LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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realidade externa. O que lança a Mãe, seu sexo e seu sangue, no maldito-sagrado, o gozo
sexual com ela tornado fascinante e inacessível.
93) Essa tese35 pressupõe a anterioridade lógica, epistemológica, antropológica da linguagem em
relação ao espaço. Do mesmo golpe, ela situa os interditos (a proibição, do incesto, entre outros) na
origem da sociedade, e não na atividade produtora. Ela se põe de acordo, sem outro exame, com um
espaço objetivo, neutro e vazio e gera somente o espaço da palavra (e da escrita). Veremos que essas
preliminares não convém apenas porque não dão conta da prática sócio-espacial, senão numa
sociedade imaginária, modelo ou tipo ideal que constrói essa ideologia e que ela identifica
insolentemente a todas as sociedades \u201creais\u201d. Contudo, a existência, no espaço, da verticalidade
fálica (que vem de longe, mas tem uma tendência para se acentuar) pede uma interpretação. Assim
como o fato geral que o muro, o tapume, a fachada definem ao mesmo tempo uma cena (onde algo
se passa) e uma obscena, o que não pode e não deve advir nesse espaço: o inadmissível, maléfico e
interdito, que tem seu espaço oculto, aquém ou além de uma fronteira. Tudo explicar pela psicanálise
e pelo inconsciente conduz a um reducionismo e a um dogmatismo insuportáveis; assim como a
superestimaçäo do \u201cestrutural\u201d. Existem, entretanto, estruturas, existe o \u201cinconsciente\u201d, o
malconhecido da consciência tomaria seu justo lugar nesta pesquisa. Se, por exemplo, afirma-se que
toda sociedade e especificamente a cidade têm uma vida subterrânea e reprimida, portanto um
\u201cinconsciente\u201d, o interesse pela psicanálise em declínio irrompe.
94) I.17 O desenvolvimento de uma outra implicação da hipótese proposta exigirá ainda mais
esforços. Se o espaço é um produto, o conhecimento reproduzirá essa produção, ele a exporá. O
interesse e o \u201cobjeto\u201d se transferem das coisas no espaço para a produção do espaço ele próprio,
fórmula que reclama ainda muitas explicações. Os produtos parciais localizados no espaço, as coisas,
de um lado, e do outro os discursos sobre o espaço servem apenas como indicações e testemunhos
sobre esse processo produtivo (que compreende, sem reduzir-se a isso, processos significantes). Não
é mais, portanto, o espaço disto ou daquilo que importa, mas o espaço como totalidade ou
globalidade, que deve, desde já, não apenas ser estudado analiticamente (o que ameaça propiciar
fragmentações e recortes ao infinito, subordinados à intenção analítica), mas ser engendrado pelo e
no conhecimento teórico. A teoria reproduz, com um encadeamento de conceitos, mas num sentido
 
35 Inerente aos textos do Dr. J. Lacan e de sua escola.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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muito forte, o processo gerador: de dentro e não somente de fora (descritivamente) \u2013 como
globalidade, passando portanto sem cessar do passado ao atual (e inversamente). Com efeito, o
histórico e suas conseqüências, o \u201cdiacrônico\u201d, a etimologia dos lugares, isto é, o que neles se passa
modificando as localidades e praças, tudo isso inscreve-se no espaço. O passado deixou seus traços,
suas inscrições, escrita do tempo. Mas esse espaço é sempre, hoje como outrora, um espaço presente,
dado como um todo atual, com suas ligações e conexões em ato. De modo que a produção e o
produto se apresentam como dois lados inseparáveis e não como duas representações separáveis.
95) Uma objeção: a uma ou outra época, numa sociedade (antiga-escravagista, medieval-feudal etc.)
os grupos ativos não \u201cproduziram\u201d seu espaço como se \u201cproduz\u201d um vaso, um móvel, uma casa, uma
árvore frutífera. Então, como aí considerá-los? A questão, altamente pertinente, cobre os \u201ccampos\u201d
considerados. Efetivamente, mesmo o neo-capitalismo ou capitalismo de organizações, mesmo os
planificadores e programadores tecnocráticos não produzem um espaço com pleno e inteiro
conhecimento das causas, efeitos, razões e implicações.
96) Os especialistas de diversas \u201cdisciplinas\u201d podem responder a essa questão ou tentar, a partir
delas, respondê-la. Assim, o ecologista partirá dos ecossistemas na natureza; ele mostrará como a
ação dos grupos humanos perturba os equilíbrios desses ecossistemas e como esses equilíbrios se
restabelecem na maioria dos casos, quando se trata de sociedades \u201cpré-técnicas\u201d, ou \u201carqueo-
técnicas\u201d; em seguida, ele examinará as relações entre cidade e campo, as perturbações acarretadas
pela cidade, a possibilidade de um novo equilíbrio ou de sua impossibilidade. Ele terá, assim,
esclarecido e mesmo explicado, de seu ponto de vista, a gênese do espaço social moderno. Os
historiadores procederão diferentemente, segundo seu método e sua tendência. Os que estudam os
acontecimentos estabelecerão o quadro cronológico de decisões concernentes à relação de cidades e
seu território, a construção de monumentos; outros reconstituirão a ascensão e o declínio de
instituições que deram lugar aos edifícios; outros ainda estudarão economicamente as trocas entre
cidades, entre cidades e territórios, Estados e cidades etc.
97) Para ir mais adiante, retomemos conceitos já indicados e cuja elaboração será continuada.
98) a) A prática espacial de uma sociedade secreta seu espaço; ela o põe e o supõe, numa interação
dialética: ela o produz lenta e seguramente, dominando-o e dele se apropriando. Para a análise, a
prática espacial de uma sociedade se descobre decifrando seu espaço.
99) O que é a prática espacial no neo-capitalismo? Ela associa estreitamente, no espaço percebido, a
realidade cotidiana (o emprego do tempo) e a realidade urbana (os percursos e redes ligando os
lugares do trabalho, da vida \u201cprivada\u201d, dos lazeres). Associação surpreendente, pois ela inclui em si
{pressupõe} a separação exacerbada entre esses lugares que ela religa. A competência e a
performance espaciais próprias a cada membro dessa sociedade só se examinam empiricamente. A
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
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prática espacial \u201cmoderna\u201d se define, portanto, pela vida cotidiana de um habitante de HLM no
subúrbio, caso-limite e significativo; o que não autoriza negligenciar as auto-estradas e a aero-
política. Uma prática espacial deve possuir uma certa coesão, o que não quer dizer uma coerência
(intelectualmente elaborada: concebida e lógica).
100) b) As representações do espaço, ou seja, o espaço concebido, aquele dos cientistas, dos
planificadores, dos urbanistas, dos tecnocratas \u201cretalhadores\u201d e \u201cagenciadores\u201d, de certos artistas
próximos da cientificidade, identificando o vivido e o percebido ao concebido (o que perpetua as
sábias especulações sobre os Números: o número de ouro, os módulos e \u201ccanhões\u201d). É o espaço
dominante numa sociedade (um modo de produção). As concepções do espaço tenderiam (com
algumas reservas sobre as quais será preciso retornar) para um sistema de signos verbais, portanto,
elaborados intelectualmente.
101) c) Os espaços de representação, ou seja, o espaço vivido através das imagens e símbolos que o
acompanham, portanto, espaço dos \u201chabitantes\u201d, dos \u201cusuários\u201d, mas também de certos artistas e
talvez dos que descrevem e acreditam somente descrever: os escritores, os filósofos. Trata-se do
espaço dominado, portanto, suportado, que a imaginação tenta modificar e apropriar. De modo que
esses espaços de representação tenderiam (feitas as mesmas reservas precedentes) para sistemas mais
ou menos coerentes de símbolos e signos não verbais.
102) A autonomização (relativa)