LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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O Estado esmaga o tempo reduzindo as
diferenças a repetições, a circularidades (batizadas de \u201cequilíbrio\u201d, \u201cfeed-back\u201d, \u201cregulações\u201d etc.).
O espaço o arrasta segundo o esquema hegeliano. Esse Estado moderno se põe e se impõe como
centro estável, definitivamente, de sociedades e espaços (nacionais). Fim e sentido da história, como
entrevira Hegel, ele achata o social e o \u201ccultural\u201d. Ele faz reinar uma lógica que põe fim aos conflitos
e contradições. Ele neutraliza o que resiste: castração, esmagamento. Entropia social? Ex-crescência
{ex-crescimento} monstruosa tornada normalidade? O resultado está aí.
 
30 Cf. J. Gabel, La fausse conscience , Éd. de Minuit, 1962, p.193 et seq. E, obviamente, G. Lukacs, Histoire et conscience de
classe.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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52) b) Entretanto, as forças fervilham nesse espaço. A racionalidade do Estado, técnicas, planos e
programas, suscita a contestação. A violência subversiva replica a violência do poder. Guerras e
revoluções, fracassos e vitórias, confrontos e distúrbios, o mundo moderno corresponde à visão
trágica de Nietzsche. A normalidade estatista também impõe a perpétua transgressão. O tempo? O
negativo? Surgem explosivamente. Sua negatividade nova, trágica, se manifesta: a violência
incessante. As forças fervilhantes destampam a panela: o Estado e seu espaço. As diferenças jamais
disseram sua última palavra. Vencidas, elas sobrevivem. Elas se batem, às vezes ferozmente, para se
afirmar e se transformar na adversidade.
53) c) A classe operária, não mais ela, não disse sua última palavra; ela prossegue seu trajeto, ora
subterrâneo, ora a céu aberto. Não se desembaraça facilmente da luta de classes que ganhou formas
múltiplas, diferentes do esquema empobrecido que guarda esse nome e não se encontra bem em
Marx conforme seus guardiães reclamam. Pode ser que, num equilíbrio mortal, a oposição da classe
operária à burguesia não chegue ao antagonismo, de modo que a sociedade periga, o Estado apodreça
in loco ou se fortaleça convulsivamente. Pode ser que a revolução mundial ecloda após um período
de latência \u2013 ou a guerra planetária à escala do mercado mundial. Pode ser... Tudo se passa como se
os trabalhadores, nos países industriais, não apanhem nem a via do crescimento e da acumulação
indefinidos, nem a da revolução violenta, levando o Estado ao seu desaparecimento, mas a do
definhamento do próprio trabalho. A simples inspeção dos possíveis mostra que o pensamento
marxista não desapareceu nem pode desaparecer.
54) A confrontação entre as teses e hipóteses de Hegel, Marx, Nietzsche, começa. Não
impunemente. Quanto ao pensamento filosófico e à reflexão sobre o espaço e o tempo, ela se cindiu.
De um lado, eis a filosofia do tempo, da duração, ela própria dispersada em reflexões e valorizações
parciais: o tempo histórico, o tempo social, o tempo psíquico etc. Do outro lado, eis a reflexão
epistemológica que constrói seu espaço abstrato e reflete sobre os espaços abstratos (lógico-
matemáticos). A maioria dos autores, senão todos, se instalam muito confortavelmente no espaço
mental (portanto, neo-kantiano ou neo-cartesiano), provando assim que a \u201cprática teórica\u201d se reduz à
reflexão ego-cêntrica do intelectual ocidental especializado, e por conseqüência à consciência
inteiramente separada (esquizóide).
55) É preciso detonar essa situação. A propósito do espaço, perseguir a confrontação entre as idéias
e proposições que esclarecem o mundo moderno, mesmo se elas não o guiam. Tomar tais
proposições, não como teses ou hipóteses isoladas, como \u201cpensamentos\u201d que em seguida se estuda,
 
31 Coletânea intitulada (erroneamente) Volonté de puissance, tr. G. Bianquis, Gallimard, 1935, fragmentos 315, 316 et seq.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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mas como figuras anunciadoras, situadas nos limites da modernidade32. Tal é o propósito desta obra
sobre o espaço.
56) I.11 O propósito consistiria numa teoria crítica do espaço existente, substituindo as descrições e
recortes que aceitam esse espaço, assim como nas teorias críticas da sociedade em geral, da
economia política, da cultura etc.? Não. A substituição da utopia tecnológica por uma utopia
negativa e crítica, a respeito do espaço, como a respeito do \u201chomem\u201d ou da \u201csociedade\u201d não é mais
suficiente. A teoria crítica, levada até a contestação e mesmo até a contestação radical (seja
\u201cpontual\u201d, atacando este ou aquele \u201cponto\u201d vulnerável, seja global), acabou seu tempo.
57) Seria preciso assinalar como primeira tarefa a destruição metódica dos códigos concernentes ao
espaço? Não. O problema é inverso. Esses códigos, inerentes ao saber ou à prática social, se
dissolvem desde sempre. Persistem apenas ruínas: palavras, imagens, metáforas. Evento capital, em
que pese despercebido, de modo que sua invocação se imponha a cada momento: em torno de 1910,
o espaço comum ao bom sentido, ao saber, à prática social, ao poder político, conteúdo do discurso
cotidiano como do pensamento abstrato, meio e canal de mensagens, aquele da perspectiva clássica e
da geometria, elaborado desde a Renascença, a partir da herança grega (Euclides e a lógica), através
da arte e da filosofia do Ocidente, incorporado na cidade, esse espaço se enfraquece. Ele recebe
tantos choques e sofre tantas agressões que só retém uma realidade pedagógica num ensino
conservador com muitas dificuldades. O espaço euclidiano e perspectivo desaparece como
referencial, com os outros lugares comuns (a cidade, a história, a paternidade, o sistema tonal na
música, a moral tradicional etc.). Momento crucial. É, além do mais, fácil compreender que o espaço
do \u201cbom sentido\u201d, euclidiano e perspectivo, como a álgebra e a aritmética elementares, como a
gramática, como a física newtoniana, não podem desaparecer num instante sem deixar traços nas
consciências, no saber e na pedagogia. Não se trata mais de destruir códigos por uma teoria crítica,
mas se trata de explicar sua destruição, de constatar os efeitos e (talvez) construir um novo código
através do sobrecódigo teórico.
58) Inversão da tendência dominante, e não substituição, essa operação precedentemente indicada,
se precisa. Como no tempo de Marx (e isto será longamente mostrado, senão demonstrado), a
 
32 Anunciando desde já os nomes {matizes}, eis (sem muita ironia) algumas fontes: as obras de Charles Dodgson (pseudônimo:
Lewis Carroll), de preferência Symbolic Logic, The game of logic e Logique sans peine a Through the looking glass, Alice in
Wonderland \u2013 Le jeu des perles de verre, de Hermann Hesse, especialmente p.126 et seq. da tradução, sobre a teoria do jogo e
sua dupla relação com a linguagem e o espaço, espaço do jogo, espaço onde acontece o jogo, a Castália {la Castalie} \u2013
Hermann Weyl: Symétrie et mathématique moderne, 1952, tr. fr. Flammarion, 1964; de Nietzsche, cf. Das Philosopher Buch,
sobretudo os fragmentos sobre a linguagem e \u201ca introdução teorética sobre a verdade e a mensagem\u201d, p. 185 da tradução.
Observação importante: os textos citados precedentemente aqui e mais adiante só têm sentido em ligação com a prática
espacial e seus níveis: planificação, \u201curbanismo\u201d, arquitetura.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad.