LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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convicção enganosa: as \u201ccoisas\u201d têm mais existência que o \u201csujeito\u201d, seu pensamento, seu desejo. A
recusa dessa ilusão envolve a adesão ao \u201cpuro\u201d pensamento, ao Espírito, ao Desejo. O que remete da
ilusão realística à da transparência.
68) Para os lingüistas, semânticos, semiólogos, uma ingenuidade primeira e última admite a
\u201crealidade substancial\u201d da linguagem, enquanto ela se define pela forma. A língua passa por um
\u201csaco de palavras\u201d; os ingênuos crêem apanhar no saco a palavra que convém à coisa, a cada
\u201cobjeto\u201d correspondente à palavra adequada. No curso de toda leitura, o imaginário e o simbólico, a
paisagem, o horizonte que bordeja o percurso do leitor, se tomam ilusoriamente pelo \u201creal\u201d porque
os caracteres verdadeiros do texto, assim como a forma significante que o conteúdo simbólico
escapam à inconsciência ingênua (A notar que essas ilusões propiciam aos \u201cingênuos\u201d prazeres que
dissipam o saber que dissipa as ilusões! A ciência substitui as fruições inocentes da naturalidade, real
ou fictícia, por prazeres refinados, sofisticados, dos quais ninguém provou que sejam mais
deliciosos).
69) A ilusão da substancialidade, da naturalidade, da opacidade espacial, sustenta sua mitologia. O
artista do espaço opera numa realidade dura ou espessa diretamente oriunda da Mãe Natureza.
Escultor ao invés de pintor, arquiteto antes que músico ou poeta, ele trabalha sobre uma matéria que
resiste ou escapa. O espaço, se não depende do geômetra, possui propriedades e qualidades físicas da
terra.
70) A primeira ilusão, a da transparência, se reaproxima da idealidade filosófica, ao passo que a
segunda avizinha-se do materialismo (naturalista e mecanicista). Contudo, essas ilusões não se
combatem à maneira de sistemas filosóficos, que se fecham como couraças e se procuram para se
destruírem. Cada ilusão contém a outra e a mantém. A passagem de uma a outra, intermitência,
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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oscilação, tem portanto tanta importância quanto cada ilusão tomada separadamente. Os simbolismos
vindos da natureza obscurecem a clareza racional que provém, no Ocidente, de sua história, da
dominação conquistada sobre a natureza. A aparente translucidez tomada por obscuras forças
históricas e políticas em seu declínio (o Estado, a nacionalidade) reencontra imagens vindas da terra
e da natureza, da paternidade, da maternidade. O racional se naturaliza e a natureza se cobre de
nostalgias que suplantam a razão.
71) I.14 Programaticamente, para anunciar o que virá, pode-se a partir de agora enumerar algumas
implicações e conseqüências da proposição inicial: o espaço (social) é um produto (social).
72) Primeira implicação: o espaço-natureza (físico) se distancia. Irreversivelmente. Com certeza, ele
foi e permanece terreno comum de início: a origem, o original do processo social, talvez a base de
toda \u201coriginalidade\u201d. Com certeza, ele não desaparece pura e simplesmente da cena. Fundo do
quadro, cenário e mais que cenário, ele persiste e cada detalhe, cada objeto da natureza se valoriza
tornando-se símbolo (o menor animal, a árvore, a erva etc.). Fonte e recurso, a natureza obseda,
como a infância e a espontaneidade, através do filtro da memória. Quem não quer protegê-la, salvá-
la? Reencontrar o autêntico? Quem quer destruí-la? Ninguém. Porém, tudo conspira para prejudicá-
la. O espaço-natureza se distancia: horizonte afastado, para os que se voltam. Ele escapa ao
pensamento. O que é a Natureza? Como reaprendê-la antes da intervenção, antes da presença dos
homens e de seus instrumentos devastadores? A natureza, esse mito poderoso, se transforma em
ficção, em utopia negativa: ela não é mais que a matéria-prima sobre a qual operam as forças
produtivas de sociedades diversas para produzir seu espaço. Resistente, decerto, e infinita em
profundidade, mas vencida, no curso da evacuação, da destruição...
73) I.15 Segunda implicação: cada sociedade (por conseguinte, cada modo de produção com as
diversidades que ele engloba, as sociedades particulares nas quais se reconhece o conceito geral)
produz um espaço, o seu. A Cité antiga não pode ser compreendida como uma coleção de pessoas e
coisas no espaço; ela não pode mais ser concebida a partir de um certo número de textos e discursos
sobre o espaço, ainda que alguns dentre eles, como o Crítias e o Timeu, de Platão, ou o livro A da
Metafísica aristotélica, forneçam conhecimentos insubstituíveis. A Cité teve sua prática espacial; ela
modelou seu espaço próprio, isto é, apropriado. Daí a exigência nova de um estudo desse espaço que
o apreendesse como tal, na sua gênese e em sua forma, com seu tempo ou seus tempos específicos
(os ritmos da vida cotidiana), com seus centros e seu policentrismo (a ágora, o templo, o estádio
etc.).
74) A cité grega aqui comparece apenas para balizar o caminho. Programaticamente, cada
sociedade, tendo seu espaço próprio, propõe esse \u201cobjeto\u201d à análise, assim como à exposição teórica
global. Cada sociedade? Sim, cada modo de produção, incluindo certas relações de produção, com
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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variantes apreciáveis. O que não ocorre sem dificuldades, das quais muitas se manifestarão na
seqüência. Obstáculos, lacunas, brancos surgirão. Que sabemos, na Europa, com os conceitos
ocidentais por instrumentos, do modo de produção asiático, de seu espaço, de suas cidades e da
relação entre a cidade e o campo? Conhecemos os ideogramas que, parece, dão essa relação
figurando-a?
75) Geralmente, a própria noção de espaço social, por sua novidade, pela complexidade do real e do
formal que ela designa, resiste à análise.
76) O espaço social contém, ao lhe assinalar os lugares apropriados (mais ou menos), as relações
sociais de reprodução, a saber, as relações bio-fisiológicas entre os sexos, as idades, com a
organização específica da família \u2013 e as relações de produção, a saber, a divisão do trabalho e sua
organização, portanto, as funções sociais hierarquizadas. Esses dois encadeamentos, produção e
reprodução, não podem se separar: a divisão do trabalho repercute na família e aí se sustenta;
inversamente, a organização familiar interfere na divisão do trabalho; todavia, o espaço social
discerne essas atividades para \u201clocalizá-las\u201d. Não sem fracassos!
77) Mais precisamente, até o capitalismo, imbricam-se tais níveis, o da reprodução biológica e o da
produção sócio-econômica, envolvendo assim a reprodução social, a da sociedade que se perpetua na
seqüência de gerações, apesar dos conflitos, confrontações, lutas e guerras. Será necessário mostrar
que o espaço desempenha um papel decisivo nessa continuidade.
78) Com o capitalismo, e sobretudo com o neo-capitalismo \u201cmoderno\u201d, a situação se complica. Três
níveis se imbricam, o da reprodução biológica (a família) \u2013 o da reprodução da força de trabalho (a
classe operária como tal) \u2013 o da reprodução das relações sociais de produção, ou seja, das relações
constitutivas da sociedade capitalista, cada vez mais (e progredindo) desejadas e impostas como tais.
O papel do espaço nesse triplo arranjo deve ser estudado especificamente.
79) Para tornar as situações mais complexas, o espaço também contém certas representações dessa
dupla ou tripla interferência de relações sociais (de produção e de reprodução). Por representações
simbólicas, ele as mantêm em estado de coexistência e de coesão. Ele as exibe transpondo-as,
portanto, dissimulando-as de maneira simbólica, com a ajuda e sobre o fundo da Natureza. As