LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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representações das relações de reprodução consistem em símbolos sexuais, do feminino e do
masculino, com ou sem os das idades {gerações}, juventude e velhice. Simbolização que dissimula
mais do que não mostra, visto que essas relações se dividem em relações frontais, públicas,
declaradas e portanto codificadas \u2013 e relações veladas, clandestinas, reprimidas e definidoras desde
então de transgressões, em particular no que concerne não tanto ao sexo como tal, mas à fruição
sexual, com suas condições e conseqüências.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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80) Assim, o espaço contém esses entrecruzamentos múltiplos, em lugares e praças assinalados.
Quanto às representações de relações de produção, que envolvem relações de potência, elas também
se efetuam no espaço, e o espaço contém as representações nos edifícios, nos monumentos, nas obras
de arte. As relações frontais, por conseguinte, geralmente brutais, não impedem completamente os
aspectos clandestinos e subterrâneos; não há poder sem cúmplices e sem polícia.
81) Assim, ganha contornos uma triplicidade sobre a qual se voltará em mais de uma retomada:
82) a) A prática espacial, que engloba produção e reprodução, lugares especificados e conjuntos
espaciais próprios a cada formação social, que assegura a continuidade numa relativa coesão. Essa
coesão implica, no que concerne ao espaço social e à relação de cada membro de determinada
sociedade ao seu espaço, ao mesmo tempo uma competência certa e uma certa performance34.
83) b) As representações do espaço, ligadas às relações de produção, à \u201cordem\u201d que elas impõem e,
desse modo, ligadas aos conhecimentos, aos signos, aos códigos, às relações \u201cfrontais\u201d.
84) c) Os espaços de representação, apresentam (com ou sem código) simbolismos complexos,
ligados ao lado clandestino e subterrâneo da vida social, mas também à arte, que eventualmente
poder-se-ia definir não como código do espaço, mas como código dos espaços de representação.
85) I.16 Na verdade, o espaço social \u201cincorpora\u201d atos sociais, os de sujeitos ao mesmo tempo
coletivos e individuais, que nascem e morrem, padecem e agem. Para eles, seu espaço se comporta,
ao mesmo tempo, vital e mortalmente; eles aí se desenvolvem, se dizem e encontram os interditos;
depois caem e seu espaço contém sua queda. Para e diante do conhecimento, o espaço social
funciona \u2013 com seu conceito \u2013 como analisador da sociedade. Um esquema simplista se afasta
imediatamente, o de uma correspondência termo a termo (pontual) entre os atos e os lugares sociais,
entre as funções e as formas espaciais. Esse esquema \u201cestrutural\u201d, porque grosseiro, não terminou de
assombrar as consciências e o saber.
86) Gerar (produzir) um espaço social apropriado, no qual a sociedade geradora toma forma
apresentando-se e representando, apesar de não coincidir com ela e mesmo que seu espaço seja tanto
sua queda quanto seu berço, isso não se realiza num dia. Trata-se de um processo. É necessário
(essas palavras indicam uma necessidade que, justamente, é necessário explicitar) que a capacidade
prática dessa sociedade e suas potências soberanas disponham de lugares privilegiados: os lugares
religiosos e políticos. Tratando-se de sociedades pré-capitalistas (dependentes da antropologia, da
etnologia, da sociologia, mais que da economia política), é preciso lugares nos quais se realizem
uniões sexuais e mortes simbólicas, onde o princípio da fecundidade (a Mãe) se renove, onde se
matam os pais, os chefes, os reis, os sacerdotes e, por vezes, os deuses. De sorte que o espaço se
 
34 Termos emprestados da lingüística (da N. Chomsky), o que de modo algum subordina a teoria do espaço à lingüística.
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encontra ao mesmo tempo sacralizado e livre de potências benéficas e maléficas: retendo delas isso
para que elas favorecem a continuidade do social, extirpando isso para que elas são muito perigosas.
87) É preciso que o espaço, ao mesmo tempo natural e social, prático e simbólico, apareça povoado
(significante e significado) de uma \u201crealidade\u201d superior, por exemplo, a Luz (a do sol, da lua, dos
astros), oposta às trevas, à noite, conseqüentemente, à morte, luz identificada ao Verdadeiro, à vida,
portanto, ao pensamento e ao saber, e, por mediações incertas, ao poder existente. O que transparece
nos relatos míticos, no Ocidente como no Oriente, mas se atualiza apenas no e pelo espaço
(religioso-político). Como toda prática social, a prática espacial se vê antes de se conceber; mas o
primado especulativo do concebido sobre o vivido faz desaparecer com a vida, a prática; ele
responde mal ao \u201cinconsciente\u201d do vivido como tal.
88) É preciso também que a família (durante longo tempo muito ampla, ainda que limitada) seja
desautorizada com centro único (lar solitário) da prática social, o que ocasiona a dissolução da
sociedade \u2013 e simultaneamente retida e mantida, como \u201cbase\u201d de relações pessoais e diretas, ligadas
à natureza, à terra, à procriação, portanto à reprodução.
89) É preciso, enfim, que a morte seja ao mesmo tempo figurada e rejeitada: \u201clocalizada\u201d, ela
também, remetida ao infinito para liberar (purificar) a finitude onde se desenvolve a prática social,
onde reina a Lei que estabeleceu esse espaço. O espaço social é o da sociedade. O homem não vê
senão palavras; cada \u201csujeito\u201d se situa num espaço onde ele se reconhece ou então se perde, do qual
ele usufrui ou modifica. Paradoxo: para aí consentir, aquele que já se encontra aí (criança,
adolescente) deve submeter-se a provas, o que instala espaços reservados no seio do espaço social,
tais como os lugares de iniciação. Sem dúvida, todos os lugares sagrados-malditos, lugares de
presença-ausência dos deuses e de sua morte e das potências ocultas e de seu exorcismo, são
reservados. De modo que no espaço absoluto o lugar do absoluto não existe (o que seria um não-
lugar). O que evoca uma estranha composição do espaço religioso-político, conjunto de lugares
subtraídos e reservados, portanto, misteriosos.
90) Quanto à magia e à feitiçaria, elas também têm seus espaços próprios, que se opõem, supondo-o,
ao religioso-político: espaços também reservados e subtraídos, mais malditos que benditos e
benéficos. Enquanto certos espaços lúdicos, também consagrados (à dança sagrada, à música etc.),
sempre serão considerados mais benéficos que malditos e maléficos.
91) O espaço social teria por último fundamento o interdito: o não-dito nas comunicações entre os
membros da sociedade - o afastamento entre eles, corpos e consciências, e a dificuldade das trocas -,
o deslocamento de suas relações as mais imediatas (a da criança com sua mãe) e de sua própria
corporeidade, depois a restituição jamais plenamente realizada dessas relações em um \u201cmeio\u201d, série
de lugares especificados por defesas e prescrições?
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92) Nessa orientação, pode-se ir até explicar o espaço social por um duplo interdito: a interdição que
distancia o filho (varão) de sua mãe, porque o incesto é defendido e o que o afasta de seu próprio
corpo, porque a linguagem, compondo a consciência, decompõe a unidade imediata de seu corpo;
porque o filho (varão) suporta simbolicamente a castração e que seu próprio falo se objetiva para ele
como