ORTIGOZA & CORTEZ. Da produção ao consumo    impactos socioambientais no espaço urbano
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ORTIGOZA & CORTEZ. Da produção ao consumo impactos socioambientais no espaço urbano


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as diferenças nas escalas espaciais e temporais, as 
diversas metodologias de estudo e os tipos de dados utilizados no seu 
estudo. Por um lado, a infl uência do aquecimento global (AG) sobre 
o clima urbano é mal conhecida e muitas vezes abordada de forma 
demasiado simplista. Por outro, a tomada de medidas de mitigação 
efi cazes implica o conhecimento do papel desempenhado pelas áreas 
urbanas no AC (Alcoforado et al, 2008).
Embora muitas vezes se conclua que o aquecimento do planeta 
dará lugar a um incremento das IC, tal poderá também não ocorrer. 
A IC é calculada como a diferença de temperatura centro-periferia 
e essas diferenças podem permanecer constantes (Oke, 1997). A 
intensidade da IC pode mesmo decrescer, se ocorrer um incremento 
da instabilidade vertical da atmosfera, associado a temperaturas mais 
elevadas (Brázdil & Budíková, 1999). A evolução da IC dependerá 
igualmente das mudanças na frequência dos diferentes tipos de 
tempo que a condicionam (Oke, 1987; Morris & Simmonds, 2000). 
O processo de urbanização é uma das principais interferências 
da mudança na natureza da superfície do solo e nas propriedades at-
mosféricas presentes na Camada Limite Urbana (UCL). Essa trans-
formação resulta em mudanças dos ventos regionais, na geometria 
da radiação solar e da insolação e emissão de poluentes, propiciando 
as temperaturas mais elevadas nas zonas urbanas consolidadas em 
comparação com as zonas periféricas ou rurais. 
Essas variações térmicas observadas entre as zonas urbanas e 
rurais podem chegar até 10ºC, tendo como causas principais a subs-
tituição da vegetação natural pelo excesso de concreto e asfalto e o 
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adensamento das edifi cações e ações antrópicas (Lombardo, 1985). 
Os principais efeitos nocivos apontados por vários autores (Rosen-
zweig et al., 2004; Givoni, 1998; Lombardo, 1985) são:
1. redução da evapotranspiração e evaporação, pela ausência de 
vegetação e água disponível;
2. altas temperaturas que ocorrem nas áreas mais impermea-
bilizadas, em decorrência dos efeitos combinados das várias 
características do sítio construído, provocam baixa pressão 
atmosférica nessas áreas, gerando uma circulação local da 
massa de ar;
3. ocorrência de inundações nessas áreas, pela presença ocasional 
de chuvas intensas.
Parte da problemática relativa às alterações climáticas do meio am-
biente urbano é proveniente da degradação dos recursos naturais cau-
sando grandes impactos na qualidade ambiental, com refl exos diretos 
aos habitantes. Atualmente essa problemática vem despertando a 
atenção de especialistas nacionais e internacionais, com enfoque inter-
multidisciplinar e de abrangência tanto global como regional e local.
Com a expansão das cidades, há geralmente uma diminuição 
das áreas verdes e de suas superfícies líquidas, que são substituídas 
pelo asfalto e pelo concreto, resultando em áreas impermeabilizadas 
e favorecendo a ocorrência do fenômeno típico do clima urbano co-
nhecido por ilhas de calor. Sua intensidade depende das condições 
micro e mesoclimáticas locais das cidades (Monteiro, 2003). Esse 
fenômeno tem sua origem na transmissão de calor que se dá pela 
condutividade térmica dos materiais de revestimento que compõem 
a cidade, na inércia termal e na sua conversão em calor sensível, nas 
disfunções no albedo dos materiais de superfícies e na interação de 
gases poluentes (Assis, 2000).
A emissão de poluentes também tem forte infl uência nas elevadas 
temperaturas, principalmente em áreas com atividades comerciais e 
industriais devido ao elevado fl uxo de veículos em horários de picos, 
pois a camada de poluentes pode reduzir a radiação solar direta por re-
fl etir parte dela, difi cultando a dispersão do calor (Lombardo, 1985).
DA PRODUÇÃO AO CONSUMO 121
O conhecimento das variabilidades climáticas, espaço das chuvas, 
descargas dos rios, de fatores ambientais, socioculturais, condições de 
uso e conservação dos seus recursos naturais permite planejar, evitar 
ou atenuar os efeitos do excesso ou da falta de água. A Organização 
Mundial da Saúde (OMC) mostra que os recursos hídricos consti-
tuem um importante aliado para a implementação de ações de saúde 
e ambiente, haja vista a necessidade de água para a vida humana, agri-
cultura e a geração de energia. É fundamental considerar o impacto da 
variabilidade climática e da mudança climática nos recursos hídricos, 
a fi m de ter políticas e estratégias claras e mecanismos e ferramentas 
efetivos para proteger os recursos hídricos contra a poluição.
A Organização Meteorológica Mundial (World Meteorological 
Organization \u2013WMO) tem alertado sobre as questões climáticas e 
o uso inefi ciente das fontes de energia urbana e suas implicações na 
saúde da população. A WMO divulgou o documento Urban design in 
different climates, de autoria de Givoni Baruch, no qual se propõem 
algumas medidas principais relacionadas ao clima da cidade como, 
por exemplo, o uso de diferentes tipos e tamanhos de vegetação nos 
espaços públicos e privados.
A vegetação em suas diferentes formas infl uencia decisivamente 
no controle da qualidade ambiental. Os espaços urbanos com a pre-
sença da cobertura vegetal têm um efeito amenizador do aquecimento 
térmico gerado pelas edifi cações e superfícies pavimentadas, além 
de contribuir para a minimização do efeito estufa (Givoni, 1998). 
A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), considerada a 
maior área urbana brasileira, com cerca de 18 milhões de habitantes, 
apresenta, hoje, um dos quadros mais críticos do país no que diz 
respeito à alteração da temperatura por causa do aumento do dióxido 
de carbono (CO2). Isso ocorre devido ao grande número de usuários 
de transporte individual, o que acaba produzindo mais da metade 
de toda a poluição atmosférica da cidade. Além disso, o CO2 gera 
o efeito estufa, o que agrava a situação ambiental, comprometendo 
a qualidade do meio ambiente para seus habitantes. A causa está 
na falta de organização espacial-territorial e na gestão dos recursos 
naturais ao longo de sua história.
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No caso da metrópole de Lisboa a redução dos níveis de dióxido 
de carbono está na pauta de vários programas fi nanciados pela União 
Europeia. A cidade de Lisboa estende-se pela margem direita do rio 
Tejo e está próxima ao oceano, mas, ao mesmo tempo, isolada dele 
pela Serra de Monsanto ao ocidente, pelas elevações que constituem 
a Serra da Carregueira a noroeste e pela Serra de Sintra, mais dis-
tante \u2013 isso confere características peculiares ao seu clima. Segundo 
Alcoforado (1993, p.303), foi verifi cada a grande infl uência do relevo 
movimentado da cidade e dos padrões variados de morfologia urbana 
nos contrastes térmicos espaciais.
No estudo da poluição em Lisboa, a autora afi rma que a con-
centração de \u201cfumos negros\u201d é maior no período de inverno e na 
região da Baixa Lisboeta. Quando esses poluentes se apresentam em 
grandes concentrações ocorre a diminuição da radiação solar direta 
e difi culta-se a irradiação terrestre. Assim, Alcoforado analisou a 
formação frequente de ilhas de calor bem marcadas durante as noites 
de inverno (idem, p.305).
Todas essas questões implicam um planejamento do desenvolvi-
mento urbano que se utilize de instrumentos e estratégias ambientais 
inseridas em políticas públicas com o objetivo de conservar o máximo 
do ambiente natural promovendo o desenvolvimento econômico e 
social sustentável. Qualidade de vida torna-se, portanto, a expres-
são de padrões de produção e reprodução social e transforma-se 
no mesmo ritmo de transformação desses padrões (Leite, 1994). A 
institucionalização da proteção do ambiente e da qualidade de vida 
pode ser definida como um processo de corporificação de certas 
práticas da sociedade em organizações,