LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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do espaço como \u201crealidade\u201d, resultando de um longo processo \u2013
sobretudo no capitalismo e no neo-capitalismo (de organizações) \u2013 introduz contradições novas. As
contradições do espaço serão descobertas mais adiante. Aqui indicamos apenas a relação dialética no
seio dessa triplicidade: o percebido, o concebido, o vivido.
103) Triplicidade: três termos e não dois. Uma relação a dois termos reduz-se a uma oposição, a um
contraste, a uma contrariedade; ela se define por um efeito significante: efeito de eco, de
repercussão, de espelho. A filosofia dificilmente superou as relações a dois termos: o sujeito e o
objeto, a \u201cres cogitans\u201d e a \u201cres extensa\u201d de Descartes, o Eu e o Não-eu dos kantianos, pós-
kantianos, neo-kantianos. O \u201cbinarismo\u201d não tem mais nada a ver com as concepções mecânicas da
luta encarniçada entre dois princípios cósmicos; tornado mental, ele evacua da vida, do pensamento,
da sociedade (do físico, do mental, do social, do vivido, do percebido, do concebido), tudo o que faz
a atividade vivente. Após o esforço titânico de Hegel e de Marx, a filosofia sucumbe nas oposições
ditas \u201cpertinentes\u201d, arrastando várias ciências especializadas (ou arrastada por elas) e determinando o
inteligível pelas oposições e sistemas de oposições, sob pretexto de transparência. Um tal sistema
não teria nem materialidade nem resíduo; um sistema perfeito, ele se oferece como uma evidência
racional para a inspeção mental. O paradigma teria esse poder mágico: metamorfosear o obscuro em
transparente, deslocar o \u201cobjeto\u201d da sombra para a luz sem o deformar, tão-somente por sua
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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formulação. Numa palavra, descriptar. O saber coloca-se a serviço do poder com uma admirável
inconsciência, suprimindo as resistências, as sombras e seus \u201cseres\u201d.
104) Para compreender o espaço social em três momentos, que se reporta ao corpo. Uma vez que a
relação com o espaço de um \u201csujeito\u201d, membro de um grupo ou de uma sociedade, implica sua
relação com seu próprio corpo, e reciprocamente. A prática social considerada globalmente supõe
um uso do corpo: o emprego das mãos, membro, órgãos sensoriais, gestos do trabalho e os das
atividades exteriores ao trabalho. É o percebido (base prática da percepção do mundo exterior, no
sentido dos psicólogos). Quanto às representações do corpo, elas provêm de uma aquisição científica
difundida com uma mistura de ideologias: o anatômico, o fisiológico, as doenças e os remédios, a
relação do corpo humano com a natureza, os arredores e o \u201cmeio\u201d. O vivido corporal, ele, alcança um
alto grau de complexidade e de estranheza, pois a \u201ccultura\u201d aí intervém sob a ilusão de
imediaticidade, nos simbolismos e na longa tradição judaico-cristã, da qual a psicanálise desdobra
certos aspectos. O \u201ccoração\u201d vivido (até os mal-estares e doenças) difere estranhamente do coração
pensado e percebido. Ainda mais o sexo. As localizações nada têm de fácil e o corpo vivido atinge,
sob a pressão da moral, a estranheza do corpo sem órgãos, castigado, castrado.
105) A triplicidade: percebido-concebido-vivido (espacialmente: prática do espaço - representação do
espaço \u2013 espaços de representação) perde seu alcance caso se lhe atribua o estatuto de um \u201cmodelo\u201d
abstrato. Ou ela apreende o concreto (e não o \u201cimediato\u201d), ou ela tem uma importância apenas
reduzida, a de uma mediação ideológica entre muitas outras.
106) É imprecindível que o vivido, o concebido, o percebido sejam reunidos, de modo que o
\u201csujeito\u201d, o membro de determinado grupo social, possa passar de um ao outro sem aí se perder. Eles
constituem uma coerência? Talvez, nas circunstâncias favoráveis. Sem dúvida há então uma
linguagem comum, um consenso, um código. Pode-se supor que a cidade ocidental, do renascimento
italiano ao século XIX, teve essa chance. A representação do espaço domina e subordina o espaço de
representação (de origem religiosa), reduzido a figuras simbólicas, o céu e o inferno, o diabo e os
anjos. Pintores, arquitetos, teóricos toscanos elaboraram, então, uma representação do espaço, a
perspectiva a partir de uma prática social, ela própria resultado, como se verá, de uma modificação
histórica modificando a relação \u201ccidade-campo\u201d. Ao passo que o senso comum, algo pouco reduzido
ao silêncio, conservou mal modificado um espaço de representação advindo do Etruscos
atravessando os séculos da romanidade e da cristandade. A linha de horizonte, a fuga e o encontro
\u201cno infinito\u201d das paralelas, determinaram uma representação ao mesmo tempo intelectual e visual,
provocando o primado do olhar numa espécie de \u201clógica da visualização\u201d. Essa representação, em
curso de elaboração durante séculos, investe-se na prática arquitetural e urbanística: as perspectivas,
o código.
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107) Para concluir essa investigação e provar na medida do possível a teoria assim construída, seria
preciso generalizar, estendendo as distinções propostas, a todas as sociedades, a todas as épocas, a
todos os \u201cmodos de produção\u201d. Contentemo-nos por enquanto com alguns argumentos, sem
esperança de ir até o limite da tarefa. As representações do espaço seriam penetradas de saber
(conhecimento e ideologia misturadas) sempre relativo e em transformação. Elas seriam, portanto,
objetivas, embora possam ser revistas. Verdadeiras ou falsas? A questão não tem sempre um sentido
definido. A perspectiva é verdadeira ou falsa? Abstratas, com certeza, as representações do espaço
entram na prática social e política, as relações estabelecidas entre os objetos e as pessoas no espaço
representado dependendo de uma lógica que os faz, cedo ou tarde, explodir porque incoerentes. Os
espaços de representação, vividos mais que concebidos, não constrangem jamais à coerência, não
mais que à coesão. Penetrados de imaginário e de simbolismo, eles têm por origem a história, de um
povo e a de cada indivíduo pertencente a esse povo. Os etnólogos, os antropólogos, os psicanalistas
estudam, sabendo ou não, esses espaços de representação, freqüentemente esquecendo de confrontá-
los com as representações do espaço que coexistem, conciliando-se ou neles interferindo,
negligenciando ainda mais a prática espacial. Os cientistas aí reconhecem isoladamente o que lhes
interessa: lembranças da infância, sonhos, imagens e símbolos uterinos (ninhos, corredores,
labirintos). O espaço de representação se vê, se fala; ele tem um núcleo ou centro afetivo, o Ego, a
cama, o quarto, a moradia ou a casa; - a praça, a igreja, o cemitério. Ele contém os lugares da paixão
e da ação, os das situações vividas, portanto, implica imediatamente o tempo. De sorte que ele pode
receber diversas qualificações: o direcional, o situacional, o relacional, porque ele é essencialmente
qualitativo, fluido, dinamizado.
108) Se a distinção for generalizada, ela exigirá uma reconsideração da história. Conviria não apenas
estudar a história do espaço, mas a das representações, assim como a dos laços entre elas, com a
prática, com a ideologia. Uma tal história comportaria, por conseguinte, a gênese desses espaços,
mas sobretudo de suas conexões, distorções, deslocamentos, interferências e de seus laços com a
prática espacial das sociedades (modos de produção).
109) Pode-se rebater que as representações do espaço tenham um alcance prático, que elas se inserem,
modificando-as, nas texturas espaciais, emprestadas de conhecimentos e de ideologias eficazes. As
representações do espaço teriam assim um alcance considerável