LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço
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LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço


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e uma influência específica na
produção do espaço. Como? Pela construção, ou seja, pela arquitetura, concebida não como a
edificação de tal \u201cimóvel\u201d isolado, palácio, monumento, mas como um projeto se inserindo num
contexto espacial e numa textura, o que exige \u201crepresentações\u201d que não se perdem no simbólico ou
no imaginário.
LEFEBVRE, Henri. A produção do espaço. Trad. Doralice Barros Pereira e Sérgio Martins (do original: La production de l\u2019espace. 4e éd. Paris: Éditions
Anthropos, 2000). Primeira versão: início - fev.2006
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110) Em contrapartida, os espaços de representação não seriam produtivos, senão de obras
simbólicas, freqüentemente únicas, por vezes determinando uma direção \u201cestética\u201d, esgotando-se ao
fim de um certo tempo depois de ter suscitado uma série de expressões e de incursões no imaginário.
111) Uma tal distinção deve ser manejada com bastante precaução. Rapidamente ela introduziria
dissociações, enquanto se trata, ao contrário, de restituir a unidade produtiva. Ademais, não é certo
que ao avançar ela possa ser generalizada. O Oriente (a China) conheceu a diferença entre as
representações do espaço e os espaços de reprentação? Nada é menos certo. É possível, ao contrário,
que seus ideogramas contenham indissoluvelmente uma presença da ordem do mundo (espaço-
tempo) e uma apreensão do espaço-tempo concreto (prático e social) nos quais se desenvolvem os
simbolismos, se compõem as obras de arte, se constroem os edifícios, templos e palácios. Mais
adiante retornaremos a essa questão, sem, aliás, respondê-la, por falta de um conhecimento
determinado do Oriente. Em contrapartida, no Ocidente e quanto à prática ocidental, a partir da
Grécia e de Roma, tentaremos mostrar a gênese dessa distinção, seu alcance e seu sentido. Não é,
além disso, certo que a distinção se mantenha sem alteração até a época moderna, nem que não tenha
havido inversões de situação (a produtividade de espaços de representação, por exemplo).
112) Determinados povos (digamos, por exemplo, os andinos do Peru, época Chavin) tiveram uma
representação do espaço da qual são testemunhos os planos de templos e palácios36, e um espaço de
representação que figura nas obras de arte, grafismos, tecidos etc. Qual relação havia entre esses dois
aspectos de uma época? Hoje em dia o conhecimento obstina-se em reconstituir pela via conceitual
uma conexão que nada tem de uma aplicação à \u201crealidade\u201d de um saber preexistente. Daí a extrema
dificuldade dessa reconstrução: os símbolos, que se sente e pressente, escapam como tais ao nosso
saber abstrato, sem corpo, sem temporalidade, sofisticado, eficaz, mas \u201cirreal\u201d em relação a certas
\u201crealidades\u201d. Que houve nesse meio ou interstício, entre as representações do espaço e o espaço de
representação? Uma cultura? Decerto, mas a palavra tem uma plenitude enganosa. O trabalho da
arte? Certamente, mas quem e como? A imaginação? Talvez, mas por que e para quem?
113) A distinção proposta teria ainda mais alcance se os teóricos e os práticos de hoje operassem,
cada um de seu lado, uns elaborando espaços de representação, outros representações do espaço.
Para citar nomes, pode-se pensar que Frank Lloyd Wright aceita um espaço de representação
comunitária, oriundo de uma tradição bíblica e protestante, ao passo que Le Corbusier elabora uma
representação do espaço tecnicista, cientificista, intelectualizada.
 
36 Cf. F. Hebert Stevens, L\u2019Art de l\u2019Amérique du sud , Arthaud, 1973, p.55 et seq. Para compreender o espaço medieval,
representação do espaço \u2013 espaço de representação, ler le Grand et le Petit Albert e sobretudo le Traité des influences astrales,
reed. Albin Michel, 1971.
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114) Talvez seja preciso ir mais longe e admitir que os produtores do espaço sempre agiram segundo
uma representação, ao passo que os \u201cusuários\u201d suportam o que se lhes é imposto, mais ou menos
inserido ou justificado em seu espaço de representação. Como se efetuam tais manipulações? Cabe à
análise responder. Se é certo que os arquitetos (e os urbanistas) têm uma representação do espaço, de
onde eles a tiram? Em proveito de quem ela se \u201coperacional\u201d? Se é certo que os \u201chabitantes\u201d têm um
espaço de representação, um curioso mal-entendido começa a se elucidar. O que não quer dizer que
ele desaparece na prática social e política.
115) A noção de ideologia, ferida de obsolescência, periga mesmo se a teoria crítica ainda admite sua
necessidade. Esse conceito nunca se elucida; abusou-se dele: ideologia marxista, ideologia burguesa,
ideologia proletária, revolucionária, socialista etc. Distinções incongruentes entre a ideologia em
geral e as ideologias particulares, entre \u201caparelhos ideológicos\u201d e instituições do saber etc.
116) O que é uma ideologia sem um espaço ao qual ela se refere, que ela descreve, do qual ela utiliza
o vocabulário e as conexões, do qual ela contém o código? Que seria da ideologia religiosa, na
espécie judaico-cristã, se ela não se baseasse nos lugares e seus nomes: a igreja, o confessionário, o
altar, o santuário, o púlpito, o sacrário etc.? Que seria da Igreja sem as igrejas? A ideologia cristã,
veiculando um judaísmo reconhecível e malconhecido (Deus, o pai etc.), criou espaços que
asseguram sua duração. Mais geralmente, o que se denomina \u201cideologia\u201d, só adquire consistência
intervindo no espaço social, na sua produção, para aí ganhar corpo. Em si, ela não consistiria
sobretudo num discurso sobre esse espaço?
117) Se o conhecimento, segundo uma fórmula célebre que vem de Marx, torna-se imediatamente e
não mais mediatamente uma força produtiva, e isso a partir do modo de produção capitalista37, a
relação ideologia-conhecimento muda. O saber toma o papel da ideologia. A ideologia, enquanto
distinta do saber, caracteriza-se pela retórica, a metalinguagem, portanto, verborréia e elucubração
(não mais pela sistematização filosófico-metafísica, pela \u201cculturas\u201d e \u201cvalores\u201d). Mais ainda:
ideológica e lógica podem se confundir, na medida em que a pesquisa obstinada de uma coerência e
de uma coesão extirpa as contradições pelo alto \u2013 informação e saber \u2013 e por baixo, o espaço da vida
cotidiana.
118) Um representação do espaço pôde misturar ideologia e conhecimento no interior de uma prática
(sócio-espacial). Assim, tipicamente, a perspectiva clássica. Do mesmo modo, hoje em dia, o espaço
dos planificadores, aquele da localização que atribui a cada atividade um lugar pontual.
 
37 Cf. Grundrisse.
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119) A ideologia e o saber, mal discerníveis, entram no conceito mais amplo de representação, que
suplanta desde logo o de ideologia. Esse conceito pode servir de instrumento (operatório) para a
análise de espaços, assim como de sociedades que os geraram e se assenhorearam deles.
120) Na Idade Média, a prática espacial compreendia as redes de caminhos na vizinhança de
comunidades camponesas, de monastérios e castelos, e as estradas religando as cidades, as grandes
vias de peregrinações e cruzadas. Quanto às representações do espaço, elas são emprestadas das
concepções de Aristóteles e de Ptolomeu, modificadas pelo cristianismo: a terra, o \u201cmundo\u201d
subterrâneo, e o Cosmos luminoso, céu dos justos e dos anjos, habitado por Deus, o pai, seus Filhos e
o Espírito. Uma esfera fixa, num espaço finito, seccionado diametralmente pela superfície terrestre,