LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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o infra-real e o supra-real. Qual via?
A traçada por Nietzsche, o eruptivo, o disrruptivo. G. Bataille acentua os desvios, aprofunda os
abismos ao invés de preenchê-los; depois jorra o clarão da intuição-intenção explosiva que vai de
uma borda à outra, da terra ao sol, da noite ao dia, da vida à morte. Mas também da lógica à
heterológica, do normal ao hetero-nômico (então além e aquém do a-nômico). O espaço inteiro,
mental, físico e social, se apreende tragicamente. Se existe centro e periferia, o centro tem sua
realidade trágica, a do sacrifício, da violência, da explosão. A periferia igualmente, à sua maneira.
43) Ao oposto, muito exatamente, dos surrealistas e de G. Bataille, na mesma época, um teórico da
técnica entreviu uma teoria unitária do espaço. J. Lafitte, muito esquecido, confiava a exploração da
realidade material, do conhecimento, do espaço social a uma \u201cmecanologia\u201d, ciência geral dos
dispositivos técnicos25. J. Lafitte perseguia algumas pesquisas de Marx resumidas por K. Axelos 26.
Ele não dispunha de elementos e conceitos indispensáveis, ignorando a informática e a cibernética, e
por conseguinte a diferença entre máquinas de informação e máquinas de energias massivas. A
hipótese unitária não é menos atualizada por J. Lafitte, com um \u201crigor\u201d característico da ideologia
tecnocrática-funcional-estruturalista, rigor que culmina em proposições as mais arriscadas, em
encadeamentos conceituais dignos da ficção científica. É a utopia tecnocrática! Assim esse autor
introduz como explicativas da história, analogias entre as \u201cmáquinas passivas\u201d, portanto estáticas,
correspondentes aos vegetais, e a arquitetura. Enquanto as \u201cmáquinas ativas\u201d, mais dinâmicas, mais
\u201creflexas\u201d, corresponderiam aos animais. A partir desses conceitos, J. Lafitte construiu séries
 
25 Cf. Réflexions sur la science des machines , publicado em 1932, republicado em 1972 (Vrin, Paris, com um prefácio de J.
Guillerme).
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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evolutivas ocupando o espaço; ele reproduziu audaciosamente a gênese da natureza, do
conhecimento, da sociedade: \u201cAtravés do desenvolvimento harmonioso desses três grandes cortes,
séries ao mesmo tempo divergentes e complementares\u201d27.
44) A hipótese de J. Lafitte anunciava muitas outras, do mesmo gênero. Esse pensamento reflexivo
da tecnicidade coloca à frente o explicitado, o declarado \u2013 não apenas o racional, mas o intelectual,
afastando de imediato o lateral, o hetero-lógico, o que se dissimula na práxis, e ao mesmo tempo o
pensamento que descobre o que se dissimula. Como se tudo, no espaço do pensamento e do social, se
reduzisse à frontalidade, ao \u201cface a face\u201d.
45) I.10 Se é certo que a pesquisa de uma teoria unitária do espaço (físico, mental, social) se perfila
já há algumas dezenas de anos, por que e como ela foi abandonada? Por que muito vasta, emergindo
de um caos de representações, umas poéticas, subjetivas, especulativas, - outras marcadas pelo
tampão da positividade técnica? Ou então por que estéril?...
46) Para compreender o que se passou, é preciso remontar a Hegel, essa Place de l\u2019Étoile dominada
pelo Monumento filosófico-político. Segundo o hegelianismo, o Tempo histórico engendra o Espaço
onde se estende e sobre o qual reina o Estado. A história não realiza o arquétipo do ser racional num
indivíduo, mas num conjunto coerente de instituições, de grupos e de sistemas parciais (o direito, a
moral, a família, a cidade, o ofício etc.) ocupando um território nacional dominado por um Estado. O
Tempo, portanto, se congela e se fixa na racionalidade imanente ao espaço. O fim hegeliano da
história não acarreta o desaparecimento do produto da historicidade. Ao contrário: esse produto de
uma produção animada pelo conhecimento (o conceito) e orientada pela consciência (a linguagem, o
Logos), esse produto necessário afirma sua suficiência. Ele persevera no ser por sua própria potência.
O que desaparece é a história, que se modifica de ação em memória, de produção em contemplação.
O tempo? Não tem mais sentido, dominado pela repetição, a circularidade, a instauração de um
espaço imóvel, lugar e meio da Razão realizada.
47) Após essa fetichização do espaço às ordens do Estado, a filosofia e a atividade prática só podem
tentar a restauração do tempo28. Fortemente em Marx, que restitui o tempo histórico como tempo da
revolução. Sutilmente, mas de uma maneira abstrata e incerta, porque especializada, em Bergson
(duração psíquica, imediaticidade da consciência), na fenomenologia husserliana (fluxo
\u201cheraclitiano\u201d de fenômenos, subjetividade do Ego), e numa geração de filósofos29.
 
26 Marx, penseur de la technique, Éditions de Minuit, 1961.
27 Op. cit. p.92 et seq.
28 Cf. H. Lefebvre, La fin de l\u2019histoire, Éd. Minuit, 1970, assim como os estudos de A. Kojève sobre Hegel e o hegelianismo.
29 À qual se vinculam M. Merleau-Ponty e G. Deleuze (Anti-\u152dipe, p.114).
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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48) No hegelianismo anti-hegeliano de G. Lukacs, o espaço define a reificação, assim como a falsa
consciência. O tempo reencontrado, dominado pela consciência de classe que se eleva até o ponto
sublime onde ela apreende, com uma vista de olhos, os meandros da história, rompe a primazia do
espacial30.
49) Somente Nietzsche manteve o primado do espaço e a problemática da espacialidade: repetição,
circularidade, simultaneidade do que parece diverso no tempo e nasce do tempo diverso. No devir,
mas contra o fluxo do tempo, toda forma definida luta para se estabelecer, para se manter, que ela
assinala do físico, do mental, do social. O espaço nietzscheano nada mais tem de comum com o
espaço hegeliano, produto e resíduo do tempo histórico. \u201cCreio no espaço absoluto que é o substrato
da força, a delimita, a modela.\u201d. O espaço cósmico contém a energia, as forças, e daí procede. Como
o espaço terrestre e social. \u201cOnde está o espaço está o ser.\u201d31. As relações entre a força (a energia), o
tempo e o espaço constituem problema. Por exemplo, não se pode nem conceber um começo (uma
origem), nem se abster de pensá-lo. \u201cO interrompido e o sucessivo concordam\u201d, desde que se afaste a
atividade, além disso, indispensável que difere e assinala as diferenças. Uma energia, uma força, só
se constatam por efeitos no espaço, embora \u201cem si\u201d (mas como apreender \u201cem si\u201d, pelo intelecto
analítico, uma \u201crealidade\u201d qualquer, energia, tempo, espaço?), as forças diferem de seus efeitos.
Assim como o espaço nietzscheano não tem nada de comum com o espaço hegeliano, o tempo
nietzscheano, teatro da tragédia universal, espaço-tempo da morte e da vida, cíclico, repetitivo, não
tem nada de comum com o tempo marxista, historicidade impulsionada pelas forças produtivas,
orientadas de maneira satisfatória (otimista) pela racionalidade industrial, proletária, revolucionária.
50) Ora, o que advém na segunda metade do século XX a qual \u201cnós\u201d assistimos:
51) a) o Estado se consolida à escala mundial. Ele pesa sobre a sociedade (as sociedades) com todo
seu peso; ele planifica, organiza \u201cracionalmente\u201d a sociedade com a contribuição de conhecimentos e
técnicas, impondo medidas análogas, senão homólogas, quaisquer que sejam as ideologias políticas,
o passado histórico, a origem social das pessoas no poder.