HARVEY, David. O Enigma do Capital
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HARVEY, David. O Enigma do Capital


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O mexicano Carlos Slim Helú, classificado como o terceiro ho\u2011
mem mais rico do mundo pela revista Forbes em 2009, teve seu grande êxito com a 
privatização das telecomunicações do México no início dos anos 1990. A onda de 
privatizações num país marcado por sua pobreza catapultou vários mexicanos para 
a lista de mais ricos da Forbes em um curto prazo. A terapia de choque de mercado 
na Rússia pôs sete oligarcas no controle de quase metade da economia dentro de 
alguns anos (Putin tem lutado contra eles desde então).
À medida que mais capital excedente entrou na produção na década de 1980, 
particularmente na China, a concorrência intensificada entre os produtores começou 
a colocar pressão sobre os preços (como visto no fenômeno do Wal\u2011Mart com preços 
cada vez menores para os consumidores dos EUA). Os lucros começaram a cair de\u2011
pois de mais ou menos 1990, apesar da abundância de trabalhadores com baixos sa\u2011
lários. Salários e lucros baixos são uma combinação peculiar. Como resultado, cada 
vez mais dinheiro entrou na especulação em ativos, porque era onde lucros eram 
passíveis de ser realizados. Por que investir em produção de baixo lucro, quando vo cê 
pode tomar emprestado no Japão sem taxa de juros e investir em Londres a 7% com 
cobertura para seus investimentos em caso de uma possível e deletéria mudança na 
taxa de câmbio iene\u2011libra? Em qualquer caso, foi mais ou menos nesse período que 
ocorreu a explosão da dívida e os novos mercados de derivativos decolaram, o que, 
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juntamente com a infame bolha ponto.com da internet, sugou uma vasta quantidade 
de capital excedente. Quem precisava se preocupar com o investimento na produ\u2011
ção quando tudo isso estava acontecendo? Esse foi o momento em que a financeiri\u2011
zação da tendência de crise do capitalismo começou de fato.
O crescimento a 3% para sempre está funcionando com sérias restrições. 
Exis tem restrições ambientais, de mercado, de rentabilidade e espaciais (apenas zo\u2011
nas importantes da África, embora completamente devastadas pela exploração de 
seus recursos naturais, bem como remotas regiões em geral no interior da Ásia 
e da América Latina, ainda não foram totalmente colonizadas pela acumulação 
de capital). 
A virada para a financeirização desde 1973 surgiu como uma necessidade. Ofe\u2011
receu uma forma de lidar com o problema da absorção do excedente. Mas de onde 
viria o dinheiro em excesso, o excesso de liquidez? Na década de 1990, a resposta 
foi clara: aumento do endividamento em relação ao capital existente. Os bancos 
normalmente emprestam, digamos, três vezes o valor de seus depósitos sob a lógica 
de que os devedores nunca deixarão de pagar ao mesmo tempo. Quando um banco 
se defronta com muita inadimplência, certamente tem de fechar suas portas por\u2011
que nunca vai ter dinheiro suficiente em mãos para cobrir suas obrigações. A partir 
da década de 1990, os bancos elevaram a razão dívida\u2011capital frequentemente con\u2011
cedendo empréstimos uns aos outros. O setor bancário tornou\u2011se mais endividado 
do que qualquer outro da economia. Até 2005, a razão chegou a estar tão alta 
como 30 para 1. Não admira que o mundo parecesse estar inundado com excesso 
de liquidez. Excedentes de capital fictício criados dentro do sistema bancário 
absorveram o excedente! Era quase como se a comunidade bancária tivesse se reti\u2011
rado para a cobertura do capitalismo na qual fabricava uma grande quantidade 
de dinheiro pelo comércio e endividamento entre os próprios bancos sem qual\u2011
quer noção do que os trabalhadores que vivem no porão estavam fazendo.
Mas quando um par de bancos começou a ter problemas, a confiança entre os 
bancos erodiu e a liquidez fictícia sobre dívidas desapareceu. O desendividamen\u2011
to começou, o que provocou perdas maciças e desvalorizações do capital dos bancos. 
Tornou\u2011se então claro para aqueles no porão o que os habitantes da cobertura 
haviam feito nos últimos vinte anos. 
As políticas governamentais têm agravado em vez de amenizar o problema. O 
termo \u201csocorro nacional\u201d é impreciso. Os contribuintes estão simplesmente so\u2011
correndo os bancos, a classe capitalista, perdoando\u2011lhes dívidas e transgressões, 
somente isso. O dinheiro vai para os bancos, mas até agora nos EUA não para os 
proprietários que foram despejados ou a população em geral. Os bancos estão usan\u2011
do o dinheiro, não para empréstimos, mas para reduzir o desnível dívida\u2011capital 
e comprar outros bancos. Eles estão ocupados em consolidar seu poder. Esse trata\u2011
mento desigual provocou uma onda de raiva política populista daqueles que vivem 
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no porão contra as instituições financeiras, apesar de a direita e muitos na mídia 
chamarem de irresponsáveis os proprietários que vão com muita sede ao pote. Me\u2011
didas mornas para ajudar as pessoas, claramente muito atrasadas, são então pro\u2011
postas para impedir o que poderia ser uma séria crise de legitimidade para o 
futuro do poder dominante da classe capitalista. Podemos voltar à economia ali\u2011
mentada pelo crédito, uma vez que os bancos comecem a emprestar novamente? Se 
não, por quê?
\u2014\u2014\u2726\u2014\u2014
Nos últimos trinta anos viu\u2011se uma reconfiguração dramática da geografia da 
produção e da localização do poder político\u2011econômico. No fim da Segunda 
Guerra Mundial, entendeu\u2011se que a concorrência intercapitalista e o protecionis\u2011
mo estatal haviam desempenhado um papel importante nas rivalidades que leva\u2011
ram à guerra. Se a paz e a prosperidade deveriam ser alcançadas e mantidas, um 
quadro mais aberto e seguro para a negociação política e o comércio internacio\u2011
nais, um quadro a partir do qual todos poderiam se beneficiar a princípio, tinha 
de ser criado. A principal potência capitalista da época, os Estados Unidos, usou 
sua posição dominante para ajudar a criar, juntamente com seus principais aliados, 
um novo quadro para a ordem global. Incentivou a descolonização e o desmante\u2011
lamento dos impérios anteriores (britânico, francês, holandês etc.) e intermediou o 
nascimento das Nações Unidas e do Acordo de Bretton Woods de 1944, que de\u2011
finiu as regras do comércio internacional. Quando a Guerra Fria começou, os 
EUA usaram seu poderio militar para oferecer (\u201cvender\u201d) proteção a todos aqueles 
que optaram por alinhar\u2011se com o mundo não comunista.
Os Estados Unidos, enfim, assumiram a posição de poder hegemônico dentro 
do mundo não comunista. Lideraram uma aliança global para manter a maior 
parte possível do mundo aberta para absorver o excedente de capital. Seguiram sua 
própria agenda por mais que parecessem agir para o bem universal. O apoio 
oferecido pelos EUA para estimular a recuperação capitalista na Europa e no Japão 
logo após a Segunda Guerra Mundial foi um exemplo de tal estratégia. Governaram 
com uma mistura de coerção e consentimento.
Na conferência de Bretton Woods de 1944, o renomado economista John May\u2011
nard Keynes, o negociador britânico, buscou uma unidade de moeda global fora 
do controle de qualquer uma das nações. Os EUA rejeitaram essa ideia, insistindo 
que o dólar dos EUA tinha esse papel, apoiado por uma taxa de câmbio fixa 
do dólar em relação ao ouro. Todas as outras moedas fixaram então sua taxa de câm\u2011
bio com base no dólar para facilitar o comércio global. Obviamente não havia 
necessidade para qualquer mercado de futuros de moeda porque a taxa de câm\u2011
bio no prazo de seis meses era conhecida, impedindo, naturalmente, desvaloriza\u2011
ções ocasionais catastróficas. As crises financeiras \u2013 ao contrário de crises de super\u2011
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produção do tipo que levou a graves crises em 1958 e 1966 \u2013 foram raras sob 
esse sistema. Os poderes do capital financeiro, embora importantes, estavam 
circunscritos e eram razoavelmente transparentes.
O sistema funcionou