ineficien\u2011
te e perdulário do que o sistema de saúde privado nos Estados Unidos (o Medicare, 
o segmento estadual, tem custos de manutenção muito menores). Não importa. 
Indústrias administradas pelo Estado, assim seguiu o mantra, tiveram de ser abertas 
ao capital privado, que não tinham para onde ir, e serviços de utilidade pública co\u2011
mo água, eletricidade, telecomunicações e transporte \u2013 para não falar de habitação, 
educação e saúde \u2013 tiveram de ser abertas para as bênçãos da iniciativa privada e a 
economia de mercado. Em alguns casos pode ter havido ganhos de efi ciência, mas 
em outros não. O que se tornou evidente, no entanto, foi que os empresários que 
compraram esses bens públicos, em geral com bons descontos, rapidamente se tor\u2011
naram bilionários.